Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Cultura

Moraes Moreira cancela trio em Salvador e culpa empresa

Portal Terra

Quando o cantor, compositor e instrumentista baiano Moraes Moreira compôs, com Armandinho, Cadê o Trio?, dos versos: “se a gente do trio não pula/A culpa é de quem manipula/e não pula o Carnaval”, não deveria imaginar estar sendo tão profético. Por conta de um lance de tintas políticas, mas com um fundo econômico, Moraes não vai mais sair nesta quinta-feira (27) em seu já tradicional trio sem cordas para a pipoca no Circuito Dodô (Barra-Ondina). O artista alega descumprimento de um acordo que teria feito com a Bahiatursa – Empresa de Turismo da Bahia S.A -., para que esta pagasse parte do seu cachê. O órgão oficial de turismo do Estado nega.

De acordo com Moraes, em entrevista ao site El Cabong, haveria um acordo entre ele, a Saltur – Empresa de Turismo de Salvador -, e a Bahiatursa, no qual cada uma das empresas públicas entraria com uma parte dos recursos para que a apresentação de hoje, a sua única no Carnaval 2014, acontecesse.

Ainda segundo sua fala no site, ele teria conseguido um trio elétrico e parte dos recursos – que bancaria passagem, hospedagem, alimentação e cachê para ele e seus músicos –, com a Saltur, e a Bahiatursa entraria com a outra parte. Por razões políticas, como alegou Moraes, a Bahiatursa não teria cumprido o acordo, o que teria inviabilizado a saída de seu trio.

“A partir do momento que a Bahiatura soube que eu ia sair no trio da Saltur, retirou o apoio, alegando que era ano eleitoral. Mas eu já estava certo em sair no trio da Saltur, que é o que saio há muitos anos. Eles politizaram o Carnaval”, disse o cantor ao El Cabong. Já o presidente da Bahiatursa, Fernando Ferrero, refuta veementemente esta versão e declara, em entrevista exclusiva ao Terra, que o apoio foi retirado porque o pedido de Moraes era ilegal.

“Eu tenho comigo o ofício que o empresário de Moraes nos enviou na semana passada, solicitando um apoio de R$ 50 mil para tocar no Carnaval da Bahia, mesma quantia com que apoiamos Moraes no ano passado para tocar no nosso trio elétrico”, começa Ferrero. “Acolhemos de bom grado o pedido, reservamos um dos trios elétricos que licitamos, nos comprometemos a dar o cachê pedido e disponibilizamos para ele a possibilidade de escolha de dia. Quando, neste último final de semana, fomos informados de que ele não podia tocar naquele trio, nem naquela data, porque já havia se comprometido com a Saltur de tocar na quinta de Carnaval no trio deles, na Barra, com o cachê de 70 mil”.

Ferrero explica que foi procurado pelo empresário de Moraes Moreira, com a proposta de que a Bahiatursa complementasse o cachê com os R$ 50 mil já propostos, para que perfizesse a quantia de R$ 120 mil, o que seria ilegal se feito assim. “Eu não posso dar dinheiro do Estado para ele tocar no trio da Saltur, e ainda recebendo dois cachês, não é assim que se faz as coisas. O trâmite correto seria a Saltur procurar a Bahiatursa para firmar um convênio de cooperação técnico-financeiro, para, assim, complementar o cachê dele. O documento que eu tenho emitido por seu empresário só me pedia trio e cachê, não contemplava mais nada além disso”.

Ferrero rebate as críticas de Moraes, que instala o episódio no âmbito da disputa político-eleitoral, disparando que o artista foi à imprensa “dizer bobagens”. “Declarar que estamos politizando o Carnaval é balela. Estamos nos dando muito bem com a Saltur, ajudando o máximo que podemos a realização do Carnaval de Salvador, que é a cidade que mais recebe recursos. Ele quer jogar nas costas do Estado um compromisso que ele não teve. Se ele tivesse pedido, desde o início, um cachê de R$ 120 mil, teríamos dito que não poderíamos arcar com isso, já que nossa dotação para investir no Carnaval 2014 em todo Estado é de R$ 32 milhões. O empresário dele não deve entender como funciona o uso do dinheiro público. O dinheiro é para o Carnaval, mas tem que ser empregado dentro da legalidade.”

?Do Rio de Janeiro, Moraes lamentou, ainda em sua fala para o site El Cabong: “Todo mundo sabe que faço o Carnaval de Salvador muito mais por amor. São essas coisas da política que não concordo, são atitudes primitivas. Não acredito que isso vai influenciar em nada no resultado da eleição. Normalmente os artistas ficam pedindo aqui e ali. Eu, a essa altura de minha vida, depois de 40 Carnavais e de um serviço prestado ao Carnaval, não tenho condições e saco pra ficar pedindo. Por isso decidimos cancelar. Só pedimos desculpas ao povo da Bahia. Não tem volta, já era. Já desmobilizamos a banda, inclusive. Lamento muito, mas a gente precisa começar a não aceitar certas coisas”, finalizou.

Mas, parece que Moraes esqueceu dos versos que lavrou, com Armandinho, em sua emblemática música: “se o caminhão virou deixa virar. Mas nem por isso o trio deixou de tocar…”.

Tags: Bahia, cancelamento, Carnaval, carro, show

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