Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Cultura

Brasil ganha edição bilíngue que reúne poemas de Heine

Jornal do BrasilJosé Antônio Cavalcanti, especial para o Jornal do Brasil

Apesar de alguns poemas dele terem sido traduzidos por Gonçalves Dias, Manuel Bandeira e Décio Pignatari, Heinrich Heine permanece ignorado no Brasil. Finalmente essa penúria poética foi rompida com o surgimento de uma obra capaz de colocar de modo vigoroso o último romântico em circulação na cena poética contemporânea. O mérito desse empreendimento deve ser creditado ao poeta, designer gráfico e produtor de mídia interativa André Vallias, responsável pela publicação de Heine hein? – poeta dos contrários, uma caprichada edição bilíngue com rico estudo introdutório, notas preciosas e um utilíssimo índice remissivo.

A qualidade do trabalho de tradução é avalizada, no texto da orelha do livro, por ninguém menos do que Augusto de Campos, excepcional poeta e tradutor, para quem a proposta de André Vallias é uma bem sucedida “transcriação”, ou seja, constituição, na língua de chegada, do impacto e da criatividade originais. O transbrasileiramento recria a musicalidade característica de Heine ao som do ritmo de sambas antigos, inovando e preservando o traço essencial do autor.

Retrato de Heinrich Heine, por Moritz Oppenheim, em 1831
Retrato de Heinrich Heine, por Moritz Oppenheim, em 1831

A caprichada edição oferece uma grande riqueza de material ao longo de suas mais de 500 páginas. Os 120 poemas escolhidos são entremeados por diversos textos, tanto do autor quanto sobre ele. Retratos traçados por escritores contemporâneos ao poeta, resenha, poemas de todas as suas fases, epistolografia e dados biográficos desenham um riquíssimo painel ao qual o organizador teve o cuidado de acrescentar uma crônica do heineano Machado de Assis.

Heinrich Heine, ao lado de Goethe, Hölderlin e Rilke, contribuiu para a projeção excepcional da poesia alemã. Passou grande parte de sua vida na França, a ponto de ser considerado “o mais francês dos alemães”. Gérard de Nerval acertou em cheio ao descrever a natureza heineana como proteica, característica bastante apropriada à multiplicidade de temas e recursos provenientes da tensão constante entre romantismo e antirromantismo; ateísmo, judaísmo e catolicismo; cultura alemã e universalismo.

Aluno de August Von Schlegel, de Franz Bopp e de Hegel, conviveu com o barão de Rothschild, Balzac, Alexandre Dumas, Vitor Hugo, Chopin, George Sand, Berlioz, Théophile Gautier, Franz Liszt, Gérard de Nerval. Exerceu influência sobre Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud.

Depois de participar ativamente das questões do seu tempo, defendendo as ideias mais progressistas e revolucionárias, passou os oito últimos anos à base de morfina. Vitimado pela sífilis, morreu em 1856.

Dois poemas devem chamar a atenção do leitor brasileiro. O primeiro é “O rapaz ama uma jovem” (O rapaz ama uma jovem / Que deseja outro rapaz; / Este de outra se enamora, / Lá se vão ao juiz de paz. // A donzela então decide / Desposar, só por despeito, / O primeiro que ela avista; / O rapaz ficou desfeito. // É uma história tão antiga, / Mas que sempre se renova; / E quem já passou por isso / Pôs seu coração à prova.), apontado por André Vallias como possível matriz do drummondiano “Quadrilha” (João amava Teresa que amava Raimundo...), embora nada impeça uma filiação de ambos à estrutura comum de desencontros amorosos expostos em relação em cadeia. O outro é “Navio negreiro”, de 1853, traduzido há muitos anos por Augusto Meyer, poema inspirador de “O navio negreiro”, escrito por Castro Alves em 1868.

Também notável foi a influência de Heine sobre Álvares de Azevedo, particularmente nas composições do nosso maior ultrarromântico marcadas pelo coloquialismo irônico, como “Namoro a cavalo”. André Vallias ainda rastreia a sombra de Heine em Sousândrade e no poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira. 

O poeta dos contrários foge a qualquer classificação. Seu ceticismo, a ironia corrosiva, a postura crítica, a sátira, a irreverência convivem com uma sensibilidade romântica, que encanta pela simplicidade e beleza em suas formas moldadas no tom da canção popular.

Seus poemas deram origem a mais de 10000 composições, entre as quais se encontram obras de Schubert, Schumann, Mendelsohn, Brahms, Grieg, Wagner, Hugo Wolf, entre outros. Graças à proximidade entre a sua poesia lírica e a música popular, o Livro das canções tornou-se um dos maiores best-sellers da literatura alemã. Walter Benjamin chegou a apontá-lo como um dos três livros mais importantes da poesia ocidental. A ele pertence o poema “A Lorelai”. Musicado por Friedrich Silcher, tornou-se uma das canções mais populares da Alemanha. Os versos referentes à magia do canto da sereia do Reno podem funcionar como uma síntese de toda a produção poética de Heine - “E as canções que cantarola / Arrebatam os sentidos”.

Espírito inquieto e atento aos acontecimentos europeus, Heine parece ter advertido as gerações posteriores sobre os horrores do século XX: “onde queimam livros, / No final, também hão de queimar homens”. A alta consciência política permitiu criar os momentos mais altos da poesia política em alemão, basta ler poemas como “Ratos Retirantes”, “Miserê”, “Lenda do Castelo”, “Esperem Só” e “Os Tecelões da Silésia”, este último, motivado por uma rebelião violentamente reprimida, transformou-se em um dos hinos mais famosos do movimento operário internacional.

A distinção entre “helenos” e “nazarenos”, formulada em 1837, e posteriormente aproveitada por Nietzsche na criação dos conceitos de apolíneo e dionisíaco, reaparece na composição “Último canto”: “Contrários justapostos numa pedra: / Da Hélade, o prazer; e da Judeia, / A ideia-Deus! (...)”. Divisão reafirmada ao final do poema: “Sempre estará cindida a humanidade / Em dois partidos – bárbaros e helenos”.

Heine teve nítida consciência da mudança representada por sua obra na história da poesia alemã, por isso pôde afirmar com convicção: “comigo se encerra a velha escola lírica dos alemães, enquanto, ao mesmo tempo, a nova escola, a poesia moderna alemã, era por mim inaugurada”. Em outra passagem, sintetizou a diferença entre as duas escolas: “Agora a poesia não é mais objetiva, épica e ingênua, mas subjetiva, lírica e reflexiva”.

Heine hein?. Editora Perspectiva. Tradução: André Vallias. 544 páginas. R$ 60
Heine hein?. Editora Perspectiva. Tradução: André Vallias. 544 páginas. R$ 60

André Vallias soube não apenas traduzir com maestria, mas também captar o caráter seminal da poesia de Heine: “Foi o primeiro poeta verdadeiramente midiático do século XIX, o primeiro a se apropriar com estratégia das redes de influência, das engrenagens do jornalismo e dos melindres do mercado editorial, sem jamais trair, no entanto, seu projeto iluminista de ‘libertação da humanidade’. Foi o mais autêntico – se não o único – utópico esclarecido de seu tempo. O maior contrabandista de ideias. Nele confluem a Aufklärung, o Sturm und Drang, a Revolução Francesa e a Escola Romântica: eis o quadrívio que configurou o artista pop inaugural”.

O grande poeta não correu o risco de ser mumificado, lido apenas como registro histórico e monumento de textos embalsamados. Heine hein? não é arquivo, mas o poeta vivo – Heine na veia, como percebeu Ezra Pound.

* José Antônio Cavalcanti é poeta, professor do Colégio Pedro II e Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ.

Tags: heine, heine hein?, livro, resenha

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