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Cultura

Filme de diretor tunisiano premiado evoca racismo europeu

Atração do Festival Varilux, 'Vênus negra', sobre sul-africana explorada como atração circense na Londres e na Paris do século 19, chega ao circuito comercial nesta sexta-feira

Jornal do Brasil Carlos Augusto Brandão

A edição 2011 do Festival Varilux do Cinema Francês, que se despede hoje dos cariocas, contém pelos menos um drama de revirar estômagos e consciências pesadas. Vênus negra, do cineasta tunisiano (radicado na França) Abdellatif Kechiche, recria a triste história da sul-africana Saartjie Baartman, exibida como atração de circo na Inglaterra do início do século 19, e que virou símbolo da exploração racista. Através de terríveis e reiteradas cenas do sórdido espetáculo montado em torno da descendente da tribo khoikhoi em Londres e Paris, o filme, que chega ao circuito comercial amanhã, leva os espectadores ao desconforto e à reflexão crítica sobre o episódio.

Saartjie fazia sucesso nos salões da época, saindo de uma jaula, com uma corrente presa ao pescoço, dançando de forma grotesca e, no fim, sendo tocada pelos espectadores nas suas nádegas de tamanho fora do normal. No filme de Kechiche, o mesmo de O segredo do grão (2007), o personagem é encarnado pela atriz Yahima Torres, que estréia como atriz num difícil papel.

A atriz cubana Yahima Torres interpreta a jovem africana no filme de Kechiche

Vênus negra abre na Paris de 1817, durante uma aula de anatomia na Academia Real de Medicina, presidida pelo naturalista Georges Cuvier, sobre as impressionantes características físicas de Saartjie, preservadas em desenhos e numa estátua baseada num molde em gesso.  A narrativa volta então sete anos no tempo, quando a africana ainda era explorada por Hendrik Caezar (André Jacobs), seu patrão branco.

Iludida por Caezar com a promessa de se tornar uma artista, a pobre mulher é transformada em atração circense e tem que posar como selvagem. Os espetáculos criados por Caezar se tornam cada vez mais agressivos, apesar do visível constrangimento de Saartjie, a ponto de o caso ir parar na alta corte londrina.  A escalada de humilhações públicas continua quando a personagem é arrendada por outro branco, Réaux (Olivier Gourmet), que organiza espetáculos com a jovem africana para a alta sociedade francesa.

Quando morreu, os cientistas dissecaram o corpo de Saartjie e conservaram seu esqueleto e seus órgãos genitais, que eram anormalmente avantajados.  Para Kechiche, a dessecação foi a maior atrocidade praticada contra a jovem.  Exposto durante anos no Museu do Homem em Paris, o corpo de Saartjie foi repatriado para a África do Sul apenas em 2002, a pedido de Nelson Mandela, que a considerava um ícone da luta contra o apartheid e o racismo.

 "O filme mostra a fascinação dos cientistas franceses da época, que não apenas violaram seu corpo depois da morte, mas o conservaram em formol e desenvolveram complexas teorias que encontraram eco na aurora do fascismo", ressaltou o diretor, durante o Festival de Nova York, onde o filme foi exibido em mostra informativa.

Embora o filme resgate uma história do século 19, Kechiche queria provocar sentimentos que reverberam no presente. "O corpo dela continuou sendo explorado no século 21. É importante retomar esse passado porque a Europa vive hoje novamente um novo discurso racista. Por isso, havia o dever moral de contar este caso e confrontá-lo com a relação entre o discurso dos governos e seus atos e a repercussão desses atos nas nossas vidas", analisou.

Kechiche diz que a Europa vive hoje um novo discurso racista

Kechiche discorda que a excessiva reiteração das cenas de humilhação da personagem no filme não seria, em última análise,  também uma exploração da tragédia de Saartjie. "Não houve uma multiplicação. Há sim uma evolução rumo a um corpo cada vez mais explorado, fatigado até a mutilação. Quis mostrar o olhar sobre isso", afirmou o realizador, que credita ao ótimo desempenho de Yahimao realismo das cenas do filme.

Ele conheceu a atriz em Paris, para onde ela se mudou quando deixou Havana, em 2003. "Yahima estava passando na rua, eu a vi e imediatamente a identifiquei com a estátua de Saartjie, que existe na cidade", contou. A atriz revelou que até hoje se assusta quando lembra do convite do diretor. "Parecia que não era verdade. Eu tinha feito teatro e dança na escola em Cuba, mas nunca imaginei que um dia viria a fazer isso no cinema", disse a jovem de 30 anos, ressaltando também  que não se sentiu constrangida com as sequências de humilhação física e psicológica da personagem. "Pelo contrário, sinto muito orgulho de ter participado de uma história tão forte e tão importante".

 



Tags: abdellatif kechiche, festival varilux, saartjie baartman

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