Jornal do Brasil

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014

Cultura

Vencedor do prêmio São Paulo de Literatura, Marcelo Ferroni fala sobre seu livro

Em 'Método prático da guerrilha', escritor recria os últimos passos de Che Guevara

Jornal do BrasilLuisa Bustamante

Depois da revolução cubana, Che Guevara se aventurou em uma viagem ao Congo, país onde brotou a ideia de fazer uma nova ofensiva, mas desta vez, na África. Esse pano de fundo é o ponto de partida para a ficção Método prático da guerrilha, que rendeu ao escritor Marcelo Ferroni o prêmio São Paulo de Literatura 2011, na categoria de Melhor Autor Estreante.

>> Veja também a entrevista com Rubens Figueiredo vencedor na categoria de Melhor Autor

Com um Che Guevara “amargo, careca e barrigudo”, o romance de Ferroni é uma reconstituição fantasiosa dos últimos passos do guerrilheiro na Bolívia. Nascido em 1974, em São Paulo, Ferroni é editor do selo Alfaguara, do grupo Objetiva, e vive no Rio de Janeiro. Nesta entrevista ao Jornal do Brasil, ele fala sobre sua experiência como escritor, sobre seus novos projetos e revela o que realmente pensa sobre Che.

Em Método prático da guerrilha, você cria uma ficção baseada em uma expedição de Che Guevara. Por que este tema?

Tive a ideia em 2003, se não me engano. Estava lendo o primeiro volume do Elio Gaspari sobre a ditadura no Brasil e, em um determinado capítulo, ele falava da situação geopolítica mundial de meados dos anos 1960. Foi assim que li sobre uma aventura de Che Guevara ao Congo, que até então eu não conhecia. Em 1965, ele tentou fazer uma revolução na África. Viajou com cubanos negros, para que eles se mesclassem aos congoleses. Só que esperava encontrar uma determinada situação e, ao chegar lá, o que viu foi outra, totalmente diferente. Ele queria que os congoleses marchassem com 40 quilos de pedras nas costas, e eles diziam: "Mimi hapana motocar": eu não sou caminhão. Tive então esse momento em que a gente sente que esbarrou em algo importante. Pensei em fazer um livro que marcasse esse forte contraste entre o Guevara mítico, o herói, e um Guevara atolado em dificuldades inesperadas para realizar seus projetos.

O seu Che foi classificado como um "Che Guevara amargo, careca e barrigudo". O que é ficcional e o que é realidade no seu personagem?

Meu personagem é uma criação ficcional. Não se pode ler o livro esperando encontrar um Che Guevara real, "a figura humana por trás do mito". O que fiz foi usar sua história para falar de outras coisas. É claro, tentei criar um personagem que soasse verossímil, que contrastasse com sua imagem mais disseminada. Sobre o real: ele se disfarçou como um engenheiro uruguaio para viajar à Bolívia. Para tanto, precisou arrancar com pinça os fios de cabelo, para parecer careca. Há algumas fotos suas com esse disfarce.

Che Guevara em 1958
Che Guevara em 1958

Ficção à parte, quem foi Che Guevara para você?

Foi um homem idealista, muita vezes impulsivo. Autoritário, com senso de humor duvidoso, mas uma pessoa pronta a fazer de tudo pelos ideais. Parece que era um excelente jogador de xadrez. No meu livro, apesar de alguns equívocos dele e seus guerrilheiros, há momentos em que Guevara mostra seu lado heroico. A ideia do meu romance não é destruir sua imagem; é , entre outras coisas, reproduzir essa sensação de estranhamento que eu experimentei, entre o mito e o real.

Como você encarou a tarefa de lidar com os limites entre ficção e realidade?

No romance, ficção e realidade estão irremediavelmente fundidas. Essa foi a ideia do livro. Muitos fatos são reais, a maioria dos personagens é real, a linguagem é "realista", tomada de empréstimo das biografias sobre Guevara, mas os detalhes, as falas, as sequências, tudo isso foi alterado. É como uma biografia sonhada, em que os detalhes são inverossímeis e o pano de fundo parece estar fora de perspectiva. Não fui à Bolívia fazer a pesquisa; quis recriar uma Bolívia a partir de outros lugares, a partir da descrição de thrillers e livros de viagem. Mesmo os trechos que se passam no Brasil foram imaginados. Sou originalmente de São Paulo, conheço parte do litoral em que o livro se passa, mas não quis visitar os locais. São recriações de memória. Nesse ponto, o livro é uma espécie de resposta àquele leitor que procura encontrar a "verdade" nos romances.

 Existe algo de particular nesta última expedição do guerrilheiro que tenha despertado a sua curiosidade?

Várias. Sua última expedição desafia os limites da realidade. Há coincidências, desencontros impossíveis, falta de planejamento e momentos cômicos. Em certo trecho de meu livro, os guerrilheiros são visitados, em plena selva boliviana, por um jornalista americano chamado Andrew Roth, que parece ter vindo de outro planeta. Parece mentira, mas isso realmente ocorreu. Eu apenas dei alguns toques ficcionais a esse encontro.

Se você pudesse, quais verdades tentaria "arrancar" do Che Guevara?

Não sei. Acho que, na verdade, não seria recebido por Che Guevara se pedisse uma audiência ou uma entrevista.

Para você que é editor da Alfaguara, como é estar na pele do escritor?

É uma situação boa, pouco conflitante com o papel de editor. O único conflito é o horário de trabalho. No horário comercial, sou editor. Às vezes desempenho também essa função à noite e nos fins de semana, quando tenho de ler manuscritos urgentes. No restante do tempo, escrevo. Isso significa: algumas horas à noite, depois que meu filho vai dormir. Algumas horas nos fins de semana.

 O que achou da edição do seu livro? Mudaria alguma coisa?

Ednei Silvestre (E), Marcelo Ferroni (centro) e Teixeira Coelho (D), na Flip 2011
Ednei Silvestre (E), Marcelo Ferroni (centro) e Teixeira Coelho (D), na Flip 2011

Acho que a edição ficou ótima. No processo, contei com a leitura atenta de três editores: primeiro, minha mulher, Martha Ribas, editora da Casa da Palavra. Depois Roberto Feith, meu chefe na Objetiva. Depois, finalmente, André Conti, o editor na Companhia das Letras. Os três deram opiniões boas, fizeram pequenas sugestões. Eu pensei em alterar uma coisa ou outra, mas o livro já está feito. Não voltei a lê-lo depois da publicação, acho que preciso passar algum tempo sem pegá-lo. Foram muitos anos de convivência.

 Há novos projetos pela frente?

Sim. Estou trabalhando em um novo romance, que espero terminar até o final de 2012  - não sei se consigo. É uma espécie de história policial, muito clássica, com doze personagens e um fantasma.

Tags: Che, guevara

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Comentários

1 comentário
  • steffani, Belford Roxo

    adorei esse livro quando fizer outrolivro posta na minha caixa de e-mail

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