Jornal do Brasil

Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Cultura

Historiador inglês mostra como os artistas russos moldaram a identidade do país

Jornal do Brasil

Em Guerra e paz, de Tolstoi, há uma cena em que a condessa Natasha Rostova vai com seu irmão Nikolai à cabana de um “tio”, depois de uma caçada, prova de petiscos russos e dança graciosamente “Lá vem uma donzela pela rua”, uma cantiga pastoril romântica que ela, criada em salões nobres, nunca ouvira antes. Segundo o autor russo, a facilidade com que a moça se apropriou da música e da dança camponesa mostra que ali, naquela melodia e letra, estavam o “espírito e os movimentos russos inimitáveis” presentes em todos os homens e mulheres do país. É nessa cena que o historiador inglês Orlando Figes se inspira para escrever Uma história cultural da Rússia, que a Record publica agora no Brasil.

Livro faz um panorama que vai do século XIX ao regime soviético
Livro faz um panorama que vai do século XIX ao regime soviético

“O que permitiu a Natasha captar tão instintivamente o ritmo da dança? Como pôde entrar tão facilmente nessa cultura de aldeia da qual, pela educação e pela classe social, estava tão afastada? Devemos supor, como Tolstoi nos pede nessa cena romântica, que uma nação como a Rússia pode se manter unida pelos fios invisíveis de uma sensibilidade nativa? A pergunta nos leva ao centro deste livro. Ele se denomina uma história cultural. Porém, os elementos de cultura que o leitor aqui encontrará não são apenas grandes obras criativas como Guerra e paz, mas também artefatos, desde os bordados populares do xale de Natasha às convenções musicais da canção camponesa. E são evocados não como monumentos à arte, mas como impressões da consciência nacional que se misturam à política e à ideologia, aos costumes e crenças sociais, ao folclore e à religião, aos hábitos e convenções e a todo o resto do bricabraque mental que constitui uma cultura e um modo de vida”, escreve o autor na introdução da obra.

Segundo Figes, nos últimos duzentos anos, na ausência de parlamento e imprensa livre, coube às artes do país refletir sobre política, filosofia e religião. Nesse livro monumental, ele apresenta aos leitores os bordados folclóricos, as canções camponesas, os ícones religiosos e todos os costumes do cotidiano, desde a comida e a bebida até os hábitos de banho, passando pelas crenças sobre o mundo espiritual. As personagens do historiador são múltiplas e diversas: vão de Tolstoi à serva Praskovia Sheremeteva, que se tornou a primeira estrela da ópera russa e chocou a sociedade quando casou com seu mestre, o conde Nikolai Petrovich, quase vinte anos mais velho.

“De forma extraordinária, talvez exclusiva da Rússia, a energia artística do país foi quase inteiramente dedicada à busca da compreensão da ideia da sua nacionalidade. Em lugar nenhum o artista foi mais sobrecarregado com a tarefa da liderança moral e da profecia nacional, nem mais temido e perseguido pelo Estado. Alienados da Rússia oficial pela política e da Rússia camponesa pela educação, os artistas russos tomaram a si criar uma comunidade nacional de valores e ideias por meio da literatura e das artes plásticas. O que significava ser russo? Qual era o lugar e a missão da Rússia no mundo? E onde estava a verdadeira Rússia? Na Europa ou na Ásia? Em São Petersburgo ou em Moscou? No império do tsar ou na aldeia lamacenta de uma só rua onde morava o “tio” de Natasha? Estas eram as “malditas perguntas” que ocuparam a mente de todos os escritores, críticos literários e historiadores, pintores e compositores, teólogos e filósofos sérios na época de ouro da cultura russa, de Pushkin a Pasternak. São elas as perguntas que estão sob a superfície da arte neste livro. As obras aqui discutidas representam uma história das ideias e atitudes — conceitos da nação pelos quais a Rússia tentou se entender. Se olharmos com atenção, elas podem se tornar uma janela para a vida intima de uma nação”, escreve o autor.

Começando no século XIX com a construção de São Petersburgo – “uma janela ao oeste” – e culminando com os desafios impostos à identidade russa pelo regime soviético, Orlando Figes escreveu um livro que é considerado uma obra-prima sobre a Rússia. Ele chega às livrarias em agosto, pela Record.

Orlando Figes é professor de história no Birkbeck College da Universidade de Londres. Nasceu em Londres em 1959 e estudou história em Cambridge. Antes de se mudar para Birkbeck, foi professor de história e fellow do Trinity College, em Cambridge. É autor de Peasant Russia, Civil War A tragédia de um povo, que, em 1997, recebeu o Prêmio Wolfson de História, o prêmio literário WH Smith, o Prêmio Longman/History Today, o NCR Book Award e o Los Angeles Times Book Prize.

Leia um trecho do livro:

“A dança de Natasha, no seu âmago, é um encontro entre dois mundos inteiramente diferentes: a cultura europeia das classes superiores e a cultura russa do campesinato. A guerra de 1812 foi o primeiro momento em que os dois se moveram juntos numa formação nacional. Movida pelo espírito patriótico dos servos, a aristocracia da geração de Natasha começou a se libertar das convenções estrangeiras da sua sociedade e buscar uma noção de nacionalidade baseada em princípios “russos”. Trocaram o francês que falavam pela língua nativa; russificaram os costumes e vestimentas, os hábitos alimentares e o gosto na decoração de interiores; foram ao campo aprender o folclore, a dança e a música camponesas, com a meta de criar um estilo nacional em todas as suas artes para alcançar e educar o homem comum; e, como o “tio” de Natasha (ou até mesmo o seu irmão, no final de Guerra e paz), alguns renunciaram à cultura da corte de São

Petersburgo e tentaram adotar um estilo de vida mais simples (mais “russo”) ao lado dos camponeses das suas propriedades.

A interação complexa entre esses dois mundos teve influência crucial sobre a consciência nacional e sobre todas as artes no século XIX. Essa interação é uma característica importante deste livro. Mas a história que ela conta não pretende sugerir que a consequência foi uma única cultura “nacional”. A Rússia era complexa demais, socialmente dividida, politicamente diversificada, mal definida em termos geográficos e, talvez, grande demais para uma cultura única se passar por herança nacional. Em vez disso, a minha intenção é me rejubilar com a enorme diversidade de formas culturais da Rússia. O que torna tão esclarecedor o trecho de Tolstoi é o modo como traz a dança tantas pessoas diferentes: Natasha e o irmão, a quem esse mundo estranho, mas encantador da aldeia e subitamente revelado; o “tio”, que vive nesse mundo mas não faz parte dele; Anisia, que é aldeã mas que também mora com o “tio” à margem do mundo de Natasha; e os servos caçadores e os outros servos domésticos, que observam, sem dúvida com diversão curiosa (e talvez com outros sentimentos também), a bela condessa executar a sua dança. A minha meta é explorar a cultura russa da mesma maneira que Tolstoi apresenta a dança de Natasha: como uma série de encontros ou atos sociais criativos que foram realizados e entendidos de muitas formas diferentes.

Ver uma cultura dessa maneira refratada e questionar a ideia de um núcleo puro, orgânico ou essencial. Não havia dança camponesa russa “autêntica” do tipo imaginado por Tolstoi e, assim como a melodia que Natasha dança, a maioria das “canções populares” russas, na verdade, vinha das cidades.”

Tags: arte, artistas, cultura, história, lançamento, livro, rússia

Compartilhe: