Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Cultura

Wilson Figueiredo lança livro sobre sua trajetória. Veja a entrevista

'E a vida continua' é lançado nesta quinta-feira, às 18h, na Argumento do Leblon

Jornal do BrasilLuisa Bustamante

A história de um dos mais experientes profissionais em exercício no jornalismo brasileiro acaba de chegar às livrarias. A edição com capa dura de E a vida continua - a trajetória profissional de Wilson Figueiredo conta a trajetória do capixaba de nascimento, mineiro no coração e carioca na carteira de trabalho, que veio para este Jornal do Brasil em 1957, redação que se tornou sua casa por mais de 40 anos. Para contar os detalhes desta aventura, ninguém melhor do que seu protagonista, que lança a obra, organizada por Moacyr Andrade, nesta quinta-feira (1), a partir das 18h, na livraria Argumento do Leblon.

Figueiredo andou lado a lado com grandes nomes da literatura. Entre eles, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino. Mas o jornalista faz questão de dizer que só concordou com o projeto do livro contanto que não fosse tratado como uma exceção. “Pelo contrário, minha vida não tem nada de excepcional, não tem ato de valentia”, comentou em entrevista ao JB. No decorrer das décadas, passaram pela máquina de escrever – e depois teclado – de Wilson matérias sobre o Estado Novo, a Ditadura Militar, renúncias, reeleições e impeachments de presidentes do país. Em entrevista, o jornalista dá uma prova da trajetória, resumida pela editora Ouro sobre Azul em 213 páginas.

JB: Como surgiu a ideia de contar sua trajetória profissional em um livro?

Wilson Figueiredo: A ideia foi exclusiva do presidente da FSB. A editora tinha feito 36 anos e eu sou o mais velho - não antigo, velho de idade mesmo - funcionário dessa empresa. Ele achou que era melhor, antes que eu desaparecesse, aproveitar minha lição de vida. Mas é apenas uma lição profissional, só fui jornalista e mais nada. Não gosto de ser tratado como uma exceção, uma pessoa diferente - muito pelo contrário, eu só quero ser igual a todo mundo - minha vida não tem nada de excepcional, não tem ato de valentia.

JB: Sua carreira passou por dois períodos esmagadores para a imprensa brasileira na história do Brasil – o Estado Novo e a Ditadura Militar. Como foi?

WF: Nesses dois períodos, esteve presente o mesmo espírito de limitar o jornalismo. A liberdade de imprensa é intolerável em qualquer um desses regimes. Não é o que o jornal diz, mas a liberdade de dizer que incomoda. Justamente porque são regimes fortes, não suportam ser contestados de forma nenhuma - isso é natural porque eles se sentem um pouco donos da verdade. Basta lembrar de um exemplo do presidente Geisel, que na época não aguentou o debate sobre a reforma judiciária, se irritou e fez, por conta própria, uma reforma cujo sentido não apareceu até hoje. A liberdade de imprensa é muito mais importante do que parece, porque basta você dizer que ela não existe para surgirem outras maneiras de se noticiar e você começa a brigar com o poder.

JB:Qual foi o momento mais marcante neste período?

WF: Momento mais dramático foi o AI-5. Naquele dia, não só a edição do JB escapou do controle e fugiu de todo planejamento, mas foi uma edição emocional. Isso porque em 64 o país viveu um golpe pela metade. A censura na imprensa podia ser parcialmente negociada, o Senado funcionava, a Câmara funcionava, havia discurso de oposição. Quando a crise apertou naquele ano de 68, estudantes foram para as ruas, protagonizaram batalhas campais, o governo viu que não adiantava a fazer meia ditadura. Então 68 foi um momento culminante, e o Jornal do Brasil foi muito criticado por ter adotado uma posição desafiadora do regime. Mas naquela altura não havia tempo de equacionar uma solução política. Não. Foi no impulso, no fim do dia.

JB: É verdade que o senhor adiantou a renúncia de Jânio Quadros, em 1961?

WF: Eu adoro essa história. Durante uma visita do Jânio ao Maranhão, seus auxiliares ligados à imprensa, Carlos Castello Branco e José Aparecido, vieram ao Rio para uma costumeira conversa com os jornalistas. Naquela conversa, Aparecido deu ciência de várias questões das quais pouco se sabia. Por exemplo, os bastidores do estremecimento entre Jango e Jânio, a propósito da derrubada do veto presidencial à admissão dos 10 mil empregados da Novacap como funcionários públicos. O Congresso aprovou a iniciativa de JK e derrubou o veto de Jânio. O pessoal do Rio quis saber como o presidente desfez o constrangimento em relação ao vice. Veio a explicaçãoos dois tiveram uma reunião para esclarecer tudo. Depois de um, dois, três Whiskies, ficamos sabendo o que ele disse:

Dr. João Goulart, o senhor está contra mim, por quê? Nós não podemos brigar, nós somos presidente e vice, nós temos que estar juntos no governo. Veja bem, essa historia aí, acha que vão dar um golpe de Estado? Me tirar para colocar o senhor? Não acredite nisso. O senhor não iria ao poder se houvesse um golpe que me tirasse, até ao contrário, se a minha cabeça balançar em um poste, a cabeça do senhor irá balançar no poste ao lado”.

Depois encontrei com o Valter Fontoura, que fazia comigo uma sessão semanal no Mundo Ilustrado, uma revista editada pelo Diário de Notícias. Contei a historia, publicada no dia 13 de agosto, e duas semanas depois, Jânio renunciou. Aí começou uma corrida para saber quem é que cantou a pedra, afinal. Eu costumo dizer que o maior feito jornalístico meu foi cantar a renúncia do Jânio.

JB: O senhor já escreveu sobre presidentes que renunciaram, sofreram impeachment, foram reeleitos... qual deles mais marcou o senhor?

WF: Dois me chamaram atenção pelo gosto e prazer pelo poder e pela ideia de que o poder é pra fazer coisas benéficas, coisas boas para o povo. O primeiro deles foi Getúlio Vargas. Não por ele, mas pelas ideias: um movimento em 1930 que derrubou a República Velha, deu um golpe no estado, ficou em governo dito provisório por 4 anos, e então fez o levante de São Paulo, houve uma constituinte em 1934, um governo legal até 1937, o golpe de Estado, etc. E depois disso, o homem foi de uma coerência fundamental com a ideia da valorização e dignificação do trabalho, com horário, salário, assistência social. Ele redesenhou o Brasil. Mas o país não estava maduro para isso. Outro presidente foi o Juscelino Kubitschek, que veio com a ideia de que o brasileiro era diferente, alegre, acreditava no trabalho, era engenhoso, criativo. É marcante o episódio de que em um comício, ele afirmou que pretendia fazer a mudança da capital do país. E ficou prisioneiro disso. Era o único aspecto da campanha dele que tinha abrangência nacional. Ele governava sem medo, era um tipo confiante, alegre, e o brasileiro queria alguém em que pudesse confiar. Neste momento o Brasil começou a mudar.

JB: E o Lula?

WF: O Lula repetiu o que o Juscelino fez, de certa forma. Quando ele faz pouco caso de qualquer crise, você repara que ele tem um pouco do JK. Ele apela para aquilo que todo mundo quer: justiça social, trabalho, saúde, segurança. O único problema é que o Lula pegou o Brasil em uma fase em que a política estava  - e continua - esgarçada, não tem um partido que se imponha, nem o PT. Então ele acabou sozinho, como um símbolo. Da mesma forma que o Juscelino e o Getúlio. Esses três presidentes foram os presidentes que fizeram uma arrancada de 50 anos.

JB: Como você vê a política de hoje, comparada com a de 50 anos atrás?

WF: Há uma sensação de que a política vai piorando. Não é isso. Os problemas é que vão ficando mais difíceis de resolver. A falta de uma tradição política, estratificada em partidos, perturba o Brasil ate hoje de uma maneira brutal. Não tem partido. Não pode haver político bom sem isso. Temos 30 partidos no Brasil, e não é possível citar o programa de nenhum deles.

JB: Como você enxerga a onda recente de corrupção?

WF: Ela é abominada por maior parte da população. Mas como nunca se faz nada contra isso, a maior parte das pessoas acredita que ela não tem solução. Quem vai pra cadeia, ninguém? Pega o caso do Mensalão, por exemplo. Estamos a cinco ou seis anos apurando e não deu em nada. Então as pessoas pensam: por que eu vou entrar na política se todo mundo que esta ali está se beneficiando? Eu vou consertar? Não. Eu vou entrar nessa onda. Virou um círculo vicioso. Esse é o problema da corrupção.

JB: E o jornalismo? Como você compara o exercício atual com o do passado?

WF: O jornalismo de hoje se aperfeiçoou no sentido de que exprime menos o ponto de vista do repórter. O jornalismo hoje é instrumento objetivo de informação. Pode até ser errado, pode ser falso, falsificado, mas opera dentro de critérios objetivos. Antes, porque não havia mercado e publicidade como existe hoje, o jornalismo dependia muito mais de favores pessoais como o papel, que antigamente era importado e custava caro. Você ficava na mão do governo.

JB: Como você vê a queda do diploma?

WF: O jornalismo de hoje só foi possível porque usou como mão de obra jornalistas que fizeram curso e chegaram com o diploma. Essa mania de combater o diploma não quer dizer nada. Talvez alguns precisem disso em um país de precário nível social. Mas o jornal precisa do repórter que sai, que vai para a rua e sabe do que está fazendo, sabe que é uma profissão. Os cursos de jornalismo fizeram um bem enorme para a profissão.

Tags: argumento, e a vida continua, fsb, lançamento, leblon, livro, Rio de Janeiro, wilson figueiredo

Compartilhe:

Tweet

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.