Jornal do Brasil

Sábado, 19 de Abril de 2014

Cultura

Presos há 45 anos, Gil e Caetano foram vítimas do AI-5

Prisão foi em virtude de show com os Mutantes

Portal Terra

Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos pela ditadura, em São Paulo, 14 dias depois após o AI-5, entrar em vigor. Foram transferidos para o Rio de Janeiro e soltos dois meses depois, já inocentados das acusações de desrespeito ao hino nacional e a bandeira. Mas ao voltar a Salvador foram novamente presos, submetidos a prisão domiciliar, proibidos de fazer shows e dar entrevistas. Em meados de 1969, os militares disseram que a situação dos dois só poderia ser resolvida com o exílio.

Gilberto Gil no exílio
Gilberto Gil no exílio

A prisão ocorreu em virtude de um espetáculo que os dois fizeram com os Mutantes na boate Sucata, no Rio de Janeiro. O palco foi ornado com uma imagem do artista plástico Hélio Oiticica, na qual um bandido conhecido como Cara de Cavalo (executado pela Scuderie Le Cocq, esquadrão de morte da polícia) aparece deitado no chão com a inscrição: “seja marginal, seja herói”. Uma pessoa que se sentiu ofendida com a imagem conseguiu fechar o local por via judicial. Correu então a notícia de que o local tinha sido fechado por causa da “bandeira” de Oiticica.

Militares ouviram falar da tal “bandeira” junto com rumores de que o hino nacional havia sido cantado de forma profana. Militares dos Agulhas Negras ficaram sabendo da notícias misturadas as boataria e pediram aos superiores uma averiguação.

No dia da prisão Gil tinha dormido na casa de Caetano. Logo cedo pela manhã, ao polícia bateu na porta. A pedido a mulher Caetano, Dedé, Gil voltou para sua casa que ficava ali próxima. Durante a prisão, eles ouviram apenas que tinham sido convocados a prestar esclarecimentos no Rio. Os dois foram colocados no camburão, que passou ainda na casa de Geraldo Vandré, mas como ele não foi encontrado, e seguiram para o Rio. Eles chegaram no final do dia, depois de aproximadamente cinco horas de viagem.

No quartel passaram por interrogatório e souberam que estavam lá para prestar esclarecimentos sobre participação em passeatas, sobre o show da Sucata e acusações de que teriam cantado o hino Nacional com letra profana. Foram levados para outro quartel, em Marechal Deodoro, onde ficaram presos em celas individuais por duas semanas, e tiveram suas cabeças raspadas. Foram transferidos para quarteis separados depois.

Gil conta que após quase um mês de cárcere já tinha desenvolvido uma relação afetuosa com os militares, foi autorizado a iniciar uma dieta vegetariana, e ganhou até um violão de presente do sargento Juarez. Com o instrumento, ele compôs as canções: “Futurível”, “Cérebro Eletrônico” e “Vitrines”, além de uma quarta da qual ele esqueceu. Um certo dia, foi indagado se não faria uma apresentação para a tropa após o jantar, no pátio do quartel. Ele cantou “Domingo no Parque”, “Procissão” e outras.

Caetano em Londres
Caetano em Londres

Os dois já estavam presos há um mês quando os militares se deram por satisfeitos com a investigação que inocentou os dois de qualquer crime. Entretanto, ficaram presos por mais um mês. Só foram soltos em fevereiro de 1969.

Eles embarcaram em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para Salvador. Quando chegaram foram novamente presos, porque as autoridades locais ainda não tinham sido informadas de que o pedido de prisão já tinha sido cumprido.

Mas de nada adiantou. Sem acusação formal ou processo tramitando contra os dois, eles foram submetidos à prisão domiciliar. Não podiam sair de Salvador, trabalhar e ainda eram obrigados a se a se apresentar diariamente na Polícia Federal.

Essa prisão acabou se tornando um problema até mesmo para o coronel Luis Artur, que chefiava a Polícia Federal soteropolitana. Ele mesmo dizia que a situação era esquisita e foi ao Rio de Janeiro resolver o impasse. Quando voltou, disse que os dois deveriam embarcar para capital fluminense, onde ouviram dos militares que a única alternativa seria deixar o País. Foi autorizado apenas que fizessem um show, que aconteceu nos dias 20 e 21 de julho de 1969, para arrecadar fundos para a viagem.

Em 1971, antes de voltar efetivamente do exílio em Londres, Caetano voltou ao Brasil, por um mês, apenas para participar das festas de 40 anos de casamento de seus pais. Sua irmã, Maria Bethânia, conseguiu a autorização dos militares com ajuda de Benil Santos, seu empresário na época.

Quando apareceu na porta do avião, ele foi colocado dentro de um fusca por militares à paisana e levado para um local onde foi interrogado por seis horas. Segundo Caetano relatou anos mais tarde em vídeos publicados em sua página na internet, os militares queriam que ele compusesse uma música sobre a Transamazônica, e citaram nomes de artistas que colaboravam com o governo militar para convencê-lo. Ele foi proibido de cortar o cabelo ou a barba para que não passasse a imagem de que tinham feito algo com ele. Foi obrigado ainda a fazer duas apresentações em programas da TV Globo: Chacrinha e Som Livre Exportação.

Durante o tempo que ficou no Brasil, Caetano foi monitorado de perto por agentes do regime, que acompanhavam e anotavam o que era dito pelo artista nas poucas entrevistas que deu nesse período.

Gil e Caetano só voltaram de vez para o Brasil em 1972. 

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Comentários

1 comentário
  • juvencio Oliveira

    Meu Deus! Que texto horrível!!! Como vocês tem a coragem de publicar isso - um texto menos que primário - em um jornal com a história do JB? Meu Deus!

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