Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Após tantas promessas de diversidade, o que mudará em Hollywood?

Jornal do Brasil

É possível uma Hollywood totalmente inclusiva? Frances McDormand aproveitou a noite de gala do Oscar para pôr uma solução sobre a mesa: uma "cláusula de diversidade" nos contratos.

A ideia circula há tempos, mas nunca havia sido proposta na maior festa da indústria do cinema. Coroada com o Oscar de melhor atriz no último domingo (4) por seu papel em "Três anúncios para um crime", Frances a defendeu com entusiasmo.

Nos últimos anos, cada edição do Oscar é marcada por uma causa: de #OscarSoWhite, em favor da minoria negra, às atuais #TimesUp e #MeToo, em defesa das mulheres. 

Criticado por sua falta de diversidade, o Oscar é uma vitrine perfeita para pedir mudanças na meca do cinema. Mas... depois da festa, realmente acontece algo que vá além dos discursos?

O Oscar deste ano fecha uma temporada de prêmios varrida por uma onda de escândalos de assédio e de abuso sexual liderados pelo produtor Harvey Weinstein e por outros pesos-pesados da indústria, que caíram em desgraça.

Na cerimônia, o comediante Jimmy Kimmel convidou Hollywood a liderar um caminho de inclusão e de igualdade de gênero, e o rapper Common e a cantora Andra Day cantaram junto com militantes feministas no palco.

Também houve chamados para um maior controle do porte de armas e contra a política anti-imigração do presidente Donald Trump.

Na hora da entrega das estatuetas, porém, foi mais do mesmo. Os ganhadores eram, em sua maioria, homens brancos. Exceção, talvez, para o mexicano Guillermo del Toro, que levou os prêmios mais prestigiosos - melhor filme e melhor direção - por "A forma da água".

Jordan Peele foi o primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor roteiro original, categoria na qual também competiam Del Toro e o comediante paquistanês Kumail Nanjiani.

Nas 20 categorias, 47 mulheres eram candidatas, e apenas quatro ganharam o ambicionado prêmio. Dos 150 homens indicados, 32 levaram um Oscar, segundo um estudo do site especializado Gold Derby.

"Temos histórias para contar que precisam de financiamento", lançou Frances McDormand, no teatro Dolby, após convocar todas as indicadas presentes a ficarem de pé.

- Poder na mão de quantos? -

A Academia do Cinema dos Estados Unidos tem 28% de membros mulheres, e 13%, de "pessoas de cor", uma frase muito usada nos Estados Unidos para se referir a qualquer pessoa que não seja branca (em 2015, representavam 8%).

"Ainda que mudanças significativas possam estar em andamento em várias estruturas de Hollywood, o fato é que os números não refletem qualquer mudança", apontou a diretora do Centro para o Estudo da Mulher na Televisão e no Cinema, Martha Lauzen, da Universidade de San Diego.

"Em 2017, as mulheres representaram 11% dos diretores nos 250 filmes de maior bilheteria. Esse percentual é o mesmo do que em 2000", criticou.

Greta Gerwig ("Lady Bird - a hora de voar"), por exemplo, foi a única mulher indicada à estatueta de melhor direção este ano e a quinta na história do Oscar, enquanto Rachel Morrison foi a primeira indicada por fotografia.

"Mas há exemplos de filmes, como 'Pantera negra', ou 'Mulher-Maravilha', que sugerem que há uma maior abertura para se fazer as coisas de maneira diferente", afirmou Katherine Pieper, pesquisadora da Annenberg Inclusion Initiative, referindo-se a dois filmes dirigidos e estrelados por um negro e por uma mulher, respectivamente, algo atípico no gênero de super-heróis.

Agora, a Disney lança "Uma dobra no tempo", dirigido por Ava DuVernay, a primeira afro-americana responsável por uma produção com orçamento de mais de 100 milhões de dólares, e que tem um elenco não branco em sua maioria.

Nos bastidores, Frances McDormand disse que até uma semana antes da cerimônia ouviu burburinhos sobre essa "cláusula de inclusão" proposta por Stacy Smith, fundadora e diretora do Annenberg. Com ela, os atores poderiam exigir em seus contratos que haja diversidade no elenco e na equipe de produção.

"Mas quantos atores e diretores têm o poder de fazer essa exigência?" e "quantos farão uso desse poder?", questiona Lauzen, que defende "metas de contratação", ou seja, cotas. 

Além disso - completa -, mais mulheres em posições de poder reduziriam o sexismo e criariam mais postos de trabalho para outras mulheres.

Esse não é um acordo tácito a ser levado ao pé da letra, porém. Kathleen Kennedy, por exemplo, chefe do império "Star Wars", contratou apenas homens brancos para os filmes da saga.

Agência AFP


Tags: cinema, cultura, hollywood, internacional, produçao

Compartilhe: