Jornal do Brasil

Quinta-feira, 20 de Junho de 2013

Cultura

Crítica: "Pieta"

Jornal do BrasilBernardo Schlegel

Não resta dúvidas de que Kim Ki-Duk é um diretor versátil. Sua filmografia reúne filmes em que desempenhou as mais variadas funções, desde editor até diretor de arte. Isso não é muito comum na indústria cinematográfica, conhecida por possuir muitas divisões para as funções que compõem a lista de equipe. No entanto, nos últimos anos, com o surgimento da tecnologia de captura digital de alta qualidade, cada vez mais produções independentes conseguem produzir seus filmes com estrutura altamente simplificada. E, naturalmente, com acúmulo de funções.

Apesar de não possuir equipe pequena, Pieta apresenta em sua estética traços desse movimento contemporâneo de produção de cinema. Câmeras na mão, iluminação sem desenhos complexos e planos que cortam os protagonistas chegam a sugerir amadorismo técnico, inclusive. No entanto, a simplicidade das escolhas do diretor trava diálogo direto com a temática e o contexto em que o filme está inserido.

Cena de "Pieta"
Cena de "Pieta"

Ambientado num subúrbio pobre coreano, movimentado pela metalurgia, a história conta a trajetória de um homem que, sem conhecer o amor de mãe, cresce sem afeto e torna-se um adulto amargo e cruel. Para sobreviver, ele trabalha como corretor de agiota, responsável por extorquir e ameaçar os operários que pegaram empréstimo. Caso não paguem, ele é o responsável por aleijá-los e cobrar do seguro de trabalho o valor devido (que pode ser até dez vezes maior que o valor emprestado).

Um dia uma mulher surge em sua vida alegando ser sua mãe. Então, e com muita resistência, o ódio da mãe que o abandonou aos poucos dá lugar ao amor que nunca sentiu e, logo em seguida, ao medo de perdê-la novamente. A partir desse ponto, onde sua fragilidade atinge um nível que nunca atingiu, ele percebe pela primeira vez a dor que causou a terceiros durante toda a sua vida. E que essa dor pode voltar para ele em forma de vingança.

Além da estética que faz poesia da pobreza e desespero de seus personagens, o longa de Ki-Duk apresenta excelentes atores. O casal protagonista, principalmente, consegue imprimir delicadeza sem perder a agressividade e crueldade que a relação dos personagens necessita. É belo ver como conseguem construir as relações, transformá-las e, em seguida invertê-las, sem dar ao filme aquele ar cafona de quem engana o espectador apenas para ser surpreendente no final.

A crueldade é um elemento importante em Pieta, mas para falar de humanidade. Se o ser humano é cruel, é por que tem um motivo. São esses motivos que fazem com que o espectador pondere qual crueldade é "mais cruel". E é lindo ver como Kim Ki-Duk consegue inverter a todo o momento esse ponto de vista, sem banalizar a importância de uma bela dramaturgia.

Pieta foi a indicação da Coreia do Sul para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para o Oscar, mas não chegou a ser escolhido para indicação da Academia. Pena. É um filme belo, instigante e questionador.

Cotação: **** (Excelente)

Tags: Arte, cartaz, cinema, Coreia, entretenimento, pieta

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