Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Cultura

Crítica de teatro: "Édipo Rei"

Jornal do BrasilAna Lúcia Vieira de Andrade

Édipo Rei é, provavelmente, depois de Hamlet e Romeu e Julieta, a peça teatral mais lembrada do mundo.  No entanto, assim como Oréstia, não nasceu para ser apenas uma “peça de teatro”, foi criada para fazer parte de um espetáculo muito maior, que seria uma celebração da pólis, ou seja, um grande festejo musical e dançante, onde antigos e novos valores culturais entrariam em choque para criar uma determinada imagem da trajetória humana.  Essa imagem era, quase sempre, proposta como uma espécie de enigma, um problema para o qual as respostas unívocas soavam sempre pequenas e redutoras.  Édipo Rei aparecia, assim, como o grande paradigma de uma contradição, de um paradoxo (que é o próprio homem) impossível de ser decifrado de maneira plena e exclusiva. 

Gustavo Gasparani e Eliane Giardini 
Gustavo Gasparani e Eliane Giardini 

Não foi a versão de Sófocles a única de seu tempo a tratar do mito de Édipo, mas foi a que maior fama alcançou, justamente por conseguir emprestar ao conteúdo de paradoxos da trajetória do herói uma forma estrutural que o acompanhasse e repetisse; ou seja, que fosse capaz de produzir um jogo especular de enigmas e inversões digno dos significados conflitantes que o percurso do jovem rei propunha. Compreende-se, assim, o fascínio que vem despertando através dos tempos o belo texto sofocleano. Mas, como já afirmamos, todo esse edifício foi construído para servir a uma visão de mundo nascida dentro de circunstâncias específicas. E quando se pretende hoje resgatar tal visão, sem que se possa contrastá-la com o contexto que lhe deu origem, o resultado é, invariavelmente, empobrecedor.

No caso da montagem em cartaz no teatro de arena do Espaço SESC - Copacabana, mais uma vez montou-se um espetáculo onde a perspectiva histórica foi reduzida em prol de uma abordagem do texto que o isola como ação. O enfoque que Eduardo Wotzic dá, como diretor, ao núcleo do material literário faz com que o tom predominante do espetáculo caminhe em direção ao drama.

Ainda que aos personagens Corifeu e Tirésias seja permitido um trabalho em que maquiagem e postura corporal estão a serviço da criação de figuras mais mitificadas, Édipo, Jocasta e Creonte são mostrados na essência de sua humanidade. Isso, apesar de facilitar a apreensão das plateias contemporâneas, acaba por reduzir as possibilidades do espetáculo, pois as tragédias sofocleanas estavam inscritas numa dimensão social (religiosa e política), estética e, por último, psicológica. O problema que se coloca hoje é compreender a maneira pela qual essas dimensões se articulavam. E a opção por dar à tragédia um tom de drama acaba por obscurecer alguns temas.

O trabalho do elenco corresponde ao que é exigido pelo enfoque do diretor. Gustavo Gasparani tem um bom desempenho como Édipo, com destaque para os momentos finais do personagem, realizados com a dosagem correta de dor e emoção, mas sua voz, no todo do espetáculo, precisaria ser um pouco mais potente para preencher de maneira especialmente marcante aquele espaço de arena. Eliane Giardini explora certa sensualidade em Jocasta.  César Augusto tem ótima presença como Creonte. O Tirésias de Amir Haddad se sobressai pela expressividade física; contudo, a performance vocal precisaria atingir níveis melhores.  Rogério Froes tem participação tocante como o Pastor. Fabiana de Mello e Souza fica um pouco deslocada do todo, já que a proposta da direção contrasta, em parte, com o encaminhamento dado ao Corifeu. Cenários e figurinos, de Bia Junqueira e Marcelo Olinto, buscam aproximar-se do registro histórico e são bem realizados. Funciona bem a ideia de criar um círculo de terra que se ilumina.

Não é necessariamente através de um papel como Édipo que um grande ator de comédias e de musicais pode mostrar seu potencial dramático. O interesse das tragédias não estava voltado para as transformações psicológicas. Em Sófocles, do ponto de vista do intérprete, talvez a melhor personagem masculina seja mesmo o Creonte de Antígona, que vivencia os próprios erros em cena, não a partir de uma reconstrução do passado. Aristóteles, por exemplo, se recusava a compreender a tragédia  a partir do horizonte exclusivo do homem.  Dizia ele em sua Poética: “A tragédia não é a imitação de homens, mas de uma ação e de uma vida...”.

Só a partir do Renascimento, do período elizabetano, que as personagens masculinas serão colocadas em situações mais variadas, abrindo-se, assim, algum espaço para a subjetividade, pois a ação já passa a existir dentro de um universo puramente humano.  É óbvio que, quando essa subjetividade passa a ser o foco principal, a tragédia se torna irrealizável.

Édipo Rei é um espetáculo que cumpre o objetivo de aproximar novas plateias dos clássicos, mas sua abordagem poderia ser mais provocadora.

Tags: espetáculo, grécia, peça, show, teatro

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