Jornal do Brasil

Segunda-feira, 18 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Mulheres, a luta continua

Filósofa e escritora Marcia Tiburi fala sobre novo livro

Jornal do Brasil Cecília Costa

Não gosto muito de deixar passar em branco o 8 de março,  Dia Internacional da Mulher. Até porque a luta continua, com taxas crescentes de feminicídio – a do Brasil é a quinta maior do mundo – denúncias de assédio sexual; mutilação genital; incesto; estupro; salários inferiores ao dos homens no mesmo emprego ou função; exploração por meio das múltiplas jornadas de trabalho e padronização estética da beleza feminina. 

Não me importa muito a origem exata da data: se foi a morte das 146 costureiras no incêndio ocorrido na Fábrica Triangle Shirtwaist, em 25 de março de 1911, o maior incêndio em Nova York até 2001; o pedido feito pela líder marxista alemã Clara Zetkin (1857-1933) na Segunda Conferência das Mulheres Socialistas em 1910, em Copenhagen, no sentido de que a instituição criasse uma celebração anual das lutas por direitos das mulheres trabalhadoras, ou os protestos feitos pelas russas em 1917 contra a entrada do exército czarista na Primeira Guerra Mundial.

Marcia Tiburi diz que sentia urgência em dar um recado às mulheres, que ainda sofrem muito nas mãos dos homens e são tratadas pejorativamente pela sociedade

Importa, isso sim, relembrar o quanto o feminismo é ainda necessário, como uma ferramenta política que ajude não só a própria mulher a se libertar do jugo das velhas amarras impostas pelo patriarcado e pelo capitalismo, mas também a criar um mundo melhor, atuando em conjunto com as outras minorias políticas e também, se possível, com o próprio homem, já que diferença de sexo ou gênero não é razão para ódios, ressentimentos e embates infrutíferos. Ou seja, a bandeira continua tendo que ser hasteada, mesmo com as mulheres já tendo obtido algumas conquistas, pois falta muito para que ela ocupe o espaço que lhe é devido, sem sofrer violência verbal ou física. 

Uma vez, no jornal em que eu trabalhava, um diretor disse que as mulheres, umas idiotas, não faziam nada de importante: não compunham música, não escreviam livros, não pintavam quadros. No máximo cuidavam dos homens e, como jornalistas, fora conseguirem trabalhar em Cadernos B ou Segundos Cadernos, se davam bem na Editoria de Economia, porque, como mostrava a raiz da palavra, estavam profissionalmente a administrar a casa (oîkos é casa em grego).

Fiquei perplexa. Já estávamos nos anos 1990. Há mais de 20 anos a pílula libertara o corpo feminino da procriação, as mulheres na França tinham lutado pela legalidade do aborto e as americanas haviam queimado sutiãs em praça pública. O arrogante homem em questão não parara para pensar que quem lhe dera a vida e o criara fora uma mulher. A maternidade é o milagre constante da Criação. 

Se, no passado. as mulheres não tinham sido artistas da mesma forma que os homens fora tão somente porque haviam se dedicado a eles, forçada ou voluntariamente. Para ser um bom artista, é preciso ser egoísta, centrado em si mesmo.  E as mulheres, em sua totalidade, gostam de ser boazinhas, vivendo enredadas em culpas, sobretudo a de não ser uma boa mãe quando se dedicam mais ao trabalho do que aos filhos e à família.

Quando se voltam mais para si mesmas, fortalecendo-se internamente, podem escrever, pintar, compor e trabalhar produtivamente. Se tiverem um espaço próprio e dinheiro, como disse Virginia Woolf em “Um teto todo seu” (Virginia conta neste livro que recebera uma herança de uma tia), mais fácil fica a dedicação à arte. Mesmo sendo bem menor do que o dos homens, nos últimos anos o número de mulheres escritoras tem crescido bastante no mundo e no Brasil. 

São muitos os relatos de cunho autobiográfico, confessional, que não deixam de ser menos importantes do que a chamada ficção pura, ao revelarem os efeitos da dominação masculina no interior dos lares. Por tudo isso, fiquei bem feliz com o retorno do selo Rosa dos Tempos do Grupo Editorial Record. 

Criado em 1990 pela atriz  Ruth Escobar (1935-2017) e pela ativista feminista Rose Marie Muraro  (1930-2014), há 12 anos que o fogo do Rosa dos Tempos estava morto.  Agora, em 2018, por decisão da casa capitaneada por várias mulheres editoras, entre elas Sônia Machado (presidente da empresa) e Roberta Machado (vice-presidente), o selo está voltando  com 18 títulos, sendo que o primeiro a ser selecionado foi “Feminismo em comum, para todas, todes e todos”, da filósofa e escritora gaúcha Marcia Tiburi. Lançado em janeiro em parceria com o Instituto Rose Maria Muraro, sediado na Glória, o livro de Marcia já foi enviado à biblioteca mantida por esta instituição.

“Feminismo em comum” pode ser visto também como um manifesto revolucionário, já que o livrinho foi editado em vermelho, como costuma ser editado, aliás, outro manifesto bem conhecido, o comunista, de 1848, escrito por Marx e Engels. Marcado pela clareza, intencionalmente, informa a autora, está livre de  citações acadêmicas, o que permite uma leitura rápida. 

Marcia Tiburi diz que sentia urgência em dar um recado às mulheres, que ainda sofrem muito nas mãos dos homens e são tratadas pejorativamente pela sociedade, assim como os negros, índios, gays, lésbicas, transexuais, sem teto, moradores de rua ou quaisquer pessoas que sofram abusos na sociedade patriarcal. Não por acaso, ela comenta que a palavra mulher vem de “mole” e que a raiz semântica de feminismo é “fé de menos”.  

Historicamente, quando as mulheres são poderosas, elas são perigosas, desde Eva, Lilith e Pandora , bruxas e hereges da Idade Média, Joana D’Arc, que morreu na fogueira, ou as próprias feministas, acusadas de quererem o poder dos homens, tirá-los do pedestal. Ao optar pela palavra “todes”, além de todas e todos, ela quis incluir todos os gêneros e sexos na luta feminista, através da terminação ES  em vez do X ou @, por considerar que ES é de mais fácil acesso de leitura aos cegos. 

Outra escolha de Marcia que pode causar certo espanto foi a de usar a palavra patriarcado para caracterizar o homem branco hegemônico, machista ou sexista, detentor da riqueza mundial. Isto é, capitalistas, políticos e demais representantes do sexo dito forte que mantêm o poder e os privilégios em âmbito público e privado, sem querer abrir mãos de suas prerrogativas.  

Patriarcado nos lembra “Casa grande e senzala”, de Gilberto Freyre, e o sistema social vigente nos grandes latifúndios brasileiros antes da abolição dos escravos.  Mas é daí mesmo que veio a decisão da autora de usar o termo: 

“Acho que não tem uma palavra melhor para falar do sistema de poder masculino. O machismo contemporâneo é arcaico, primitivo. E gera violência. Tanto que as mulheres continuam sendo subservientes, espancadas e mortas. O capitalismo é patriarcal. E branco. São brancos os homens que detêm 90% de toda a riqueza mundial, deixando apenas 1% para a quase totalidade da população do planeta. Situado no topo do sistema social de privilégios, o homem branco representa o capital sexual (da heterossexualidade compulsória), o capital financeiro, o capital social e intelectual, e por fim o capital comunicacional, o poder da fala autorizada por um ‘falo’’’. 

De vez em quando o movimento feminista enfrenta algumas armadilhas, como foi o caso da substituição da palavra feminista por feminina. Eis o que Marcia diz em seu livro a respeito: “O feminino é o termo usado para salvaguardar a negatividade que se deseja atribuir às mulheres no sistema patriarcal. Elogiado por poetas e filósofos, o feminino nada mais é do que a demarcação de um regime estético-moral para as mulheres marcadas pela negatividade (,,,) Com isso, o termo feminismo é maltratado e cresce o elogio ao feminino. A verdade patriarcal é poder de morte, violência simbólica e física contra as mulheres. Caso se contentem em ser bem femininas e dóceis, elas podem até se salvar do espancamento e da morte”. 

Tiburi postula também que o signo mulher requer uma ressignificação e afirma que não se devem existir divisões éticas ou morais entre putas ou vadias e esposas: “Minha mãe, que não teve acesso a livros, trabalhava nas piores condições, preocupada em criar os filhos. Tenho certeza, no entanto, de que ela entenderia o argumento de Emma Escrito com a leveza de uma crônica Goldman (autora do texto “A prostituição”, publicado em “Anarquismo e outros ensaios”) sobre a indiferença entre putas e esposas, todas submetidas ao patriarcado, umas vendendo o corpo reduzido ao trabalho sexual, outras entregando-se ao trabalho doméstico, reprodutivo e sexual, em troca do que comer e de onde dormir, de uma casa, um lugar à sombra dos homens, como escravos voluntários fizeram em todos os tempos.”  

Já tendo escrito dez livros, entre eles “Como conversar com um fascista, reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro”, e “Ridículo político: uma investigação sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto”, a filósofa e escritora está acabando de redigir um novo romance e, em 24 de março, estará em Paris para participar de conferência durante Le Printemps Littéraire Brésilien. Ela crê que, por seu caráter transformador, a consciência critica do feminismo pode auxiliar substancialmente a melhorar o mundo, se a ação for feita em comum acordo e diálogo com outras mulheres e demais minorias políticas. É preciso falar politicamente, acentua, expressar-se, dialogar, quebrando o monopólio de fala de sujeitos hegemônicos autoritários. E ao mesmo tempo saber escutar, descontruindo o discurso opressivo do poder estabelecido. 

É claro que sempre haverá dissenso, polêmica entre as ativistas, porque muitas questões ainda se encontram em aberto. “A união”, afirma a escritora e filósofa, “terá que se dar na prática, na orientação da ação. A construção em comum, o pensamento crítico conjunto, poderá emancipar toda a sociedade, respeitadas as singularidades”. Uma utopia? Sim, mas por que não ter fé em utopias?          

Na última página de “Feminismo em comum”, as editoras de Rosa dos Tempos explicam que a primeira edição foi publicada em janeiro de 2018 não por acaso. Trata-se do ano em que se celebram os 90 anos da eleição de Alzira Soriano de Souza, primeira mulher eleita prefeita no Brasil, em Lajes/RN; 88 anos do nascimento de Rose Marie Muraro, Patrona do Feminismo Nacional; 86 anos da escritora lésbica Cassandra dos Rios; 83 anos da intelectual negra Lélia González; 40 da intelectual trans e negra Jacqueline Gomes de Jesus, 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 28 da fundação da Rosa dos Tempos, a primeira editora feminista do Brasil. 

O próximo livro do selo será “Mamãe & Eu & Mamãe”, da ativista americana Maya Angelou. Nele, a autora conta como foi sua relação com a mãe após ter voltado a viver com ela aos 13 anos. Antes passara dez anos sob os cuidados da avó. 



Tags: dia, feminismo, filosofia, mulher, tiburi

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