Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Cultura

Nova edição de livro de Eduardo Mendoza chega às livrarias brasileiras

Jornal do BrasilJosé Antônio Cavalcanti

O mistério da cripta assombrada, de Eduardo Mendoza, é um romance extremamente divertido e saboroso que se lê de um fôlego só. Sucesso de público e de crítica, a obra, lançada em 1978, faz parte dos programas escolares espanhóis. Trata-se, na verdade, da primeira narrativa de uma trilogia da qual fazem parte dois livros ainda não lançados entre nós: Laberinto de las aceitunas e La aventura del tocador de señoras. Os outros livros do autor catalão já traduzidos entre nós são A cidade dos prodígios e A assombrosa viagem de Pompônio Flato.

O anônimo protagonista da narrativa é retirado de uma partida de futebol no manicômio onde fora internado e conduzido a uma reunião com um seleto grupo, formado pelo doutor Sugrañes, responsável por seu tratamento, pelo delegado Flores, que efetuara a sua prisão, e por uma freira do colégio das madres lazaristas de São Gervásio.

A reunião serve como apresentação do problema a ser solucionado no decorrer da história: uma aluna desaparecera certa noite para reaparecer dois dias após sem que soubesse explicar aonde fora levada e como ocorrera o misterioso sumiço, repetindo um fenômeno ocorrido há seis anos. O delegado, ao final da exposição do caso, revela com crueza as razões da escolha de um suposto alienado para solucionar o caso: “Precisamos (...) de uma pessoa conhecedora dos ambientes menos gratos da nossa sociedade, cujo nome possa se sujar sem prejuízo de ninguém, capaz de realizar por nós o trabalho e da qual, chegada a hora, possamos nos desembaraçar sem estorvos”. Em troca da colaboração, promete a liberdade ao encarcerado. Promessa não cumprida ao final.

O catalão Eduardo Mendoza escreveu o livro em uma semana 
O catalão Eduardo Mendoza escreveu o livro em uma semana 

As razões que elevaram um louco anônimo às funções de investigador policial não escondem, no entanto, a falência do próprio delegado, impotente para solucionar os dois casos de desaparecimento. O detetive improvisado é uma paródia aos estereótipos detetivescos – dedutivos, cerebrais, psicológicos, violentos, inescrupulosos etc. Não se situa apenas fora do universo investigativo, muito mais do que isso: é um indivíduo invisível, recolhido à zona sombria dos párias sociais. Contra todas as expectativas possui, no entanto, consciência de sua singular sagacidade ao apresentar-se como “um louco, um malvado, um delinquente e uma pessoa de instrução e cultura deficientes, pois não tive outra escola senão a rua nem outro mestre senão as más companhias de que soube rodear-me, mas nunca tive, nem tenho nada de bobo:...”  

A ação se desenvolve em 1975 numa Barcelona renovada pelos ventos da mudança política representada pelo fim do franquismo, mas exibida em ângulos cinzas e negros. As andanças do louco investigador expõem os meandros do submundo barcelonense, levando-o a deparar-se com cadáveres, falsificar identidades, a provocar muita confusão até conseguir finalmente dar conta do caso diante da falência do sistema policial.

Um dos trunfos do livro se deve ao fato de o protagonista, que se confessa analfabeto e ex-delinquente, expressar-se com um refinamento digno de eruditos e de alterar seu discurso em relação às diferentes personalidades que falsifica, além de exibir rica sabedoria popular e precisa descrição dos meandros da cidade. O detetive de Mendonza age com o desembaraço daqueles que precisam de muito jogo de cintura para sobreviver, por isso é safo na ação e de lábia envolvente. Com um comportamento impulsivo, imprevisível e repleto de violações à lei, o louco detetive dá conta da tarefa proporcionando momentos hilários ao leitor.

O interno não é propriamente solto para executar a investigação, mas completamente abandonado: sem dinheiro, em trapos, sem lugar para residir, alimentar-se e cuidar da própria higiene. Vira-se como pode, come o que encontra, surrupia ou lhe fornecem. Recorre à irmã prostituta no bairro Chinês. Vive de golpes, surrupia revistas para ficar bem informado e furta objetos para manter-se.  É hilariante o modo como consegue embriagar e enrolar o jardineiro do colégio das freiras para obter informações. O leitor seguramente há de admirar a argúcia e o engenho transgressor desse detetive pícaro.

A narrativa leve e bem divertida consegue notável equilíbrio na  múltipla articulação em que é constituída. Temos, assim, um romance policial que se alimenta da forma do romance negro, carregado de humor ácido, corrosivo e muito singular; do esperpento, estilo desenvolvido por Roman Valle-Inclán e marcado pela deformação grotesca da realidade destinada à produção de uma crítica à sociedade; do modelo de humor cervantino; e do romance picaresco, de rica tradição na literatura espanhola. Assim, o romance quebra o predomínio da sisudez, da tensão psicológica contínua, do exercício puramente cerebral e da violência, sem deixar de recorrer a todos os recursos típicos do gênero policial.

Valendo dessa estrutura híbrida, de ritmo ágil e repleta de peripécias, Mendoza realizou uma farsa burlesca e uma sátira social em que critica os ricaços de Barcelona, a Igreja e os políticos de uma época muito concreta da história espanhola: a transição para a democracia.

O mistério da cripta amaldiçoada. Eduardo Mendoza. Editora Planeta Literário. 192 páginas. R$ 26,41
O mistério da cripta amaldiçoada. Eduardo Mendoza. Editora Planeta Literário. 192 páginas. R$ 26,41

 Desse amálgama resulta o surgimento de um anti-herói, um detetive incomum, próximo à figura do malandro, nosso velho conhecido. Mas com uma linguagem curiosamente exagerada e alambicada, uma paródia extemporânea à fala dos círculos cultos barcelonenses.

No prefácio do livro, Mendoza revela influência de Ross McDonald e esclarece que escreveu o livro no prazo de uma semana como uma forma de superar a síndrome do segundo romance, enquanto sedimentava a criação daquele que ainda é o seu melhor trabalho – “A cidade dos prodígios”. Talvez isso explique a leveza, a coesão, o humor e o acerto de “O mistério da cripta amaldiçoada”, que peca apenas por uma descida de tom na conclusão das aventuras do louco investigador. Se parece ter faltado uma lapidação mais acurada ao final, a leitura do livro vale pela qualidade e pelo inusitado do texto, além das risadas que arranca do leitor.

José Antônio Cavalcanti é poeta, professor do Colégio Pedro II e Doutor em Ciência da Literatura – UFRJ.

Tags: catalão, editora planeta literario, ficção, litearatura, livro, o misterio da cripta amaldicoada, resenha

Compartilhe: