Jornal do Brasil

Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Cultura

'NYT': Cancelamento de exposição reacende tempestade política no Brasil

Jornal diz que debate revive batalha iniciada com impeachment de Dilma

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Matéria publicada nesta quinta-feira (14) pelo jornal norte-americano The New York Times fala sobre a polêmica que entrou em erupção no Brasil depois que os organizadores de uma exposição de arte sobre gênero e diversidade sexual cederam à pressão de grupos conservadores e cancelaram sua exibição, reavivando uma tempestade de fogo político que dominou o país no ano passado, quando a primeira mulher presidente do país foi acusada e retirada de seu cargo.

Times descreve que as imagens polêmicas da exposição - Queermuseu, ou Museu Queer - incluíam um bebê macaco aconchegando-se nos braços da Virgem Maria, hóstias com as palavras "vagina" e "língua" escritas e retratos em estilo naïve de crianças sorridentes pintadas com spray com tags como "travesti" e "criança gay".

Segundo a reportagem, os críticos - alguns dos quais também exigiram o impeachment da presidente - acusaram os artistas de promover pedofilia e pornografia infantil. Grupos conservadores se manifestaram contra a exposição e publicaram um vídeo que foi visto por mais de 1,4 milhão de pessoas no Facebook.

A classe artística já desconfiava dos estreitos laços de Temer com o lobby religioso no Congresso
A classe artística já desconfiava dos estreitos laços de Temer com o lobby religioso no Congresso

No domingo, o banco Santander fechou inesperadamente a exposição, que está em seu centro cultural de Porto Alegre. O curador descobriu quando um amigo dele lhe enviou uma mensagem de texto.

"Fiquei completamente surpreso", disse o curador Gaudencio Fidelis, em entrevista por telefone ao NYT. "Não é normal que uma instituição sucumba a este tipo de pressão".

"Nunca aconteceu no Brasil, nem mesmo durante a ditadura", acrescentou, referindo-se à brutal ditadura militar que terminou em 1985. "Isso cria um precedente ruim".

No Brasil, bancos privados e públicos e outras empresas são alguns dos maiores investidores em cultura, muitos deles financiando museus, artistas e filmes, ressalta o diário.

O cancelamento reverberou em todo o país, alimentando a ampla disputa política que explodiu durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff, colocando seus defensores contra o homem que a substituiu, Michel Temer, explica New York Times.

A classe artística do país já desconfiava dos estreitos laços de Temer com o lobby religioso no Congresso do Brasil e uma de suas primeiras ações - nomear um gabinete totalmente masculino e branco e eliminar o Ministério da Cultura - não ajudou , embora o ministério tenha sido rapidamente reintegrado, avalia o periódico.

A explicação do Santander para o cancelamento do show alimentou a controvérsia, afirma o vespertino.

"Nós ouvimos os protestos e entendemos que algumas das obras ofendem algumas crenças e religiões através de símbolos e que não estão de acordo com nossa visão do mundo", afirmou o banco em um comunicado.

O Movimento Brasil Livre - um dos mesmos grupos que organizou grandes manifestações que exigiam o impeachment de Dilma Rousseff - declarou a vitória. "O Santander usou dinheiro público para financiar uma exposição com pedofilia e bestialidade", disse o grupo no Facebook. "Sociedade brasileira organizada para rejeitar isso. Isso foi um boicote que funcionou. "

Na tarde de terça-feira, manifestantes se reuniram em frente ao centro cultural do Santander exigindo que a exposição fosse reaberta. Eles acabaram se chocando com a polícia. As assinaturas de uma petição que apoiava a exposição totalizaram 60 mil, e numerosos artigos de opinião denunciando a censura e os ataques à expressão artística apareceram nas mídias locais, fala o NYT.

A exposição, que abriu em 15 de agosto, incluiu mais de 263 obras de arte de 85 artistas, incluindo Candido Portinari, Alfredo Volpi e Lygia Clark, finaliza The New York Times.

>> The New York Times

Tags: banda, cantor, cultura, filme, free, literatura, música, teatro

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