Jornal do Brasil

Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

Cultura

Mirantão: turismo capaz de agradar de bichos grilo ao público sofisticado

A Cachoeira da Prata tem visitação gratuita e restaurante onde é possível se servir no fogão à lenha

Jornal do BrasilCelina Côrtes

Há 19 anos, quando o Jornal do Brasil foi fazer uma reportagem em Mirantão – distrito de Bocaina de Minas, a cerca de 1h30 de Visconde de Mauá, por sua vez distrito de Itatiaia a aproximadamente 3 horas do Rio de Janeiro – deparou-se com a seguinte cena. A delegacia, um sobradinho de dois andares, estava às moscas, a cela aberta e nenhum policial à vista. Na prateleira ao lado da cela, um vidro de mel e outro com arroz integral. 

Do lado de fora, um homem sentado na calçada se concentrava em esculpir com um canivete um toquinho de madeira. A repórter perguntou onde estavam os guardas e a resposta foi: “Não sei, acho que eles estão vindo no ônibus de Liberdade”, referindo-se a outro distrito das redondezas, sem se dar conta do duplo sentido de seu comentário. “E o senhor, quem é?”, perguntou a repórter. “Sou o preso”, respondeu o albergado Moyses de Malta, 39 anos na ocasião. 

“Mas o quê o senhor fez para ser preso?”, prosseguiu a jornalista. “Eu tinha uma pequena plantação de maconha em Maringá (região mais turística de Visconde de Mauá). Era para consumo próprio, nunca trafiquei. Agora nem fumo mais, substituí pela ioga”, continuou o preso, para surpresa da repórter.

Passados 19 anos, o sobrado onde funcionava a delegacia foi pintado de cor de rosa e está fechado. Abre eventualmente para alguma atividade pública. O posto policial passou a funcionar em Maringá, onde há mais movimento e, portanto, mais possibilidades de registros.

A população, que era de 450 pessoas, caiu para 440, na contramão da economia baseada no gado leiteiro, hoje decadente, e no turismo que continua incipiente e representa uma rara alternativa para quem quer fugir da muvuca dos feriadões, como o Carnaval e a Páscoa. Escola, só até o Primeiro Grau. O posto de saúde funciona das 8h às 17h, mas como a auxiliar de enfermagem habita a casa ao lado, pode ser acionada em caso de emergência, bem como o médico, que mora em Bocaina de Minas e leva cerca de 40 minutos para chegar em Mirantão.

Outro aspecto, porém, permanece igual, também na contramão dos proprietários das inúmeras cachoeiras que atraem cada vez mais turistas, seja em Mirantão ou em Visconde de Mauá, Maringá e Maromba – os principais polos turísticos dos arredores. Quem subir os quatro quilômetros que separam a praça de Mirantão da Fazenda da Pedra de Furnas, onde ficam três cachoeiras de perder o fôlego, batizadas de Cachoeira da Prata, não vai se arrepender.

Generosidade

Além de não cobrarem ingresso para os visitantes, o casal de proprietários da Fazenda de Furnas, mesmo nome do enorme morro de pedra que anuncia a chegada ao local, José Bonifácio de Oliveira, 86 anos, e Palmira Diniz de Oliveira, 59, oferecem carinho e as melhores iguarias a quem chegar. Além do bar-restaurante improvisado, por onde circulam cães e galinhas sem restrições, há a cerveja estupidamente gelada e comida caseira pilotada no fogão de lenha.

Claro que tudo isso é pago e provavelmente eles recebem mais do que os proprietários que cobram ingressos, a pretexto de manutenção. “Adoro receber o pessoal de fora, são melhor de lidar do que os que moram aqui. Nunca cobramos o ingresso, só de quem faz bagunça e sujeira”, brinca Palmira, que durante a semana trabalha como merendeira na Escola Municipal José Cândido Soares.  

José Bonifácio lembra que seu pai comprou a fazenda, de 38 alqueires mineiros, em 1909. Na época, ninguém sabia que o terreno escondia um verdadeiro tesouro, as cachoeiras, descobertas quando o mato foi limpado. Daí em diante, aos pouquinhos, a atração começou a ser conhecida, enquanto os proprietários foram melhorando o acesso e a infra-estrutura para receber um número de visitantes que não para de crescer. “Nos feriados, tem dia que dá mais de 100 pessoas”, contabiliza seu José Bonifácio.

Além dos petiscos para acompanhar a cerveja e a cachaça local, Dona Palmira teve a ideia de abrir o acesso de seu fogão de lenha ao público, oferecendo o melhor da comida caseira mineira. Ela inventou uma batata frita passada na farinha de trigo de suspirar, e a atividade turística já se sobrepõe à função inicial da fazenda, dedicada ao gado leiteiro. 

Boca a boca

Num lugarejo como Mirantão, as histórias e lendas prosperam no boca a boca,  de acordo com a fantasia de cada um. Há 20 anos, quando a reportagem tentou descobrir a origem do nome Mirantão – um lugar que não tem nenhum tipo de mirante, pelo contrário, é mirada de cima por quem chega -, ouviu uma história que mais parecia roteiro de filme. O povo  já andava pensando em mudar o nome do lugar, quando dois vaqueiros inimigos teriam se deparado na praça central da – até então – Capelinha das Flores. Um deles sacou a garrucha e o outro gritou: “Mira, antão!”, batendo a mão no próprio peito.

O assassinato não teria se consumado. O nome do lugar, no entanto, mudou para Mirantão. Seu Bonifácio conta uma outra versão. Segundo ele, caçadores saíram pela mata e encontram bichos. “Ôcê viu? Mira, antão!”, disse um deles. E como a população já estava enjoada do nome Capelinha das Flores – que hoje a maioria acha muito mais bonito do que Mirantão – o título pegou e ficou.

A reportagem do Jornal do Brasil, à época publicada na Revista de Domingo, está fixada num quadro de fotos e textos na parece da Pousada Canto da Terra, uma das poucas opções de hospedagem em Mirantão. É a antiga casa do psicanalista Narciso de Mello Teixeira, 69 anos, terapeuta da Clínica dos Afetos que chegou em Mirantão há 36 anos. Junto com os amigos e familiares, já plantou mais de 10 mil árvores no terreno. Hoje quem opera a pousada é seu filho, Cristiano, professor de Artes Marciais. 

Um dos diferenciais da casa também está na culinária. Há 33 anos, Regina Célia Nascimento da Silva, 56 anos, aprimora sua técnica incorporando os conhecimentos da comida vegetariana que aprendeu com Narciso e japonesa, ensinada por Beth Scheiffer, professora de Tai Chi Chuan. “Bom mesmo é receber as pessoas”, diz Regina, com carinho. De alguns pontos do terreno, assim como da serra que vai para Santo Antônio (a vila vizinha, também distrito de Bocaina de Minas), dá para avistar a imponente Pedra Selada, o ponto culminante da região, com 1.755m e formato de sela de cavalo. Ela também é visível da Via Dutra, onde é chamada de Galinha Choca.

Sofisticação

E assim como há 20 anos existia em Mirantão um bistrô de alta culinária francesa, hoje há outra opção de sofisticação: a pousada Quinta da Prata, comandada por Viviane Andreatta, 54, curitibana que pousou no Vale da Prata – o acesso é quase em frente à entrada da Fazenda Pedra de Furnas – há mais de 25 anos, com o então marido, o artista plástico Rubens Gerchman (1942-2008). Viviane se separou, Gerchman morreu e hoje ela não tira o pé do Vale da Prata, onde divide a vida e uma pousada com seu segundo marido, o americano Brian Fielding.

O requinte da hospedagem fica por conta da comida 100% orgânica, atestada pela Associação de Produtores de Visconde de Mauá (Aprovin), da qual Viviane é sócia. O maior charme, porém, é o atelier fincado em meio ao gramado (isso sem falar na imensa piscina de água natural), com quadros de Roberto Magalhães, fotos de Celso Guimarães e aquarelas de Nívea Evin, todos moradores dos arredores e, claro, do próprio Gerchman, entre outros, com curadoria de Viviane. “O pão é feito em casa e comida, só com azeite”, resume ela, que cobra salgados R$ 450 pela diária para cada um de seus dois chalés - com pensão completa e alta gastronomia -, enquanto o preço médio na região é de R$ 100.

Outra antiga dona de pousada-restaurante é Dona Maria de Sampaio, 63 anos, há mais de 30 anos à frente de uma atividade comercial na Vila de Mirantão. É dela a Pousada Cantinho da Paz, uma opção mais “urbana” de hospedagem, localizada em uma das quatro ruas existentes no pequeno centro. D. Maria já 'quebrou o galho' de muitos partos e hoje se limita a atender os hóspedes e fregueses do restaurante, onde não falta a truta da região. Ela conta em detalhes o dramático episódio que antecedeu o fim da delegacia local, há cerca de 18 anos.

Drama mexicano

Entre os três guardas lotados no lugarejo, um deles permaneceu em Mirantão no seu dia de folga. Dois cavaleiros – um adulto e um menor – estavam fazendo bagunça na cidade, quando o policial, então à paisana, foi chamado no bar onde estava para acabar com aquilo. O homem foi à delegacia, vestiu seu uniforme, já um tanto alcoolizado, e seguiu atrás do cavaleiro, convocado a depor no posto policial. Os dois se sentaram frente a frente, separados por uma mesa. O policial tirou o cinturão onde estava o revólver, depositou na mesa e uma bala caiu no chão. No que ele se abaixou para alcançar o projétil, o cavaleiro pegou seu revólver e o matou.

Um dramalhão como esse causou muito alvoroço na vila. O cavaleiro fugiu, acabou preso e, pouco depois, as autoridades de segurança optaram por transferir a delegacia para Maringá. Durante este último Carnaval - festa, por sinal, imperceptível no lugar -, alguns policiais foram destacados para atuar em Mirantão. Dessa vez, o motivo foi um grave acidente de carro, que causou a morte de uma menina de 12 anos. Porém, como a maioria das histórias que circulam por ali, as versões variam de acordo com a imaginação de quem conta. Uns diziam que era uma van que transportava 10 crianças, outros, que o motorista tinha enchido a cara num baile, dormiu ao volante e despencou na ribanceira.

O fato é que a falta de assunto normalmente predominante nesse lugar onde o tempo ainda demora a passar e o Judas perdeu as botas, foi substituída por uma profusão de criativas versões. Daqui a pouco, ninguém se lembra mais do incidente e a vida retoma a calma habitual. Quem sabe, até o próximo feriadão.  

Serviço

Pousada Canto da Terra: (21) 9108-0875

Pousada Quinta da Prata: (32) 3294-2118/ 2083

Pousada Cantinho da Paz: (32) 3294-2024

Tags: JB, botas, calma, feriadão, pilota

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