Jornal do Brasil

Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Cultura

"O povo não é prioridade", diz Skank sobre Copa

Portal Terra

A tarde era de trânsito caótico em São Paulo. Sem Metrô, era quase impossível andar 100 metros sem parar por ao menos um instante em um congestionamento. Enquanto buzinas e expressões estressadas dominavam o ambiente ao redor, o escritório do Skank na capital paulista, no bairro da Bela Vista, tinha o ar mais tranquilo possível. Não por menos, uma vez que a rotina de divulgação do novo disco, Velocia, por si só, já é bem pesada.

Quando a equipe do Terra chegou ao local, foi logo recebida por um grande e simpático cachorro preto que, apesar de intimidar com o alto latido e proporções físicas, foi se mostrando um bom anfitrião ao longo do tempo. Na sala, jogo do Brasil passando. Mas, infelizmente para Samuel Rosa, Haroldo Ferretti, Henrique Portugal e Léo Zanetti, a agenda estava cheia, sem tempo para acompanhar a seleção canarinho em ação em amistoso no Morumbi.

Assim que os músicos saíram do telefone, fomos para a sala de entrevista. Lá, mais confortáveis e descontraídos, não precisaram se esforçar muito para demonstrar a grande empolgação por estar de volta, com um disco inédito, ao mercado do rock nacional. “Já me perguntaram se é um saco ficar dando entrevista sobre disco novo e eu digo: 'cara, é maravilhoso'. É o mais próximo que eu sinto do início de carreira, porque quando você lança um disco novo, está começando de novo”, disse Samuel Rosa.

Não para menos. Seis anos se passaram desde que Estandarte, antecessor de Velocia, chegou ao mercado. Fundamental para que a banda se renovasse e continuasse tratando sua carreira como, acima de tudo, um prazer. “O Skank não foi formado em uma universidade por adolescentes que ouviam Smiths (risos). A gente passou por uma coisa de tocar em bar, de ver gente virar as costas, pedir para abaixar o som, levantar e ir embora quando você começa a tocar. Aquilo é degradante, cara. Você leva uma porrada que, no dia que você tem, valoriza”, afirma Samuel.

A vontade de movimentar o rock nacional é a mesma de quando jovens. Mas, segundo, Ferretti, para isso, o surgimento de novos nomes é fundamental. “Nós surgimos em um momento sombrio também. Quando surgimos, havia uma ressaca no rock nacional. E aconteceu mais ou menos isso, bandas que não tinham um movimento, não eram da mesma cidade, começaram a surgir em um momento. Aquilo virou uma mania nacional. Então se, de repente, na época dos Paralamas perguntassem isso, talvez eles respondessem a mesma coisa: “precisa de gente nova aí”. Então precisamos do surgimento de algumas bandas para fortalecer o movimento.

Como futebol também é paixão declarada do quarteto, o Skank não esqueceu da Copa e de sua relação um tanto quanto turbulenta com o povo brasileiro. “Existe uma premissa de que quem apoia a Copa é contra o povo, mas não é por aí”, afirma Samuel. “O Brasil ganhar ou perder não vai mudar absolutamente nada”, completa Portugal, que é seguido novamente por Samuel Rosa, que pede a palavra para decretar: “o povo não é prioridade”.

Confira a entrevista na íntegra:

Terra - Foram seis anos sem lançar um disco, como vocês estão nesse aspecto?Samuel Rosa - Bem! (risos) É comum uma banda que tem entre dois discos de inéditas e um ao vivo ter um hiato maior. Talvez não tanto quanto foi no caso do Skank. Mas em condições normais, fazendo disco de dois em dois anos, a gente poderia ter lançado (o álbum) ali em 2012. E a gente começou a fazer o disco no ano passado. Mas nós vimos que não era a hora de lançar, não estávamos sentindo clima para fazer isso.

Terra - E de que maneira grandes shows, como o do Mineirão em 2010 e o Rock in Rio, influenciaram, especialmente no quesito de empolgação, para que vocês sentissem essa motivação em lançar um novo álbum, mesmo sendo uma banda já consagrada?Samuel - O Skank tem uma característica, que acredito ser até uma qualidade, de ter passado ileso desse sentimento. Como se a gente não tivesse se anestesiado para coisas que parecem, para quem vê de fora, corriqueiras. "A banda já se acostumou, fazer isso de novo? Imagina", e eu digo que não. Tocar no Rock in Rio foi um êxtase, mas tanto quanto tocar em Ipatinga para três mil pessoas. É um sentimento pleno pensar que Partida de Futebol (sucesso do disco O Samba Poconé, 1996), por exemplo, causa impacto até hoje. Não consigo tratar isso como uma coisa meramente profissional. Já me perguntaram se é um saco ficar dando entrevista sobre disco novo e eu digo: 'cara, é maravilhoso'. É o mais próximo que eu sinto do início de carreira, porque quando você lança um disco novo, é como se estivesse começando de novo. Eu acho que você ter consciência dessas coisas te faz ficar até mais satisfeito. Fico pensando se isso é aquele negócio de massagear o ego. Mas ao contrário de algumas bandas, o Skank não foi formado em uma universidade por adolescentes que ouviam Smiths (risos). A gente passou por uma coisa de tocar em bar, de ver gente virar as costas, pedir para abaixar o som, levantar quando você começa a tocar e ir embora. Aquilo é degradante, cara. Você leva uma porrada que, no dia que você tem, fala: 'nossa, o cara tá tocando uma música minha, nem é aquele Creedence que eu tocava em um pub, em Belo Horizonte'. É um esquema de valor que se deu com o Skank, bem ou mal. Se tratar como um negócio cotidiano... não é assim.

Haroldo Ferretti - A sensação de um trabalho bem feito também é boa demais. Principalmente quando vamos vendo as pessoas apreciando o Velocia, tendo essa curiosidade perguntar alguns detalhes. Mesmo com todos esses anos de carreira, não é sempre que isso acontece.

Terra - Com o surgimento de novos trabalhos dos Titãs, Pitty, e esse momento de transição do rock nacional, vocês têm esse pensamento de incendiar de novo a cena do rock nacional? Chegaram a ter aquela reunião entre vocês para falar: 'cara, vamos botar fogo nisso aí'?Samuel - Acho que na hora em que você está lançando um disco novo, parte desse entusiasmo existe porque você tem inúmeras expectativas. Quando você é jovem, pode ser tudo. Quando vamos envelhecendo, vemos que algumas portas vão sendo fechadas. Um disco, quando sai, vem carregado dessa promessa, de poder ser parte de um processo de ressurgimento do rock. De repente um novo disco dos Titãs, como você falou, a Pitty... incentivam o aparecimento de umas três bandas novas que citam o Skank como referência em algum momento. Involuntariamente, a gente pensa da maneira mais positiva possível. Há que se considerar tudo isso que você falou, o cenário não é nada promissor. Rádios de rock hoje existem em um número muito menor do que existiam há oito anos. O cenário é sombrio. Mas até o cenário sombrio está começando a dar mostras de que está cansando. Parece que o furacão já está acabando. Eu falei para vocês (banda) outro dia, eu senti as gravadoras hoje muito mais animadas do que em 2008, quando o cenário era melhor.Ferretti - Mas a gente surgiu em um momento sombrio também. No rock nacional, quando surgimos, havia uma ressaca. E aconteceu mais ou menos isso, bandas que não tinham um movimento, não eram da mesma cidade, começaram a surgir em um dado momento. Aquilo virou uma mania nacional. Então, se de repente naquela época dos Paralamas perguntassem isso, talvez eles respondessem a mesma coisa: "precisa de gente nova aí". Precisamos do surgimento de algumas bandas para fortalecer o movimento.

Terra - O CD de vocês tem influências todas as fases do Skank. Alexia, por exemplo, é uma música puxada pela cozinha da banda (baixo e bateria). Como foi o processo de criatividade para misturar todos esses estilos em um disco só?Ferretti - No final da jornada, finalmente alguém falou sobre isso! (risos). Quando a gente resolve fazer um disco, não pensa muito para onde ele vai caminhar. Fomos para dentro do estúdio e começamos a tocar juntos. Aí, com um experimento aqui, outro ali, a música vai se construindo. Isso é semelhante com o que fizemos em outras épocas. Acho que em Alexia isso fica mais evidente, é uma levada bem brasileira, e uma coisa puxa a outra. A levada da bateria puxa uma guitarra ou baixo, e vice-versa.

Léo Zanetti - Nesse disco é uma coisa bem espontânea. Começamos a gravar e tudo foi rolando com uma certa facilidade.

Henrique Portugal - É legal você falar sobre isso porque, com a introdução da música digital, você conserta tudo. E a gente chegou à conclusão que essa história de ficar consertando demais estraga a alma da música e a dinâmica das canções. A música Multidão, nós gravamos, gravamos e gravamos e, no final, voltamos para a demo, que era a versão que realmente tinha alma. A música que tem alma é a gravação original na hora da composição. Então, realmente, ninguém falou disso. E é uma característica que a gente vem tentando deixar mais evidente nas gravações.

Terra - Vocês possuem uma relação muito próxima com o futebol, certo?Samuel - Amamos o futebol!

Terra - E como vocês enxergam esse relacionamento entre manifestações e Copa do Mundo. Vemos muita gente com uma certa “vergonha” em dizer que vai curtir a Copa. Qual a visão de vocês desse cenário?Samuel - A Copa definitivamente não veio em um bom momento. Estamos vivendo a era da decepção com um Brasil que, a essa altura, se prometia melhor. Até sentimos uma certa melhora, em todos os aspectos, com a ascensão de classes menos desenvolvidas. De uma forma grosseira, existe a convicção de que quem apoia a Copa é contra o povo. Equivocados estão aqueles que acham que o problema é esse. Não é por aí. Sinceramente, vejo um grande benefício da Copa do Mundo. Talvez o maior legado que a Copa tenha trazido é essa perspectiva de mudança na consciência política do povo. Esse é o verdadeiro legado. Espero que a gente continue tendo esse tipo de mobilização depois que a Copa acabar.

Tags: Copa, entrevista, futebol, política, skank

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