Jornal do Brasil

Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

Cultura

Mostra do fotógrafo e cineasta francês Raymond Depardon fica até janeiro no CCBB

Jornal do Brasil

Coberturas de guerras. Situações cotidianas. Tragédias humanitárias. São estes alguns dos temas das fotografias do consagrado francês Raymond Depardon, de 75 anos, que serão expostas na mostra ‘Un moment si doux’, no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro até 22 de janeiro de 2018. A exposição traz 170 imagens em cores e dimensões variadas entre paisagens, autorretratos e personagens de diferentes países da Europa, África e América Latina, incluindo o Brasil, que, pela primeira vez, tem seus registros expostos em um projeto do artista. O evento tem realização do Centro Cultural do Banco do Brasil, patrocínio do Banco do Brasil e do Ministério da Cultura por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, apoio da EDF Norte Fluminense e da Embaixada do França no Brasil. A produção é da Bonfilm. 

Produzidas entre 1950 e 2013, sendo a maior parte inédita, as imagens estiveram expostas entre 2014 e 2015 no imponente Le Grand Palais, em Paris, no museu MUCEM, em Marselha, e, recentemente, no Centro Cultural Recoletas, na Argentina.

Foto de Raymond Depardon em Harar, Etiópia, 2013
Foto de Raymond Depardon em Harar, Etiópia, 2013

“Eu não sabia que eu era um fotógrafo da cor. Mas ela sempre esteve lá, desde o início. Eu sempre vi a cor como algo muito suave, ao contrário do preto e branco, com que eu me torno mais maniqueísta, querendo mostrar ao mundo que sofre. Na cor, eu sou completamente diferente. Eu estou mais ligado a minha infância feliz na fazenda dos meus pais, ao desejo amoroso também”, comenta Raymond Depardon.

A mostra “Un moment si doux” faz parte da retrospectiva da carreira do renomado Raymond Depardon promovida pelo CCBB durante os meses de novembro a janeiro. O francês ainda mostra o seu lado cineasta com a “Mostra Depardon de Cinema”, que exibe 28 produções, entre documentários e filmes de ficção, a partir do dia 3 a 22 de janeiro de 2018.

Com mais de 40 obras, a cinematografia de Depardon é conhecida no mundo inteiro entre o público de cinéfilos. Para essa mostra de cinema foram selecionados os 28 filmes mais importantes da sua carreira, produzidos entre 1969 e 2017. Destacam-se filmes sobre o universo psiquiátrico (São Clemente, de 1980, Emergências, de 1989, e 12 Dias, o último filme dele que estava em seleção oficial no Festival de Cannes 2017), o mundo camponês (três longas na série Perfis Camponeses entre 2000 e 2008), o Chade (La captive du désert, de 1989) o sistema judiciário (Presos em flagrante, de 1994), o mundo politico (1974, Um presidente em campanha, de 2002), a vida quotidiana francesa (Jornal da França, de 2012,  e Os habitantes, de 2016), sempre com um olhar humanista.

O trabalho do Raymond Depardon foi consagrado com inúmeros prêmios no mundo inteiro: Gran Premio Nacional da Fotografia, César do Melhor Documentário, Prêmio Louis Delluc, entre outros.  Além da exibição dos longas-metragens, o cineasta Raymond Depardon participará de uma palestra sobre documentários.

SOBRE RAYMOND DEPARDON

Fotógrafo e repórter, Raymond Depardon, filho de fazendeiros, nascido em 1942 na França, fez as suas primeiras fotos aos 12 anos na fazenda dos seus pais. Mudou-se para Paris em 1958 e entrou na Agência de imprensa Dalmas em 1960. Depois, viajou o mundo a partir da idade de 18 anos em busca de belos momentos fotográficos. A cada retorno, trazia na bagagem fotos impactantes que, muito rapidamente, foram reconhecidas por todos os profissionais e publicadas em jornais famosos.

O FOTÓGRAFO

Depardon começou a fotografar no final dos anos 50 na agência Dalmas, para a qual chegou a cobrir as guerras da Argélia e do Vietnã. Em 1966, montou com Gilles Caron sua própria agência, a Gamma e, em 1978, ingressou no time da famosa agência Magnum, onde está até hoje.  A maioria de suas obras é em preto e branco, mas também fotografou a cores desde o início da sua carreira.

Hervé Chandès, curador e CEO da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, justifica o foco da exposição: "Existe, desde as primeiras imagens nos 50 até hoje, uma continuidade na obra de Depardon que se revela de uma maneira evidente na exposição. Ele tem realmente um apetite e uma curiosidade pela cor (...). “A cor é a metáfora da curiosidade”, diz ele. “Raymond Depardon usa a cor por seu prazer, liberado de qualquer restrição, sem tema nem expectativa. Alma de nômade, ‘rico em solidão’, ele fotografa lugares sem acontecimentos, aparições, cenas da vida, faz fotos ‘que todo mundo poderia fazer e que ninguém faz’ e sente nelas um momento doce, colorido, silencioso, sonhador, simples, indiferente ao momento decisivo e perfeitamente humanizado”.

O CINEASTA

Em mais de 30 anos, Raymond Depardon construiu uma obra maior, além de modismo, que explora incansavelmente o mundo, os homens e as grandes problemáticas do nosso tempo.

Ele foi um dos últimos documentaristas a defender o uso da lente de 35 mm, o que dá a sua obra uma qualidade e uma dimensão espetacular.

Pode-se dizer também que ele foi um dos únicos documentaristas franceses a ter o ambicioso projeto de mostrar o que é a França durante esses 30 últimos anos. Além de escolher temáticas do seu interesse pessoal e imediato, acompanhou a história do país com uma consciência aguda do papel do cineasta e de sua enorme responsabilidade social. Isso prova que ele tinha a convicção profunda de que o cinema não é uma arte fútil e que tem o dever de deixar marcas e testemunhas essenciais para entender o mundo.

Em toda sua obra cinematográfica, Depardon reivindicou a neutralidade. Filmou muitas pessoas desesperadas ou sofridas, em situações muito difíceis, mas em nenhum momento demostrou uma curiosidade perversa ou buscava comover o espectador. Ele filma os seres humanos, seu carácter único e opaco e, ao mesmo tempo, uma coisa mais ampla, mais inconsciente, que mistura sua liberdade e o que o determina. Depardon não busca uma comunicação imediata ilusória com as pessoas filmadas, não procura uma cumplicidade com o espectador. Cada sequência filmada adquire imediatamente a dignidade de um documento sobre um fragmento do “humano” em todo a sua complexidade, e torna-se uma captação de um pedaço da realidade, sobre a qual ele se proíbe ter qualquer preconceito ou ponto de vista ideológico. 

Tags: banco, brasil, centro, cultural, exposição, foto

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