Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

Cultura

Primeiro bloco afro do Maranhão, Akomabu completa 30 anos

Agência Brasil

Um grupo de 45 pessoas enroladas em lençóis, tocando instrumentos pintados de branco e manifestando as ideias do movimento negro pelas ruas de São Luís. Assim nasceu o primeiro bloco afro do Maranhão, o Akomabu, que em iorubá, significa a cultura não deve morrer. O bloco completa 30 anos, no dia 3 de março, segunda-feira de carnaval.

Antes do Akomabu, veio o Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN), criado em 1979, com atuação mais política. “Tínhamos as nossas atividades normais durante o ano e, no carnaval, acabávamos nos dispersando, cada um saía em um bloco, em uma escola de samba. Daí, surgiu a proposta de permanecermos juntos e a maneira era criando um bloco”, conta o professor de antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e vocalista do grupo, Carlos Benedito Rodrigues, o Carlão Rastafari.

“O ano de 79 [período da ditadura militar] era uma época de luta por democracia e nós fomos para a rua por democracia, mas além dela, por democracia racial”, diz o médico e primeiro presidente do CCN, Luiz Alves Ferreira. “Um dos nossos instrumentos é a cultura, porque cultura é política, não é só dança ou batuque”.

Primeiro bloco afro do Maranhão, Akomabu completa 30 anos no dia 3 de março 
Primeiro bloco afro do Maranhão, Akomabu completa 30 anos no dia 3 de março 

Dois anos após a criação, o bloco tinha 200 integrantes. Hoje, são 600 associados. Na bateria, há crianças e adolescentes. O Akomabu congrega dança, música, o tambor e a religião. Antes de todos os ensaios, o ambiente é purificado com incenso. Representantes de religiões de matriz africana guardam o local. Nas paredes, estão as figuras de orixás, como Yansã e Oxossi. No sábado, antes do carnaval, o bloco recebe uma bênção de um pai de santo, na própria sede. No dia seguinte, visita um terreiro, a Casa das Minas ou a Casa de Nagô. Neste ano, a bênção será na de Nagô, casa onde o bloco recebeu também a primeira bênção.

No ensaio, vários cantores se apresentam. Para as crianças, é permitido um intervalo com direito a lanche. Mesmo quem vai apenas para assistir, acaba acompanhando os passos. É a oportunidade de escutar com antecedência as músicas que irão para as ruas.

As músicas, tocadas pelo Akomabu, são autorais. No início, eram canções típicas de blocos afros baianos e dos tambores de mina maranhense, mas logo as composições passaram a ser próprias. O combate à discriminação está nos versos. "Chibata, corrente, pra mim tudo já se quebrou, preconceito e racismo ainda não acabou. Mostre as armas meu pai é preciso lutar pra fome e miséria ter que acabar. Akomabu combatendo o preconceito e o racismo, revela o passado do negro que estava escondido”, diz a letra da música Negro.

A música e as batidas atraíram Ana Amélia Bandeira, em 1987. Hoje, ela é uma das coordenadoras do CCN. “Eu vi o bloco na passarela e me apaixonei. No ano seguinte, estava aqui. Vim dançar e já sai na bateria”.

O Akomabu abriu caminho para o surgimento de outros blocos afros. Atualmente, são dez no estado, oito na capital. Muitas vezes, o bloco teve de improvisar para conseguir desfilar. Na década de 90, sem carro de som, foi usada uma caixa de som amarrada na carroceria de um caminhão. Atualmente, o bloco recebe cerca de R$ 30 mil do estado do Maranhão e R$ 3 mil da prefeitura de São Luís. As despesas, no entanto, beiram os R$ 45 mil. Os recursos são arrecadados em eventos feitos ao longo do ano para festa do carnaval e também para projetos sociais.

“Temos vários projetos, todos os anos, para segurar essa criançada e tirá-la das ruas, do trabalho nas feiras”, explica o cantor José de Ribamar, o Careca, há 25 anos no grupo.

Com 30 anos de existência, o bloco já reúne os filhos e netos dos primeiros integrantes. Selma Luz participa há 19 anos e leva também as duas filhas – Abytercan Zaira Odara Luz, de 6 anos, e Dandara Caetana Luz, de 10 anos. “Sempre sai nas escolas de samba. Quando começou o Akomabu, comecei a vir para cá. Meus irmãos, amigos, todos estão aqui”, diz Selma. As três estão na bateria. “Minha mãe me trouxe no começo, mas depois, vinha feliz. Ensaio em casa e estou ansiosa para o carnaval”, conta Dandara.

Para o sociólogo Alderico Segundo, o impacto do Akomabu na cultura maranhense vai além dos blocos afros. “A influência afro não está só no que diz respeito aos instrumentos, a gente percebe na questão do uso de indumentária, nas alegorias, na própria dança. Os bailados são inspirados em danças africanas. Essa cultura está bem presente”. Para divulgar a história do bloco, o Akomabu montou uma exposição no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, no centro histórico da cidade.

Tags: bloco, Carnaval, Maranhão, raízes, tradição

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