Jornal do Brasil

Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Cultura

Crítica: "Lincoln"

Jornal do BrasilAlice Turnbull

Misteriosa e histórica, a figura de Abraham Lincoln não surge por acaso nos cinemas. Utilizando-se de todo um diálogo de apropriação e humanização da figura presidencial, Steven Spielberg lança Lincoln logo após Barack Obama ser reeleito. Não que isso signifique que o diretor venha para levantar alguma bandeira além da estadunidense. Há mais questionamentos do que posicionamentos. Spielberg apenas se aproveitou de uma ponte que já existia.

Antes das eleições presidenciais de 2008, Obama era comparado a Lincoln. Certamente, após esse anos, as diferenças se tornaram mais visíveis, mas ainda há ligações inevitáveis entre os dois personagens políticos. Quando o assunto é maioria na Câmara do Representantes, Obama se encontra em uma posição parecida com a do presidente no filme. Além disso, por ser o primeiro presidente negro dos EUA, muita esperança é depositada em seu governo. Nasce daí a comparação e o desejo de que este seja o homem revolucionário que foi Lincoln em sua época.  

Nova obra de Spielberg, "Lincoln" tem 12 indicações ao Oscar deste ano
Nova obra de Spielberg, "Lincoln" tem 12 indicações ao Oscar deste ano

Mitologias à parte, a política é retratada intensamente com diálogos e interpretações fervorosas, o que pode não ser de fácil digestão, principalmente se o espectador não estiver a par das piadas internas de política estadunidense. Não é um filme de emoções visuais ou sensoriais. A música de John Williams ajuda a compreender, mas não basta para segurar tanta informação. A pouca ação e os ambientes fechados tornam o filme cinzento e com ar de cansaço. O mesmo cansaço presente no olhar do presidente em seu último ano de vida. 

Seus esforços, honestos e desonestos, para que a 13ª emenda fosse aprovada e para que a Guerra de Secessão tivesse fim sustentam a grande tensão política e psicológica vivida. Para arrefecer a sisudez do presidente, Spielberg enfatiza as relações de Lincoln com os filhos (Joseph Gordon-Lewitt e Gulliver McGrath) e a mulher (Sally Field), assim como suas dores, seu modo de pensar e suas inúmeras histórias contadas. A figura de um homem compreensivo e sensato é transmitida de maneira bem clara pela excelente interpretação de Daniel Day Lewis. Lincoln está presente. Pontos fortes de drama e diálogos comoventes fazem com que, apesar de seus erros, adotem-no como um grande homem, um bom pai de família e um dos maiores presidentes estadunidenses. O pai da nação.

Convincente para o público e para os críticos, Lincoln é o filme com mais indicações ao Oscar. Doze no total. É como Spielberg afirmou: "Toda geração precisa de um filme sério sobre Lincoln". Voilà.

Cotação: **** (Excelente)

Tags: cinema, diretor, Estados Unidos, história, Obama, política, spielberg

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