Jornal do Brasil

Sexta-feira, 22 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Ensaios de Tamsin Spargo chegam ao Brasil pela Autêntica Editora

Coleção mostra ideias de Foucault sobre sexualidade e as relaciona com teoria queer

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O uso da palavra “queer” tem se tornado cada vez mais comum. A origem do movimento remonta a fins dos anos 1980 nos Estados Unidos, como uma resposta ao padrão binário de gênero, às normas e à opressão social a tudo que diverge, que é “excêntrico”, “esquisito”, “diferente”. Mas onde se assentam as bases filosóficas e culturais que deram origem ao que hoje chamamos de teoria queer?

Para Foucault, gênero e sexualidade são categorias construídas pelo discurso, pela história, pela cultura e pela sociedade. Em Foucault e a teoria queer – seguido de Ágape e êxtase: orientações pós-seculares, lançamento da coleção Argos, Tamsin Spargo oferece uma introdução das principais ideias do filósofo presentes em História da sexualidade, e as relaciona com o desenvolvimento da teoria queer.

No ensaio que dá título ao livro, a escritora analisa os principais pontos apresentados por Foucault para definir a teoria queer e utiliza ideias de autoras como Eve K. Sedgwick, Gayle Rubin, Judith Butler e Teresa de Lauretis como suporte para discutir conceitos de heteronormatividade, performatividade, transgeneridade, libertação sexual e o impacto da aids nas teorias da sexualidade.

Tamsin Spargo oferece livro essencial para entender bases da teoria queer 

No segundo ensaio, Spargo questiona o desenvolvimento da teoria até o momento e a relaciona com os estudos pós-estruturalistas e pós-seculares. Ao tratar das ideias de filósofos, teólogos e teóricos do queer tão diversos quanto Sara Ahmed, Marcella Althaus-Reid e Slavoj Žižek, Spargo sugere que os conceitos de ágape e êxtase podem sinalizar modos de pensar que transcendam os fundamentalismos, tanto na ciência quanto na religião.

Traduzida pela jornalista e cientista social Heci Regina Candiani, a edição conta com posfácio do sociólogo Richard Miskolci, que contextualiza amplamente a História da sexualidade, de Foucault, e apresenta novos caminhos para a discussão da teoria queer.

Por meio de uma narrativa clara e objetiva, Tamsin Spargo oferece um livro essencial para entender as bases da teoria queer e como a cultura LGBTQ mundial se apropriou de uma palavra ofensiva e a ressignificou em defesa das identidades individuais.

Lançada em 2017 pela Autêntica Editora, a coleção Argos reúne obras clássicas e contemporâneas que fomentam o debate sobre estudos de gênero e teoria queer. Alinhada à evolução dessas discussões nos últimos anos, a coleção se propõe a contribuir com um referencial que convide ao diálogo. Entre os títulos já lançados, estão: Argonautas, de Maggie Nelson; Flor de açafrão, de Guacira Lopes Louro; e Desejos digitais, de Richard Miskolci.

Tamsin Spargo é escritora e historiadora cultural. Sua carreira acadêmica perpassa instituições como a Universidade John Moores, em Liverpool, Reino Unido, onde foi professora adjunta de História Cultural e diretora da Escola de Artes, Crítica e Mídia; e a Universidade de Malaya, na Malásia, onde lecionou Literatura Inglesa. Entre seus livros estão Reading the Past (Palgrave), Wanted Man: The Forgotten Story of an American Outlaw (Bloomsbury) e John Bunyan (Northcote House). Spargo mora na Cornualha, Sul da Inglaterra, onde trabalha como escritora e realiza atividades comunitárias.

A tradutora, Heci Regina Candiani, é cientista social e jornalista. Atualmente, realiza seu doutorado em Estudos de Gênero pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com uma pesquisa sobre a obra de Simone de Beauvoir. Traduziu Mulheres, raça e classe e Mulheres, cultura e política, de Angela Davis, e Conversas com Elizabeth Bishop, organizado por George Monteiro.



Tags: foucault, gênero, livro, queer, sexualidade, tradução

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