Crítica: 'Vou rifar meu coração'
O filme de Ana Rieper é, antes de mais nada, um filme sobre a música popular. E o que é isso, música popular? Ao contrário da grande maioria dos documentários brasileiros recentes, a diretora não irá buscar nos depoimentos conclusivos de especialistas e nas provas factuais das imagens de arquivos traçar uma história da música no Brasil.
Ao contrário, a busca por uma possível essência da música conhecida como "brega" passa por personagens anônimos, que tem sua vida direta ou indiretamente ligada aos temas cantados por Wando, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, entre outros. É somente a partir dessa ligação entre personagens ouvintes e suas histórias de vida com as músicas e experiências dos artistas, seus ídolos, que podemos ver surgir, em Vou Rifar Meu Coração, o conhecimento do que representa a música popular para o brasileiro.
A equipe de filmagem viaja pelo Nordeste, principalmente pelos estados do Sergipe e de Pernambuco, e a sensação é de que, por onde passa, encontra sem dificuldade o que busca, desde o senhor que anda pelas ruas com sua bicicleta "sonorizada", tocando uma das trilhas do filme, passando pelo frentista de posto que foi abandonado por sua mulher, até Osmar, que possui três esposas e filhos nas diferentes famílias.
Todos eles têm alguma relação com a música "brega" (entre aspas por não ser um termo aprovado por todos), seja citando sua canção favorita, como a trilha sonora da história que conta, seja pela sua própria maneira de contar, de se expressar, estar diretamente ligada à maneira de cantar de seus artistas favoritos.
A escolha de falar a partir do ponto de vista desses personagens anônimos faz com que o filme não se coloque no prepotente patamar de um discurso "diplomado", um discurso de quem sabe e por isso tem o direito de dizer. Sérgio Cabral e Nelson Motta, por exemplo, são personagens recorrentes do documentário musical brasileiro, por seu conhecimento e embasamento para falar sobre o assunto. A grandeza do filme está justamente nessa aproximação com quem realmente sente e vive a música diariamente. Para a diretora, essas parecem ser as verdadeiras autoridades para falar.

Alguns podem dizer que a trilha sonora não somente embale as histórias desses personagens, mas também dite a maneira deles agirem e pensarem. Mas a verdade é que todos eles possuem uma intensidade real, verdadeira, seja ela inventada ou não. Intensidade essa que é compartilhada pelos artistas, que surgem no filme mostrando como a popularidade deles está diretamente ligada tanto à verdade do que dizem em suas músicas (situações realmente vivenciadas por eles) quanto à identificação com seus ouvintes, que, ao se verem na situação retratada pela música, se tocam, se emocionam. Viver a música, cantar a vida. É o que faz nascer essa intensidade.
A relação entre a vida e a imagem inventada da mesma é mostrada com maestria no filme, através de uma montagem que cria uma ligação direta entre as estórias contadas e sua trilha sonora, como se as mesmas fossem inseparáveis. Observamos a mulher chorando ao ver fotos antigas de seu amante, enquanto a música sobe e embala seu choro descontrolado. A música está presente ali, entranhada na imagem, como estão presentes as canções, filmes e livros que marcaram nossas vidas, mesmo sem perceber, em todas as situações que vivemos. É essa identificação que, segundo o filme, dá origem ao que chamamos de popular.
Vou Rifar Meu Coração revela a verdadeira música popular brasileira, para além da bolha criada nos grandes centros urbanos. É a música que circula nos bailes, nas ruas, nas casas de cada uma das milhares de pequenas cidades de um país predominantemente interiorano como é o Brasil. E o filme mostra isso através da relação direta entre as pessoas e as músicas que amam, as músicas que vivem. Acerta em cheio.
Cotação: *** (Ótimo)
