Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Cultura

Os 100 anos de Carlos Lacerda 

Jornal do BrasilReinaldo Paes Barreto

Rosas e pedras de meu caminho é, talvez, o livro mais pessoal do Lacerda. Em vez dos holofotes, revelações em voz baixa, com o coração limpo. Pequenas inconfidências, conversas com o leitor, como um "velhinho" que repassa a sua vida na frente dos netos.

Na verdade, nada disso. Apenas uma trégua, na areia:  o  surfista de ondas gigantes não resiste a uma vida de alto risco. Nem por acaso, a frase-síntese do livro é do poeta português Miguel Torga, que ele tanto admirava: "podia ser melhor o meu destino, ter o sol mais aberto em cada mão".

Bipolar? É simplismo. Lacerda devia ser polipolar. E creio que esses polos tinham vida própria. O jornalista-panfletário quase possesso -- estampando, por exemplo, em editorial da Tribuna da Imprensa, o título: Cafajeste Máximo, para se refereir ao presidente da República (JK) -- ou vociferando pelo rádio as maiores acusações contra o Getúlio, era o mesmo capaz de passar uma noite inteira sossegado no seu sítio no Rocio, em Petrópolis, com amigos como João Condé, declamando Verlaine?

O tribuno que paralisava a Câmara dos Deputados no Rio (até os contínuos ficavam no plenários, siderados) com seus discursos ou revides, o orador que de cima de um palanque ou da caçamba de um caminhão lotava praças em Copacabana e na Tijuca fazendo a classe média carioca voltar pra casa hipnotizada às 2h da madrugada, para ouvir os seus comícios, era o mesmo conversador divertido e boêmio que adorava varar as madrugadas nas tascas de Lisboa, declamando Guerra Junqueiro (o melro) ou Pessoa -- com a sua voz grave e anasalada?

E ligar para a Regina Costar aqui no Rio para que ela não esquecesse de cuidar dos seus passarinhos...

Ou personagem de Pirandello à procura de um autor -- ele mesmo?

Não sei. 

Sei que além do governador da Guanabara que reuniu a Cidade Partida (Zuenir) com o Túnel Rebouças, que iniciou um processo de meritocracia no serviço público, do gentleman que conversou com a Fara Diba sobre a poesia persa, Lacerda apresentou o carioca à Baía de Guanabara, com o Atêrro do Flamengo. Vocês podem imaginar, por exemplo, que até os presidentes da República, no Palácio do Catete, tinham por panorama da janela de seus quartos a Rua do Catete e a esquina de Silveira Martins -- e toda a deslumbrante paisagem desenhada por Debret da Urca, Pão de Açucar e da enseada  ficavam escondidas por um maciço renque de palmeiras? 

E as pessoas achavam normal!

Como uma máquina de pensar (e viver perigosamente), Lacerda foi tradutor, contista, escritor de uns 15 livros, editor, gourmet, "andador de continentes", como o Eça chamava o Eduardo Prado, criador de pássaros e de flores e -- essencialmente -- um homem da Renascença disposto a fazer da sua vida uma obra-de-arte.

Bonita e trágica.

Mesmo com os muitos defeitos (segundo ele, pelos quais pagou caro) vamos precisar de mais uns 100 para nascer outro cara igual a ele.

Lacerda em Lisboa
Lacerda em Lisboa

Obs: essa foto guarda -- pasmem -- uma outra característica pouco conhecida do Lacerda: um certo pudor de "ofender" ou prejudicar com a sua presença quem não tinha nada com o pato. Por exemplo, em 1966, auto-exilado em Lisboa, compareceu por iniciativa própria a uma conferência do meu avô materno, Francisco Leite, que ali estava em casa de meus pais -- chamada São Tomé, o Diabo e a Erva Mate. 

Aqui estamos todos na foto: D. Odette Carvalho e Souza, cônsul geral, meu pai, o filho do Conde de Monsaraz (mesmo nome), o meu avô, ele e o professor Nicolau Firmino. No primeiro plano eu, de cuia de chimarrão e a meu lado o Renan, meu irmão.

Pois o Lacerda relutou insistentemente em não tirar essa foto, argumentando: vocês são diplomatas, servem ao governo que eu combato... Foi uma luta convencê-lo!  

Tags: aniversário, Artigo, brasil, Carlos, Lacerda, política

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