Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Museu de Arte Moderna de NY recebe retrospectiva de Lygia Clark

Mostra reunirá quase 300 obras da artista brasileira e será tema de documentário

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Pintora e escultora que teve papel fundamental na história da arte contemporânea brasileira e se tornou referência para artistas que lidam com os limites das formas convencionais de arte, Lygia Clark (1920-1988) ganha a partir do mês que vem a sua primeira grande retrospectiva nos Estados Unidos. De 10 de maio a 24 de agosto de 2014, o MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque) abriga a mostra "Lygia Clark: O Abandono da Arte, 1948-1988", reunindo cerca de 300 trabalhos entre desenhos, pinturas, esculturas e projetos participativos. Eles fazem parte de coleções públicas e particulares, incluindo o próprio acervo do museu norte-americano.

Pintora e escultora teve papel fundamental na história da arte contemporânea brasileira 

A exposição contempla a produção da artista desde o final dos anos 1940 até o começo da década de 1980 e divide-se em três temas-chaves: abstracionismo, neoconcretismo e o ‘abandono da arte’.  Cada um destes eixos ancora um conceito ou uma constelação de trabalhos que marcam um passo definitivo na carreira da artista. 

A mostra em Nova York deve servir para atrair maior atenção internacional ao seu trabalho. "Lygia Clark: O Abandono da Arte, 1948-1988" tem organização de Luis Pérez-Oramas, curador da coleção de arte latino-americana Estrellita Brodsky no MoMA, e Connie Butler, curadora-chefe do Hammer Museum, com Geaninne Gutiérrez-Guimarães e Beatriz Rabelo Olivetti, assistentes curatoriais do departamento de desenhos e impressões do MoMA.

Desde o início, a obra de Lygia dialoga com predecessores fundamentais da abstração geométrica moderna, incluindo Paul Klee, Fernand Léger (de quem foi aluna), Piet Mondrian, Vladimir Tatlin, Max Bill e Georges Vantongerloo. O seu primeiro grupo de pinturas e trabalhos gráficos (1948-59) sublinha a ruptura com a superfície plana e aponta para um modo tridimensional de abstração.  A etapa inicial da mostra lida com a descoberta que a artista intitulava de ‘linha orgânica’: uma abertura de espaço conceitual – e eventualmente real – dentro da superfície de suas obras, que a fez migrar das composições gráficas primordiais (1952-53) para a série de peças em camadas múltiplas conhecidas como Superfícies Moduladas, Planos em Superfícies Moduladas e Espaços Modulados (1956-58).

A seção que apresenta a fase neoconcreta engloba grande parte dos últimos trabalhos ‘formais’ de Lygia, quando ela passou a ser identificada como artista neoconstrutivista. Para ela, o Neoconcretismo iniciou uma investigação que a levou praticar a arte além dos limites das formas convencionais. A concepção da elasticidade do espaço se materializaria mais adiante em seu repertório de formas esculturais. Incluem-se nesta segunda divisão as séries Bichos (1960–66), Abrigos Poéticos (1964) e Trepantes (1965). Duas obras fundamentais desta última cadeia – O Dentro é o Fora (1963) e O Antes é o Depois (1963) – e o seu primeiro trabalho quase performático, Caminhando (1963), também fazem parte da seção.

Entre 1966 e 1988, um período que coincidiu com uma crise pessoal e uma subsequente longa temporada de exílio na Europa, Lygia retomou de forma radical conceitos e práticas que havia confrontado nos anos 60. A artista explorou novas maneiras de ações coletivas e processos terapêuticos com a ajuda de seus objetos e criações, que preparariam o corpo para a análise da mente. Ela também produziu alguns objetos para contextos artísticos e para eventos do calendário do “mundo da arte”, como a histórica instalação A Casa é o corpo, criada para a Bienal de Veneza de 1968. A conclusão final de sua investigação, no entanto, terminou por levá-la a questionar profundamente o status e utilidade de trabalhos convencionais como meios de expressão. Desta forma, proclamando o abandono do ato de se fazer arte, Lygia passou a se denominar ‘não artista’ e criou uma prática usando materiais aplicados diretamente sobre corpo, interagindo com os seus interlocutores de uma forma muito direta. Entre as proposições (como ela costumava chamá-las) contidas nesta última parte da mostra estão trabalhos normalmente considerados “arquiteturas biológicas” e “objetos relacionais” do início da década de 70, que estão apresentados ao lado de originais e réplicas de dispositivos que concebeu para permitir ao público vivenciar experiências relacionais. Somente agora, após a sua morte, que este último capítulo– happenings, performance e participação do público – passou a ser visto como uma forma radical de se fazer arte.  

DOCUMENTÁRIO

Por iniciativa de Alvaro Clark, filho de Lygia e presidente da associação cultural “O Mundo de Lygia Clark”, que responde pela defesa do patrimônio da artista, todas as fases da exposição – desde a pré-montagem à abertura ao público – estão sendo registrados em vídeo e darão origem a um documentário de aproximadamente 30 minutos. 

Produzido pela Natasha Artes, de Connie Lopes, em parceria com Vanessa Clark, o curta-metragem, ainda sem título definido, tem direção de Daniela Thomas e o propósito de perpetuar a maior exibição da obra de Lygia Clark no considerado mais famoso e importante museu de arte moderna do mundo.



Tags: arte brasileira, lygia clark, moma, nova iorque, projeção

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