Jornal do Brasil

Sábado, 21 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Antítese aos pixels

Breve retrospectiva de Victor Arruda e individual de Vicente de Mello são inauguradas

Jornal do Brasil Mônica Riani

O Museu de Arte Moderna (MAM), no Parque do Flamengo, convida o público para uma verdadeira aula de arte contemporânea brasileira. Duas exposições oferecem um encontro de gerações raro de ser visto, capaz de construir uma narrativa exuberante. “Arruda, VICTOR” é uma breve retrospectiva de 50 anos de carreira do artista Victor Arruda, enquanto “Monolux” traz a individual da nova fase da obra do consagrado fotógrafo Vicente de Mello, formada por 28 trabalhos em torno do questionamento sobre os caminhos que a vertiginosa reprodução de imagens segue na atualidade. Arruda completa 70 anos, como o próprio MAM, registre-se. O curador Adolfo Montejo Navas, que investigou toda a produção de Arruda para a montagem desta panorâmica sobre o artista, destaca cem trabalhos num recorte a partir dos anos 1970 até pinturas recentes. O poeta Eucanaã Ferraz responde pela curadoria de Vicente de Mello, desvendando aspectos explorados pelo artista em sua pesquisa de linguagem. 

Obras dos artistas compõem uma narrativa exuberante da arte contemporânea brasileira

“Talvez a quebra de classificações esteja destinada a alguns artistas de forma atávica, ou inclusive acidental, no caso, pela conjunção astral da natureza de uma poética com a biografia das circunstâncias – aquela confluência em jogo de identidade e história, respectivamente. No intenso itinerário de Victor Arruda, aliam-se, portanto, fatores que provêm da arte, da cultura por extenso, mas também da visualidade social, da comunicação ou do imaginário político”, analisa Navas. 

O curador assinala que dois grandes temas despontam para a compreensão da obra de Arruda. O primeiro é “Palavras e textos”, que estrutura grande variedade de obras e suportes. A escrita é uma característica marcante na pintura do artista, e ora aparece como frases ou palavras soltas, ora como narrativa. As demais pinturas estarão agrupadas por décadas, de 1970 até a atualidade. Além de pinturas, a exposição tem uma instalação – “Homenagem às vítimas do dinheiro” (2014) – desenhos, fotografias, vídeos e cadernos de anotação do artista. 

O segundo tema enfatiza diálogos heterodoxos com artistas de diversas épocas. Os trabalhos de Victor Arruda trazem referências à história da arte, como os suprematistas russos ou Magritte (1898-1967) – “o artista que mais admiro, que já disse tudo o que tinha que dizer” – embora nem sempre aparentes. Estarão na exposição várias dessas pinturas feitas em homenagem a outros artistas. “Penso muito nos títulos”, explica. “Quero deixar tudo explícito, facilitar a comunicação com o espectador”, afirma Victor. 

Fronteiras pautam discursos

Por definição própria “fotógrafo, educado a reconhecer o ato fotográfico como uma ação de foro pessoal, autoral, profissional, da procura da imagem perfeita, singular, carregada de significados implícitos”, Vicente de Mello conta que buscou entender e lidar com a forma como a tecnologia esgarçou as fronteiras da captação e da pluralidade de imagens.  

Buscou a natureza primeira da fotografia, os fotogramas - fotografias sem câmera e sem negativo, uma antítese do impalpável e imensurável universo de pixels. “Agradava-me a ideia de pensar que tanto a luz quanto os objetos exerciam uma ação tátil de clara composição ambígua sobre o papel, resultando em um fato fotográfico de força enigmática”, explica. 

O título da exposição, “Monolux”, vem da lembrança de Vicente de Mello do nome de um telescópio japonês de uso amador dos anos 1970, e “pelo fato físico de que, para imprimir os fotogramas, uma única fonte de luz é utilizada: a lâmpada da cabeça do ampliador”: “Os fotogramas abandonam a materialidade do negativo, para lidar com a materialidade da luz, e a experimentação é a força orientadora, a âncora na imaterialidade da imagem”, diz. “O princípio do fotograma é o avesso do que está por cima do papel fotográfico, é o nexo entre a materialidade dos objetos e seu volume nulo, em fundo-abismo”. 

O artista explica que os materiais utilizados têm uma relação particular entre si: “vieram das minhas coleções de madeira, de itens fotográficos, de coisinhas acumuladas que achei na rua, que comprei no mercado de pulgas, de objetos de uso doméstico e as que criei, exclusivamente, para configurarem como formas reconhecíveis”. Na impressão dos objetos, dentro do retângulo de 50cm x 60cm, “todas as modulações, tentativas e acidentes foram às cegas”, conta ele. “O laboratório precisa estar em completa escuridão e somente uma luz vermelha (que não revela o papel virgem) permeia o ambiente para guiar a colocação dos objetos. O que vejo nos fotogramas é que a forma impressa não respeita a gravidade, tudo flutua e parece entrar em orbita, em um infinito impalpável. Não estou reinventando a pólvora”. 

O artista comenta que as proposições de seus fotogramas, se baseiam em duas interpretações – uma na literatura italiana e outra na brasileira – que lhe agradam “aos olhos e mente”: “Umberto Boccioni (1882 – 1916), que desde o texto do manifesto técnico da pintura futurista, afirmava que era fundamental estabelecer uma relação de complementariedade entre a observação do mundo fenomênico, o indelével que só existe em nossa mente e o que se manifesta por meio da recordação. A meu ver, ele queria atribuir importância à capacidade de se recorrer às recordações individuais, e por meio da ‘intuição e estado da alma’ constituir o fazer artístico. 

A outra interpretação de que gosto é a uma fala em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa (19801967) que contextualiza as referências das imagens dos meus fotogramas: “O que lembro, tenho!”. A relocação dos objetos no pré-table top, foram fundamentais para transcender o representado, o que via na composição realizada a olho nu, das imagens que tinha em mente, não eram o resultado em preto e branco, após o laboratório. Olhava para as composições e pensava: ‘vocês perderão a posição de protagonistas e entrarão em uma atmosfera de cumplicidade’.”

Pintura rude, sem concessões 

Victor Arruda é conhecido por sua pintura rude, bruta, sem concessões, com uma feroz crítica à hipocrisia e ao abuso de poder. Desde sempre, foi ligado à abordagem de questões de gênero, com cenas explícitas de sexo. Para o artista, sua arte é conceitual, em que a “pornografia” (“nas aspas”, ele ressalta) e a agressividade estão a serviço da discussão de temas internos e também sociais, como o assédio denunciado na pintura “Salário mais justo”, de 1975. Suas obras estão em coleções importantes como a de Gilberto Chateaubriand, Luiz Schymura, João Sattamini, Hélio Portocarrero e a do crítico italiano Achille Bonito Oliva (1939), que conheceu seu trabalho por intermédio do artista Antonio Dias (1944). 

“Como pintura crítica, em sua dupla condição, de questionamento do mundo, de coisas que o merecem, e como arte instável, em situação de risco, o corpus ousado desta obra se origina no conflito das formas consagradas não só pela estética como pelo consenso geral. E, nesse sentido, o eros da linguagem se gera junto com a linguagem de eros: com uma onipresença do corpo, de suas pulsões tão internas como externas paralelamente à procura de outra figuração e alteridade. Imagens em dissenso que fazem parte da problematização do gosto”, analisa Navas. 

Para encerrar, escreve: “ao mesmo tempo, a sua iconografia desde os primeiros anos da década de 1970 vai se assentar por igual em questões conflitantes, de tensão não só estética, sobretudo quando a sociedade mais vigente pratica a hipocrisia como modus operandi, a dupla moral ou algum fundamentalismo que beneficie seus interesses ideológicos ou econômicos. De fato, resulta quase irônico que uma grande parte da obra de Victor Arruda venha a atualizar-se por recentes acontecimentos, fora da demarcação da arte; não só pela defesa insubornável da transexualidade como direito do sujeito do século XXI ou então o registro da decadência da história coletiva, como sobretudo pela denúncia pioneira há mais de quarenta anos da figura perversa do assédio sexual, aliado a outros jogos de costume e comportamento do patriarcado que a cultura ex-colonial promovia sem ninguém na época dizer nada (hoje, desde Hollywood até a publicidade, a denúncia virou assombro e depois notícia). Além dessas perspectivas colaterais, o interessante é que o aggiornamento crítico continua”.



Tags: arte, b, caderno, exposição, jb, mostra

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