Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Cultura

Documentário sobre Sergio Bernardes tem estreia nacional em junho

Integrou a mostra competitiva do Festival É Tudo Verdade

Jornal do Brasil

“Eu invento meu mundo... e cada um de vocês deve inventar o seu mundo". Dita por Sergio Bernardes aos seus alunos em uma das cenas do documentário Bernardes, a frase é uma das inúmeras provocações levadas às telas pela vida e obra do carioca, que faleceu em 2002, aos 82 anos.

O longa, um dos selecionados para Mostra Competitiva do 19º Festival É Tudo Verdade, realizado em maio, chega em 26 de junho aos cinemas de seis capitais – São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador -, revela a polêmica e arrebatadora vida profissional e familiar do arquiteto, urbanista, designer, escritor, poeta, inventor e, sobretudo, humanista incompreendido pelo seu tempo. Um homem singular, de personalidade afiada, apaixonante e tão inventiva e questionadora quanto bem humorada.

Documentário sobre Sergio Bernardes tem estreia nacional em 19 de junho
Documentário sobre Sergio Bernardes tem estreia nacional em 19 de junho

O projeto nasceu da busca pessoal pela história avô do neto e também arquiteto renomado Thiago Bernardes, que acaba de ganhar o A+Awards do Archtizer, uma das importantes premiações mundiais da profissão, com o projeto do Museu de Arte do Rio – MAR. É ele quem assina o argumento do filme, que tem direção de Gustavo Gama Rodrigues e Paulo de Barros, e vai à frente das câmeras entrevistar pessoas que conviveram com Sergio e visitar suas obras.

Grande nome da segunda geração da arquitetura moderna brasileira, desde seus primeiros trabalhos Sergio já prenunciava um talento incomum, consolidado por uma estética própria e inovadora, o que incluía criar elementos construtivos até então inexistentes para atender à sua criatividade, que depois seriam utilizados em larga escala no mercado.

Assinou inúmeros projetos no Brasil e no exterior pelos quais recebeu: com a Residência Lota Macedo Soares, em Samambaia, Petrópolis, no Rio de Janeiro, o prêmio destinado a jovens arquitetos na 2a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo. Com a Residência Jadir de Sousa, Rio de Janeiro, o prêmio na Bienal de Veneza, e com o Pavilhão do Brasil na EXPO- Bruxelas, Bélgica, o 1o Prêmio Internacional dos Pavilhões. Desde então seus projetos foram premiados em diversas categorias: arquitetura residencial, industrial, religiosa, esportiva, institucional e urbanismo. Alguns de seus projetos mais conhecidos são o Pavilhão de São Cristóvão e os Postos de Salvamento da Orla das praias, no Rio de Janeiro, o Palácio do Governo do Ceará, e o Hotel Tambaú, na Paraíba.

Mais requisitado arquiteto residencial no Rio de Janeiro dos anos 50 e 60, tinha soluções construtivas e espaciais inovadoras como sua marca registrada. Como na casa em que Lota Macedo viveu com Elizabeth Bishop, incensada por marcar o uso, até então inédito, de estruturas metálicas. Na impossibilidade de adquirir o material, fabricou-o ele mesmo com sua equipe, dobrando vergalhões de aço para conseguir o efeito desejado.

A viagem no tempo realizada por Thiago vai muito além da importância da obra arquitetônica do avô, revelando que o talento original de Sérgio Bernardes só é comparável à sua dimensão humana. O talento como arquiteto esteve a serviço de algo maior, suas propostas humanísticas. Guilherme Wisnik, professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, escritor, crítico de arte e arquitetura e curador da última edição da Bienal de Arquitetura de São Paulo, deixa claro – “..a obra de Sergio Bernardes é de fundamental importância pra qualquer estudo sobre a arquitetura e a cultura no País”. Entre os entrevistados estão também os netos Pedro Bernardes, músico, e Mana Bernardes, designer, entre outros.

Através de visitas aos principais projetos, da descoberta do vasto material iconográfico e de arquivo documental e audiovisual, com suporte do Projeto Memória, e encontros com pessoas que conviveram com o arquiteto ou que por ele foram influenciadas, Thiago monta as peças de um instigante quebra-cabeça, onde são levantadas questões que  passam pelo desaparecimento de seu nome dos currículos das faculdades de arquitetura e do rompimento com os status quo ao deixar o casamento de 25 anos, com uma contundente carta à família, e mudar-se para os EUA para encontrar Buckminster Fuller, visionário da arquitetura mundial, em busca de novas possibilidades tecnológicas.

Na volta, dedicou-se às suas propostas de mudanças na sociedade a partir de soluções arquitetônicas e urbanísticas para as cidades, seja no LIC - Laboratório de Investigações Conceituais – instituto criado por ele em, 1979 , ou em cargos públicos. Aos 82 anos, quando faleceu, ainda se mantinha produtivo e fiel às ideias que hoje, em pleno caos urbano e social do século XXl, mostram-se cada vez mais relevantes.

O filme conta ainda com algo raro no País: a possibilidade de exploração de um vasto e rico material documental e iconográfico que o acervo do arquiteto reúne em 22.500 plantas, inúmeros croquis, textos, teses e poesias e mais de 8.000 fotografias. Mantido intacto desde sua morte, estão registrados ali os mais de 65 anos de produção intelectual que evidenciam o espírito inovador de um homem que veio ao mundo para propor-lhe novas possibilidades.

Tags: arquiteto, fotográfico, humanista, longa, material, vida

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