Jornal do Brasil

Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

Cultura

Primeiro livro de Claudio Ulpiano será lançado na PUC

Professor que mesclava a filosofia com a vida teve uma multidão de seguidores

Jornal do Brasil

Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento, versão em livro da tese de doutoramento de Claudio Ulpiano, é a única obra escrita pelo autor com intenção de publicação.  O livro, de 280 páginas, será lançado pela Editora Funemac Livros – Centro de Estudo Claudio Ulpiano, no dia 8 de abril, na PUC-RJ.

Ulpiano foi um filósofo que revolucionou o ensino da filosofia no Rio de Janeiro quando, no início dos anos 80, levou a filosofia para fora das universidades. Suas aulas eram disputadas em incontáveis grupos de estudo frequentados por pessoas de todas as profissões e idades, em vários locais do Rio. Além de acompanhar fascinados pelas brilhante explicações filosóficas de Ulpiano, muitos de seus alunos gravavam suas disputadas aulas. 

Ulpiano foi um filósofo que revolucionou o ensino da filosofia no Rio
Ulpiano foi um filósofo que revolucionou o ensino da filosofia no Rio

 Também na UFF e na UERJ, onde foi professor, suas aulas eram assistidas por uma enorme quantidade de alunos, de dentro e de fora da instituição.  Durante toda a sua vida, Claudio privilegiou a tradição oral do ensino da filosofia, deixando em todos que assistiram suas aulas uma impressão profunda, causada pela limpidez de suas exposições e o rigor do seu pensamento. 

Embora possa ser considerado o maior divulgador do pensamento de Gilles Deleuze no Brasil, sua associação com este filósofo vai muito além de uma simples reprodução teórica.  Ulpiano foi um singular intercessor de Deleuze, revelando e desdobrando os conceitos e referências do filósofo francês; trazendo o pensamento deleuziano para dentro da vida cotidiana. 

A originalidade de Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento começa na  própria escritura do livro, rizomática, quase literária, a literatura se compondo com a filosofia no que esta tem de vigorosa, criativa, revolucionária. Ulpiano faz com Deleuze o que este fez com Bergson, Kant, Hume, Nietzsche – não o explica, antes associa-se a ele, tornando “ato” o pensamento do filósofo, liberando ideias presentes em sua obra, mas não atualizadas por ele.

 Esta é a grande originalidade desse livro, nascido do interior da filosofia, mergulhado no seu movimento próprio, o autor consegue expandir a compreensão da obra deleuziana. Em Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento, a filosofia está viva. Melhor dizendo, na escrita de Ulpiano, como outrora em suas aulas, não há diferença entre a filosofia e a vida.   

História de vida

Claudio Ulpiano nasceu em Macaé, em 1932. Começou sua carreira acadêmica no final dos anos 70, dando aulas na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e na UFF (Universidade Federal Fluminense). Era fácil descobrir em que sala da universidade ele se encontrava, e mesmo em que corredor ficava esta sala. Uma multidão de alunos, vindos de diferentes cursos e até de fora da instituição, lotava o local onde ele dava aula, espalhando-se pelo chão, pelo corredor, usando até mesmo o espaço das janelas para garantir um lugar.

Os anos 80 marcaram o início dos inúmeros grupos de estudo que se formaram em torno dele. O primeiro aconteceu no próprio apartamento de Claudio, na rua Araucária, onde alguns alunos da UERJ e seus amigos passaram a se encontrar todos os sábados para assistir aulas que podiam se estender por dez horas seguidas. Sempre de preto, cigarro nas mãos, a figura de Claudio, serena e firme, causava forte impressão.

 Pouco depois, foi um grupo de professores da UFF que começou a se reunir no apartamento de um deles. Deste segundo grupo originou-se a primeira turma formada por alunos que não vinham diretamente das universidades onde Claudio era professor.

Daí em diante, esses grupos independentes se disseminaram pelo Rio de Janeiro, reunindo pessoas de todas as idades e profissões. Os cursos aconteciam não só nas casas dos alunos, mas também em espaços alternativos, escolas particulares, centro culturais etc. De 1980 até 1998, quando a doença o impediu de continuar, suas aulas seguiram atraindo um público cada vez maior e mais variado: estudantes, cientistas, músicos, donas-de-casa, economistas, empresários, artistas de todas as áreas etc.

Ulpiano não fazia distinção entre a filosofia e a vida, ou entre pensar e viver. Para este filósofo, pensar era um ato que servia, acima de tudo, para aumentar a potência da vida – da vida de cada um, e da Vida em si mesma. É por essa razão que suas aulas marcaram de modo indelével o espírito de todos que as assistiram.

Para Claudio, que conhecia tão profundamente a história da filosofia, que dominava com tanta facilidade a diversidade dos saberes, o que importava era atingir, através do pensamento, a mais difícil das questões humanas: a finitude.

 Ele trazia esta questão até cada um, forçava a pensá-la, e procurava, com o rigor do seu saber e o encanto da sua criatividade, a saída mais bela: a da ética. A luta mais essencial: a da liberdade. Uma pergunta se levantava ao final das suas aulas, e continuava ecoando quando seus alunos – ou seguidores - voltavam para casa. Era como se o filósofo  perguntasse, silenciosamente: O que fazer com a nossa única vida? – ao mesmo tempo em que ensinava, com o exemplo dos gregos, e instigava, com a beleza de suas aulas, a fazer desta única vida uma obra de arte.

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Tags: JB, cientistas, deleuze, história, questão

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