Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Cultura

"Me acusavam de comunista por ler livros", denuncia oficial reformado da Marinha

Eunício Cavalcante, preso e torturado na ditadura, lança livro "Mergulho no Inferno" nesta terça

Jornal do BrasilAna Luiza Albuquerque*

O livro "Mergulho no Inferno: Relatório sobre as torturas no Brasil", de Eunício Precílio Cavalcante, oficial reformado da Marinha, preso e torturado durante a ditadura militar, será lançado neste terça-feira (27), às 18h30, na Livraria Leonardo da Vince, no Centro do Rio de Janeiro. Na obra, Eunício discorre sobre o golpe e as torturas de uma época de barbárie.

"Escrevi o livro diante da necessidade de alguns companheiros de dizer alguma coisa sobre o período que vivemos. Nós, militares, fomos pouco conhecidos por lutarmos contra a truculência nos quarteis. Os sargentos marinheiros lutavam desesperadamente para barrar o golpe", garante. "O João Goulart foi deposto pelo alto comando militar, não pelas forças armadas, como dizem. A maioria dos subalternos era a favor de Jango. Já no alto comando não chegava a ter 1% que defendesse o governo", continua.

Eunício afirma que a campanha anticomunista nos quarteis era muito intensa antes do golpe. "A campanha anticomunista acertou o quartel em cheio. O sujeito era considerado comunista por ler no quartel. Eu sempre fui um leitor obsessivo, então chegavam para mim e diziam: 'Você está lendo muito, isso aqui não é lugar para leitores'. Me chamaram e me disseram que eu estava sendo observado, que minha ficha estava como suspeito de ser partidário dos vermelhos por causa de 'certas leituras'. O anticomunismo era pavoroso, naquela época nem se falava em direitos humanos. É preciso esclarecer certas partes da história daquele tempo. Depois do golpe, as torturas e mortes foram nojentas", critica.

"Lembrar é resistir. Não lembrar a ditadura é ser conivente com o crime cometido. Deveria ser ainda mais lembrada, ensinada em todos os colégios, ter muitas palestras, debates... É necessário mostrar este passado triste", conclui o oficial reformado. Este é o segundo livro publicado por Eunício, de 82 anos. O primeiro foi "Guerra e terrorismo". 

*Programa de Estágio Jornal do Brasil

Tags: ditadura, golpe, lançamento, livro, militares, oficial, tortura

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