Jornal do Brasil

Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Cultura

'Flores raras', uma história de amor e perdas

Bruno Barreto fala sobre seu novo filme, destaque brasileiro em Berlim 

Jornal do BrasilMyrna Silveira Brandão

Flores Raras, de Bruno Barreto, foi mostrado em sessão de gala na 63ª edição do Festival de Berlim, no  Friedrichstadt Palast, um majestoso cinema de 1600 lugares. No sábado  houve a primeira exibição para o público  num cinema comercial na Alexanderplatz. O filme foi bastante aplaudido. 

Selecionado para a Panorama, a paralela mais importante do evento, o novo filme de Barreto  retrata o romance entre a brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires) e a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto).  

O filme conta a história de Bishop, uma pessoa, frágil, alcóolatra, com uma trajetória conturbada (perdeu o pai criança, a mãe foi internada num manicômio), que vai ficando cada vez mais forte ao conseguir lidar com as perdas. E de outro lado, Lota, centrada, extrovertida, empreendedora, uma mulher forte que vai ficando fraca, acaba perdendo a saúde (tem uma arteriosclerose precoce), a sanidade e a vida, se suicidando em 1967.  É uma história de amor única. 

Bruno Barreto volta a Berlim com o seu 'Flores raras'
Bruno Barreto volta a Berlim com o seu 'Flores raras'

Pires passou por  uma grande transformação para viver Lota,  usando óculos de grau com aros grossos e cabelos presos e repartidos.  Ela tem um excelente desempenho como a mulher forte que a Lota era, atuando mais de 90% do filme falando em inglês. 

Os poucos diálogos em português acontecem com o político Carlos Lacerda (Marcello Airoldi), governador do então estado da Guanabara no início da década de 60, que lhe ofereceu a  oportunidade de realizar o projeto do Parque do Flamengo. 

Fica claro que Bruno Barreto preferiu concentrar seu filme na história de amor das duas mulheres,  que viveram abertamente seu romance homossexual em plena Ditadura Militar.  

Em entrevista ao Jornal do Brasil,  Barreto explicou que, acima de tudo, quis contar uma história de amor entre Bishop e Lota para falar da perda. 

“Se você quer ganhar, você tem que saber perder. A Bishop sabia, mas a Lota não. Como uma pessoa fraca, perdida e disfuncional, Bishop vai ficando forte por causa das perdas que sofre na vida e a Lota,  pessoa forte, que sabe o que quer, vencedora, rica, vai ficando fraca por não conseguir lidar com as perdas”, disse o diretor, acrescentando que, por isso, destaca no filme a fase em que ambas estão bem. 

“Quando elas se apaixonam e passam a viver juntas, Elizabeth e Lota têm os melhores momentos de suas vidas.  Bishop ganha o Prêmio Pulitzer de poesia, em 1956, e Lota idealiza e supervisiona a construção do Parque do Flamengo”, conta Barreto, definindo o cerne do filme. “Todo mundo lida com perdas. Essa é a questão central do filme, não estamos fazendo uma cinebiografia, é uma história de amor única.”, ressalvou.  

De volta à Berlim,  onde em 1987 O que é isso companheiro? concorreu ao Urso de Ouro, Barreto prevê bons resultados com a première mundial do filme aqui na Berlinale. 

“Estar na seleção oficial de Berlim – o segundo festival de cinema mais importante, logo depois de Cannes – é uma honra.  Além disso, ter a première num evento conhecido pelo seu prestígio e destaque comercial junto aos distribuidores internacionais é muito bom.  Importante também é o fato de outros filmes meus já terem participado de sua programação,  o que criou uma audiência que está interessada em ver o que eu estou fazendo”, ressaltou o diretor, cujos planos para o filme serão definidos pós Berlim. 

“Como a première internacional é em Berlim, todos os planos serão feitos a partir deste festival. Já existem convites para quatro outros, mas a resposta só será dada depois do resultado que tivermos aqui”, complementou.   

Tags: filme, JB, Mundial, seleção, unica

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