Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Cultura

Resenha - 'Dublinesca', de Enrique Vila-Matas 

'Dublinesca' é um romance com as obsessões já conhecidas pelos fãs do autor: a ligação entre a vida e a literatura; a insatisfação que leva os personagens a assumirem identidades diferentes; o isolamento e o fim irremediável da condição humana

Jornal do BrasilJosé Antônio Cavalcanti *

No início de Suicídios exemplares, com a citação “Viajar, perder países” (de Fernando Pessoa), o romancista catalão Enrique Vila-Matas apresenta imagens que servem como referências ao seu processo ficcional: o autor como vagabundo, a escrita como inscrição urbana (grafite), a viagem como metáfora textual e suas ramificações – mapas, caminhos, perdas e labirintos, a leitura como injeção subjetiva de imaginária viagem do leitor no trajeto sempre em fuga do texto.

Também em seu último romance, lançado pela Cosac Naify, Dublinesca, o narrador atribui ao protagonista uma teoria do romance em torno de cinco pontos: “intertextualidade; conexões com a alta poesia; consciência de uma paisagem moral em ruínas; ligeira superioridade do estilo sobre a trama; a escrita vista como um relógio que avança”. Se a teoria logo é abandonada pelo personagem ao lembrar-se de reflexão pessoana sobre o sagrado instinto de não seguir nenhuma teoria e pela comemoração da morte de todas as teorias (inclusive a dele), não deixa de constituir-se em referência essencial à compreensão do processo narrativo de Dublinesca.

O catalão Enrique Vila-Matas cria, em 'Dublinesca',  um livro-espelho de Ulisses, de James Joyce
O catalão Enrique Vila-Matas cria, em 'Dublinesca',  um livro-espelho de Ulisses, de James Joyce

O fato de os cinco pontos do romance do futuro terem sido formulados a partir da leitura de uma obra tida como ultrapassada, Le rivage des Syrtes, de Julien Gracq, permite considerar o último livro de Vila-Matas uma inscrição na móvel fronteira entre mundos próximos e distintos, cujas formas, no entanto, convivem não só lado a lado mas, por vezes, são desdobramentos de formas anteriores. O arcaico e o moderno, desse modo, não operam ruptura, mas surgem e sucumbem em fluxo. O mundo em que se vive é sempre o final, essa é a sensação cíclica de sucessivas gerações frente ao acúmulo de ruínas do passado e à angústia do que virá.

Ninguém vive com mais intensidade a crise de um mundo em extinção do que o protagonista do romance – Samuel Riba –, de personalidade romântica, irônica e nostálgica, que se considera o último editor de textos literários e vive imerso numa atmosfera de desencanto. Em meio à depressão - motivada pelo fim de suas atividades profissionais, causado pelo esvaziamento da alta literatura; o progressivo distanciamento da esposa transformada em budista; e o afastamento dos pais –, resolve  empreender o que denomina o “salto inglês”, ou seja, uma viagem ao universo anglo-saxão, representado por Ulisses, de James Joyce, livro-espelho de Dublinesca. Neste, Vila-Matas, sem remeter à linguagem e à técnica joyceanas, reensaia cenas do autor de Dublinenses.

Riba, com a “tendência de ler a vida como um texto literário”, consegue convencer alguns amigos a participarem de uma viagem a Dublin a fim de celebrarem o funeral da era da imprensa, numa paródia ao enterro do proletário alcoólatra Paddy Dignam, descrito no sexto capítulo de Ulisses. Em Dublin, reproduzem a dança dos personagens joyceanos pelas ruas da cidade num cortejo-homenagem impregnado de fantasmas. O título do romance, inspirado no poema  Dublinesque, de Philip Larkin, e o tema significam um desvio no percurso francófilo do autor, num jogo de máscaras com o narrador e o protagonista. O poema de Larkin trata do enterro de uma velha prostituta dublinense acompanhado apenas por algumas colegas de ofício. Assim, Riba e seus amigos participam tanto das pompas fúnebres da literatura (a puta decadente do poema) em pleno Bloomsday (16 de junho, data da jornada de Leopold Bloom, comemorado mundialmente em homenagem a Joyce) realizado em Dublin, quanto da celebração do romance que assinalou o auge da época que se encerra.

O protagonista Riba vive uma existência de total dependência com a literatura
O protagonista Riba vive uma existência de total dependência com a literatura

O desaparecimento daquilo que é vital à existência humana reduz o mundo a um grau insuportável de inabitabilidade. Esse sentimento ecoa na declaração de total dependência de Riba, ex-alcoólatra, à literatura: “O mundo fica muito chato ou, o que dá no mesmo, o que acontece nele carece de interesse se não for contado por um bom escritor”. Hikikomori, palavra japonesa que significa isolamento, é a maior ameaça ao ex-editor. É para escapar ao deserto e fugir ao apagamento de sua identidade que Riba empreende a viagem a Dublin.

O centro de gravidade da obra é justamente o desaparecimento de uma época e o surgimento de outra. A ação narrativa gira em torno do funeral da era Gutemberg, do eclipse da arte literária e da ascensão da era digital. O mundo que evanesce, contudo, não provoca traumas, rupturas, apenas desencanto e nostalgia, perpassadas por uma crítica irônica à permanência de fantasmas no rastro do desaparecimento. Uma chuva contínua metaforiza a dissolução do mundo de Riba: “Chove sempre na alta fantasia, dizia Dante”. A chuva marca o apagamento de sua identidade e a sua consequente transformação naquilo que Stephen Dedalus, em Ulisses, denomina fantasma: “Um homem que desvaneceu até se tornar impalpável, por morte, por ausência, por mudança de costumes”.

Escrito num tom elegíaco, Dublinesca tematiza a iminência do fim com recursos paródicos: “No nosso tempo o apocalíptico só pode ser tratado como paródia”. A equivalência entre personagens comprova o teor dessa citação: Riba e os companheiros de percurso, Javier, Ricardo e Nietzky, parecem réplicas vivas de Bloom, Simon Dedalus, Martin Cunningham e John Power, os personagens originais do cortejo fúnebre de 1904.

A  exemplo de seus livros anteriores, Vila-Matas, entre Borges e Bolaño, insere uma rede extensa de citações tomadas à literatura, ao cinema e à cultura pop, com a diferença de que essa biblioteca pessoal incorporada à narrativa assume agora claramente a forma de dissolução, de despojos lançados como fragmentos nos quais a era que se vai luta pela sobrevivência do vigor de sua plenitude.

A obra de Vila-Matas guarda a propriedade do ensaísmo no interior do texto ficcional, mistura realidade e ficção, mobiliza uma biblioteca viva ao valorizar a dimensão intertextual, borgeanamente inventa autores e referências, desarma o tom grave e solene com o uso do modo irônico e do cômico. Haverá um enriquecimento na injeção do sangue do ensaísmo na ficção literária? O que se ganha e o que se perde? A validade de qualquer recurso está condicionada à manutenção em alto grau da poiesis, da invenção, do próprio da arte, ou seja, incorporar a pulsação do ensaio enriquece uma obra desde que não promova o seu enrijecimento, a montagem de um molde narrativo a ser sucessivamente preenchido por novas camadas do mesmo. Esse risco, felizmente, não ameaça Enrique Vila-Matas, um especialista em driblar com a linguagem os acenos da morte.

Dublinesca é um romance com as obsessões já conhecidas pela legião de admiradores do autor: a ligação entre a vida e a literatura; a insatisfação que leva os personagens a assumirem identidades diferentes; o isolamento e o fim irremediável da condição humana; a ironia desnudadora de limites e aparências; a potência da negatividade na gênese da literatura; o ensaísmo ficcionalizado; a metalinguagem; a incorporação de uma biblioteca pessoal na construção da narrativa; a tentativa de apreensão daquilo que escapa, desaparece ou morre. De quebra, oferece o mais humano dos seus personagens e um nível de realização igual ou superior ao de Bartleby e companhia e de doutor Pasavento.

Para o ex-editor decepcionado por nunca ter encontrado e publicado as obras de um gênio, capaz de ajudá-lo a descortinar um mundo novo, restará, mesmo no fim de tudo, a frase de Joyce no sexto capítulo de Ulisses: “Sempre aparece alguém que nunca se espera”.

 Dublinesca (Cosac Naify, 320 páginas, R$ 55,00). 

* Poeta, professor do Colégio Pedro II e doutor em ciência da literatura – UFRJ.

 

 

 

 

Tags: dublinesca, enrique vila-matas, literatura

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