Jornal do Brasil

Domingo, 27 de Maio de 2018 Fundado em 1891

Cultura

De Santo Amaro a Xerém

Maria Bethânia e Zeca Pagodinho - o encontro da Rainha e do Rei

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES*Especial para o JB

O encontro da Rainha das Cantoras com o Rei do Samba é mais do que um império. Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, em “De Santo Amaro a Xerém”, criam um momento maior. A união de dois estilos, duas bandas, dois carismas  assombrosos, dois dos mais importantes maestros, transformam o show num retrato acurado da riqueza da MPB. 

Espelhando a nossa diversidade, o roteiro feito pelos dois artistas apresenta 37 joias . São sambas dos mais variados estilos -enredo, canção, roda - dos maiores compositores de Noel a Leandro Fregonesi, baianos como Nelson Ru?no, cariocas como Zé Keti, consagrados Chico e Caetano. Cem minutos de puro encantamento.

Os cariocas vão ver amanhã, o show que os baianos viram no sábado, dia 14, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, com os 5 mil lugares esgotados. Os fãs anônimos se misturam aos famosos, a Concha é democrática, sem cercadinho vip. Regina Casé, que foi a Salvador só para o show, procura um lugar no chão na área já bem ocupada em frente ao palco. Nelson Rufino, saudado por Zeca na abertura, compositor de “Verdade”, diz que “é preciso aproveitar cada nota desse show”.

A Concha, palco de encontros inesquecíveis, como Chico e Caetano em 1972 e a volta dos Novos Baianos em 2016, traz um componente único: a plateia que transformou as arquibancadas em um enorme salão de baile, dançando e cantando, reverenciando sua Rainha e acolhendo com fervor o mais carioca dos cantores.

Zeca e Bethânia entram de mãos dadas no palco

Os músicos são capitaneados pelos extraordinários maestros, que ficam sentados lado a lado. Paulão Sete Cordas, o de Zeca Pagodinho, é chamado por Jaime Alem, o lendário maestro de Bethânia, da enciclopédia do samba. Paulo emenda que Jaime é grande arranjador, com uma obra autoral para cordas de enorme talento.

Zeca e Bethânia entram de mãos dadas no palco. Ele, todo de branco, terno e sapatos; ela, com blusa branca e uma saia comprida de listras largas e coloridas. É um rugir de tanta emoção. Cantam a música tema – “De Santo Amaro a Xerém” - composta especialmente por Caetano e emendam com “Sonho meu”. E fazem o melhor dueto do show, repetindo aquele de Chico e Caetano, com Zeca cantando “Voce não entende nada” e Bethania vai de “Cotidiano”.

Zeca inicia com “Eu sou o samba” e vai desfilando seus sucessos que a plateia acompanha no bailão. Bethânia, com um bustiê prateado, começa com “Adalgisa (que a Bahia está viva)”, mas acrescenta músicas que falam de enorme tristeza: a social com “Gente humilde”; amorosa em “Negue” e política em “Tropicália II”. E, no meio do texto sobre Rio e Mangueira, grita com os braços para o alto: “Marielle presente!”. 

Com estolas de plumas verde e rosa homenageia a Mangueira. Agora, é Zeca, de camisa azul, que presta reverência a sua Portela. Enquanto Zeca e Bethânia se revezam, a plateia se embevece. “Meu maior sonho era ver um show de Bethania. Quando ela entrou no palco, me acabei de chorar. E durante anos, escrevi para o quadro ‘Dia de princesa’, para conseguir passar um dia em Xerém com Zeca Pagodinho. E com ele aprendi a ser cervejeira”, fala Taina Monteiro. Adelmo Botto , médico, levou a família inteira. As irmãs, a melhor amiga, a sua secretária. A?nal, hoje é dia de um enorme encontro. Não perco uma apresentação na Bahia. Vou repetir a dose em São Paulo.

Desde cedo, estou ouvindo as músicas que acho que fariam parte do set list.’” Como expert, acertou praticamente todas. Juntam-se os dois para o dueto final. Cantam “Chão de estrelas”, “Desde que o samba é samba”, “Diz que fui por aí”, sucessos de vários outros shows. Ousadia. Encerram com a música-tema. E o bis rápido, “Deixa a vida me levar” e “O que é, o que é” deixa aquele gosto de quero mais. Arany Santana, secretária Estadual de Cultura, fala “o carioca é baiano, o baiano é carioca. Assim é que tem que ser. Afinal, diz, o samba é o que nos une e o que nos salva”. A plateia grita “Lula livre!” , sai com a sensação da vitória e de que foi coroada com a magia do talento do melhor da música brasileira. 

*Claudia Chaves, professora do Depto de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

Serviço

Maria Bethânia e Zeca Pagodinho - De Santo Amaro a Xerém Amanhã, dia 21, às 22h Km de Vantagens Hall (Av. Ayrton Senna, 3.000 - Shopping Via Parque. Barra da Tijuca; Tel.: 2156-7300) Duração: 1h40. Capacidade: 3.120 lugares. Ingressos: de R$ 35 a R$ 250



Tags: bethania, musica, plateia, protesto, zeca

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