Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

Cultura

"Tangos hermanos" abre fronteiras rumo ao tango universal

Quarto álbum do LiberTango traz autorais dos irmãos Caldi e homenageia Piazzolla e Nazareth

Jornal do Brasil

Imaginem o famoso tango de Astor Piazzolla, "Libertango", interpretado com ares de quadrilha, com direito a zabumba e a triângulo. O arranjo de Marcelo Caldi suscita um inusitado diálogo entre o gênero argentino e a música de inspiração nordestina. Essa é apenas uma das novidades de “Tangos hermanos” (Mills Records), quarto disco do LiberTango, primeiro a mostrar o lado autoral dos irmãos Alexandre e Marcelo Caldi.

As 11 faixas do álbum – a ser lançado nos dias 13, 14 e 15 de dezembro, no Festival Internacional Tango Brasil (informações no rodapé) – formam um mosaico de tendências que podem antever novos caminhos para o gênero no Brasil e no mundo, num momento em que se intensificam as trocas políticas, culturais e econômicas entre os dois maiores países da América do Sul.

O título do disco, "Tangos hermanos", sinaliza essa aproximação das variadas culturas latino-americanas. Por sua vez, o LiberTango tem a liberdade criativa como norteadora, em reverência à obra de Piazzolla mas se permitindo, cada vez mais, avançar numa proposta contemporânea, abrindo fronteiras rumo a uma linguagem universal do tango.  

DUAS ESTRELAS – Compositor inventivo, além de requisitado arranjador, o saxofonista e flautista Alexandre Caldi surpreende com o tango "Estrela", dedicado à mãe, Estela – uma melodia sinuosa que aos poucos se mostra transparente, cheia de caminhos imprevistos e que sugere influências latinas, do jazz e do clássico. Outra homenagem familiar é "Léo", um tango-choro criado por Marcelo Caldi para o irmão, Leonardo Caldi, o designer que assina todas as capas dos discos do LiberTango.

A pianista Estela Caldi e seus filhos Alexandre e Marcelo 
A pianista Estela Caldi e seus filhos Alexandre e Marcelo 

As celebrações em torno dos 150 anos de nascimento de Ernesto Nazareth em 2013 foram uma das razões que levaram o trio a assumir as raízes do tango brasileiro (até então, nos outros três discos, só havia gravações de peças argentinas). O resultado dessa nova fase está em cinco faixas que trazem releituras "tangueadas" do compositor, como "Bambino", "Encantada" e "Tenebroso", além da habanera "Plangente", um ritmo que influenciou o tango e o choro, e "Nove de julho", que abre o disco, referência à data de independência da Argentina. 

Estela Caldi acredita que o caminho da família de agora em diante seja aprofundar a pesquisa em outros autores brasileiros, mas sem deixar para trás os geniais compositores de Buenos Aires, sua terra natal. Prova disso está em "Bandoneon", na qual Marcelo Caldi transpõe para a sanfona as minúcias e sonoridades semelhantes à versão original do bandoneon de Piazzolla. A faixa traz uma abertura fenomenal, com uma cadência longa e estonteante de sanfona solo.

PARTICIPAÇÕES E MAIS NOVIDADES – Embora se apresente em boa parte das vezes como grupo instrumental, o LiberTango registrou, pela primeira vez, as vozes dos irmãos Caldi: Marcelo em "Mi Buenos Aires querido" (grande sucesso de Carlos Gardel e do brasileiro Alfredo Le Pera) e Alexandre em "Bambino" (que recebeu letra póstuma de Zé Miguel Wisnik). 

O álbum tem participação especial da cantora gaúcha Grazie Wirtti, que possui um incrível temperamento para a linguagem da música argentina, conforme está registrado em "Si Buenos Aires no fuera así" (Eladia Blázquez), faixa que traz ainda Matias Arriazú no violão de 8 cordas. A percussão nordestina em "Libertango" é de Fábio Luna.

TANGO EM FAMÍLIA – O LiberTango mantém vivo o legado do argentino Astor Piazzolla em terras brasileiras há 17 anos e é a prova do profundo diálogo musical entre Brasil e Argentina. Baseado no Rio de Janeiro, o trio é formado pela pianista Estela Caldi e por dois de seus filhos: Alexandre Caldi nos saxofones e nas flautas e Marcelo Caldi no acordeom. A discografia do trio inclui “LiberTango – a música de Astor Piazzolla” (Delira, 2005), “Cierra tus ojos y escucha” (Delira, 2007) e “Porteño” (Delira, 2010).

Nascido e consagrado na Argentina, o tango ganhou o mundo com a dança e também a partir da obra de Piazzolla, que inseriu o gênero nas mais respeitadas salas de concerto. Por aqui, ainda há quem se lembre do sucesso de Carlos Gardel entre as décadas e 1920 e 1940. Com este lançamento, o LiberTango reafirma a extraordinária força do ritmo latino e o insere definitivamente na agenda musical brasileira do século XXI.

A Tenda do Centro Cultural Banco do Brasil fica na Praça dos Correios. Ingressos a R$ 10 e a R$ 5, disponíveis na bilheteria do CCBB. Soraya Ravenle fará uma participação especial no show do dia 15, cantando, entre outras, "Vuelvo al Sur" e "Chiquilín de Bachín", que estão em CDs anteriores do LiberTango

Tags: hermanos, música, piazzolla, show, tango

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