Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Cultura

Crítica: 'A primeira coisa bela' 

Jornal do BrasilAlice Turnbull

Depois de dois anos, o longa A primeira coisa bela, de Paolo Virzì, chega aos cinemas brasileiros. Indicado ao Oscar de 2010, o filme de teor machista e tragicômico narra a história de uma dramática e fragmentada família que, após muitos anos, se vê reunida pelo estado grave de saúde da mãe.

Sem muita força, porém não sem estética, o filme começa bem ao fazer da breguice do concurso de Mamãe Mais Bela metonímia da época e na produção da beleza natural e sem jeito de Micaella Ramazzotti.  Apesar de bem produzida e de encantar visualmente, Ramazzotti, esposa do diretor, não convence no papel da mãe quando jovem. Ao longo de sua atuação ainda sofre com a maquiagem que, na tentativa de envelhecer a atriz, peca. O resultado é apenas estranho. Já mais velha, em 2009, Anna surpreende. Interpretada pela atriz Stefania Sandrelli, a mãe finalmente nos envolve e faz juz ao espírito da personagem.

Repleto de julgamentos e sem nenhuma desconstrução de estereótipos, Virzì apresenta seus personagens de maneira preconceituosa e moralista. O exemplo máximo é a mãe, Anna, que durante todo o filme é tida como uma libertina por quase tudo e todos:  sua beleza, seu comportamento dito “ousado”, suas roupas, seu espírito livre, tudo é usado como justificativa para o tratamento que recebe. Por fim, seus acusadores terminam justificados. Uma sentia inveja, um a cobiçava, outro tinha ciúme. Na trama, ninguém julga sem “motivo”. Já Anna, por seu amor materno e sua vontade de viver, é “perdoada”. Ato que a condena como sendo culpada do machismo alheio. Uma linha de raciocínio que permite  pensamentos similares ao, em um estupro, considerar a mulher como motivo.

Outros personagens também sofrem por não serem politicamente corretos. Bruno, o filho, interpretado por Valerio Mastandrea, busca fugir da realidade com drogas lícitas e ilícitas. O porquê é preconceituosamente explicado pela mãe: “desejo de ser infeliz”. Um pensamento um tanto quanto torto.

Por essas e outras,  A primeira coisa bela é um filme “quadrado”. Mas nem tudo é tão radical. Também é possível analisá-lo com um olhar conformista do tipo “mas é assim que a maioria enxerga”. A partir daí a beleza de uma crônica pode até ser avistada. Mas o título seria “A Novela da Moral”.

Cotação: * (Regular)

Tags: cinema, filme, itália, mãe, moralismo

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