Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Setembro de 2014

Cultura

Museu de Arte Moderna de NY recebe retrospectiva de Lygia Clark

Mostra reunirá quase 300 obras da artista brasileira e será tema de documentário

Jornal do Brasil

Pintora e escultora que teve papel fundamental na história da arte contemporânea brasileira e se tornou referência para artistas que lidam com os limites das formas convencionais de arte, Lygia Clark (1920-1988) ganha a partir do mês que vem a sua primeira grande retrospectiva nos Estados Unidos. De 10 de maio a 24 de agosto de 2014, o MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque) abriga a mostra "Lygia Clark: O Abandono da Arte, 1948-1988", reunindo cerca de 300 trabalhos entre desenhos, pinturas, esculturas e projetos participativos. Eles fazem parte de coleções públicas e particulares, incluindo o próprio acervo do museu norte-americano.

Pintora e escultora teve papel fundamental na história da arte contemporânea brasileira 
Pintora e escultora teve papel fundamental na história da arte contemporânea brasileira 

A exposição contempla a produção da artista desde o final dos anos 1940 até o começo da década de 1980 e divide-se em três temas-chaves: abstracionismo, neoconcretismo e o ‘abandono da arte’.  Cada um destes eixos ancora um conceito ou uma constelação de trabalhos que marcam um passo definitivo na carreira da artista. 

A mostra em Nova York deve servir para atrair maior atenção internacional ao seu trabalho. "Lygia Clark: O Abandono da Arte, 1948-1988" tem organização de Luis Pérez-Oramas, curador da coleção de arte latino-americana Estrellita Brodsky no MoMA, e Connie Butler, curadora-chefe do Hammer Museum, com Geaninne Gutiérrez-Guimarães e Beatriz Rabelo Olivetti, assistentes curatoriais do departamento de desenhos e impressões do MoMA.

Desde o início, a obra de Lygia dialoga com predecessores fundamentais da abstração geométrica moderna, incluindo Paul Klee, Fernand Léger (de quem foi aluna), Piet Mondrian, Vladimir Tatlin, Max Bill e Georges Vantongerloo. O seu primeiro grupo de pinturas e trabalhos gráficos (1948-59) sublinha a ruptura com a superfície plana e aponta para um modo tridimensional de abstração.  A etapa inicial da mostra lida com a descoberta que a artista intitulava de ‘linha orgânica’: uma abertura de espaço conceitual – e eventualmente real – dentro da superfície de suas obras, que a fez migrar das composições gráficas primordiais (1952-53) para a série de peças em camadas múltiplas conhecidas como Superfícies Moduladas, Planos em Superfícies Moduladas e Espaços Modulados (1956-58).

A seção que apresenta a fase neoconcreta engloba grande parte dos últimos trabalhos ‘formais’ de Lygia, quando ela passou a ser identificada como artista neoconstrutivista. Para ela, o Neoconcretismo iniciou uma investigação que a levou praticar a arte além dos limites das formas convencionais. A concepção da elasticidade do espaço se materializaria mais adiante em seu repertório de formas esculturais. Incluem-se nesta segunda divisão as séries Bichos (1960–66), Abrigos Poéticos (1964) e Trepantes (1965). Duas obras fundamentais desta última cadeia – O Dentro é o Fora (1963) e O Antes é o Depois (1963) – e o seu primeiro trabalho quase performático, Caminhando (1963), também fazem parte da seção.

Entre 1966 e 1988, um período que coincidiu com uma crise pessoal e uma subsequente longa temporada de exílio na Europa, Lygia retomou de forma radical conceitos e práticas que havia confrontado nos anos 60. A artista explorou novas maneiras de ações coletivas e processos terapêuticos com a ajuda de seus objetos e criações, que preparariam o corpo para a análise da mente. Ela também produziu alguns objetos para contextos artísticos e para eventos do calendário do “mundo da arte”, como a histórica instalação A Casa é o corpo, criada para a Bienal de Veneza de 1968. A conclusão final de sua investigação, no entanto, terminou por levá-la a questionar profundamente o status e utilidade de trabalhos convencionais como meios de expressão. Desta forma, proclamando o abandono do ato de se fazer arte, Lygia passou a se denominar ‘não artista’ e criou uma prática usando materiais aplicados diretamente sobre corpo, interagindo com os seus interlocutores de uma forma muito direta. Entre as proposições (como ela costumava chamá-las) contidas nesta última parte da mostra estão trabalhos normalmente considerados “arquiteturas biológicas” e “objetos relacionais” do início da década de 70, que estão apresentados ao lado de originais e réplicas de dispositivos que concebeu para permitir ao público vivenciar experiências relacionais. Somente agora, após a sua morte, que este último capítulo– happenings, performance e participação do público – passou a ser visto como uma forma radical de se fazer arte.  

DOCUMENTÁRIO

Por iniciativa de Alvaro Clark, filho de Lygia e presidente da associação cultural “O Mundo de Lygia Clark”, que responde pela defesa do patrimônio da artista, todas as fases da exposição – desde a pré-montagem à abertura ao público – estão sendo registrados em vídeo e darão origem a um documentário de aproximadamente 30 minutos. 

Produzido pela Natasha Artes, de Connie Lopes, em parceria com Vanessa Clark, o curta-metragem, ainda sem título definido, tem direção de Daniela Thomas e o propósito de perpetuar a maior exibição da obra de Lygia Clark no considerado mais famoso e importante museu de arte moderna do mundo.

Tags: arte brasileira, lygia clark, moma, nova iorque, projeção

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.