Jornal do Brasil

Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Cultura

Crítica: "A fuga"

Jornal do BrasilAlice Turnbull

Existem filmes que transgridem o estereótipo e conseguem insuflar uma nova vida aos gêneros nos quais se encaixam. Não é o caso de A fuga. Tentando fazer diferente, o diretor vencedor do Oscar de melhor filme de língua estrangeira, em 2008, com The counterfeiters, Stefan Ruzowitzky se esforça em seu mais novo filme, porém este acaba sendo apenas um anagrama dos previsíveis filmes de suspense-superficial estadunidenses. Como tal, os ingredientes não poderiam ser outros. 

O diferencial está na abordagem menos maniqueísta, porém não menos irritante: todos são relativizados de maneira a terem uma desculpa para tudo. A bela mocinha sensual é, na verdade, frágil e traumatizada; um cassino é roubado, mas é o primeiro roubo de tal porte do trio; o vilão ora mata por não querer deixar testemunhas durante sua fuga, ora age com um quê de justiça e compaixão e, o que mais incomoda, tem predileção por sessões fajutas de terapia com os outros personagens.

Cena de "A fuga"
Cena de "A fuga"

Outra alteração não tão eficaz é na fotografia e na montagem. Há momentos bons, como a sequência do acidente de carro e o enquadramento angustiante quando Jay fala com os pais ao telefone. Mas são tão breves e concentrados no início, que a sensação é de abandono da abordagem para dar lugar a velha receita.

Expectativas quebradas à parte, o roteiro também deixa a desejar por ser bastante raso e confuso desde o começo, o que combina com as fracas atuações de bons atores. Engatar o filme no meio de uma narrativa é uma estratégia boa quando a não linearidade é explorada, porém assim como a fotografia e a montagem esta é logo substituída, voltando a ser previsível e batida. Mas o que mais se sente é que, embora a “ousadia” seja logo deixada de lado, a tentativa permanece, mas sem sucesso. Durante todo o tempo, os personagens tentam contar histórias do passado, mas não há construção imagética direta nem indireta, através de um texto e uma atuação profunda o bastante para dar veracidade e justificar o andar da carruagem.

Perdidos na história, porém ligados pela previsibilidade crescente, os espectadores acompanham a fuga entre um gole de refrigerante e uma pipoca. No aguardo de, ao menos, um fim que compense um meio. “Vai que o final surpreende, rompe”. 

Não contente com os finais felizes dos filmes de ação para as massas, o último suspiro é terminá-lo uma vírgula após o ápice. Todos sujos de violência. Quem tem que morrer, morre. Quem deve ser feliz, vive. Ora, mais parece que alguém, por erro, apagou a última cena do que outra coisa. O óbvio final feliz com casamento está ali, logo na curva. No fim, todos no primeiro carrinho da montanha russa à espera da queda que não chega: pendurados.

Cotação: * (Regular)

Tags: cinema, diversão, entretenimento, história, trama

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