Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Cultura

Crítica: "Poder paranormal"

Jornal do BrasilJefferson Almeida

Ao se deparar com o fantasma de seu pai, assassinado pelo próprio irmão, Hamlet, trágico personagem criado por Shakespeare, cunha um dos mais célebres aforismos perpetrados pelo teatro ocidental: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.”

A sentença lançada pelo príncipe dinamarquês tem, em sua gênese, um caráter de transcendência que faz com que seu significado reverbere, potente, em qualquer um que tenha contato com ela, apesar, de lançar mão de um expediente ligado a determinados segmentos religiosos e de crença. Por isso mesmo a imagem se afirma poderosa e dá conta de, por exemplo, estabelecer um mundo possível a partir da metafísica.

Cena de "Poder paranormal", dirigido pelo espanhol Rodrigo Cortés e com elenco de peso 
Cena de "Poder paranormal", dirigido pelo espanhol Rodrigo Cortés e com elenco de peso 

É essa metafísica que é posta em questão em Poder Paranormal, novo filme de Rodrigo Cortés – diretor espanhol que conquistou respaldo mundial com o premiado Enterrado Vivo (2010). É, aliás, da etimologia do termo que nasce a questão. Vamos ao filme!

Margaret Matherson (Sigourney Weaver) e Tom Buckley (Cillian Murphy) são dois investigadores de eventos paranormais – ela, veterana estudiosa do assunto, e, ele, seu jovem assistente. Os cientistas dissecam os mais variados fenômenos metafísicos com o objetivo de provar suas origens fraudulentas. Do outro lado do enredo está Simon Silver (Robert de Niro), um lendário vidente cego que reaparece depois de uma ausência de 30 anos, tornando-se o maior desafio internacional tanto para a ciência ortodoxa quanto para os céticos profissionais. Tom começa a ficar intensamente obcecado por Silver. Ao aproximar-se dele, sua visão de mundo é posta em cheque de forma definitiva.

Com roteiro inventivo (de longa gestação), Cortés engendra uma espécie de thriller psicológico que revela a paranormalidade por caminhos que, em princípio, serviriam para torná-la insustentável, colocando o natural e o que está além dele em pé de igualdade, numa discussão justa, apesar de passional, como se verá no final das quase duas frenéticas horas.

Cortés, definitivamente, domina mecanismos fundamentais da linguagem cinematográfica. Em Enterrado Vivo, ele abusa da imaginação, para, por exemplo, conseguir efeitos de iluminação possíveis para a difícil realidade da cena. Em Poder Paranormal, a iluminação é também usada como parte fundamental da escrita cênica, criando, mesmo, níveis de compreensão e adensando efetivamente alguns momentos do filme. Se em Enterrado Vivo o cineasta já havia demonstrado determinante habilidade de corte e edição, aqui, esses mecanismos são usados como armas poderosas: cortes exatos, além, de um certeiro poder de síntese que salta aos olhos em determinados momentos.

A síntese, associada a uma fábula buliçosa e a certa dose de mistério, imprime ao filme um ritmo que é quase o da apresentação de um número de mágica: mais um acerto do roteirista/diretor/editor. As cenas vão se desenrolando de forma a tecerem uma trama fechada e a desviar os olhos do espectador do que “realmente interessa”. Aquela cena que passou desapercebida, aquela fala que soou impossível… Tudo isso volta à tona, na cartada final do roteiro – uma espécie de golpe dramatúrgico que se segura um passo antes de virar uma das clássicas saídas melodramáticas.

Falar das qualidades de atores como Robert de Niro e Sigourney Weaver, é, por assim dizer, “chover no molhado”; é preciso, contudo, fazer nota da sensível construção feita por Cillian Murphy (A Origem e Gerra dos Mundos) e da vigorosa participação de Toby Jones (Jogos Vorazes e Em Busca da Terra do Nunca), como coadjuvante.

Poder Paranormal é, certamente, um dos grandes filmes da temporada. Cinema feito com apreço e qualidade, pelas talentosas e hábeis mãos e lentes de Rodrigo Cortés.

Cotação: *** (Ótimo)

Tags: cartaz, cinema, estreia, exibição, filmes, robert de niro, salas

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