Jornal do Brasil

Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Cultura

Último livro publicado por Ítalo Calvino explora a diversidade

Jornal do Brasil

José Antônio Cavalcanti*, Jornal do Brasil

RIO - Coleção de areia, último livro publicado por Ítalo Calvino, registra a necessidade de transformar o escorrer da própria existência numa série de objetos salvos da dispersão, ou numa série de linhas escritas, cristalizadas fora do fluxo contínuo do pensamento .

Ao explorar a diversidade temática numa sucessão de micronarrativas, o autor se expôs ao risco de criar um conjunto cuja força da deriva poderia produzir uma gangorra qualitativa, porém, graças à leveza e à argúcia de um olhar disposto a captar a luz dos acontecimentos a partir de um ângulo extremamente original, o leitor não sente os desníveis, aprisionado a um leve sopro de palavras capaz de limpar seres, objetos e lugares da camada de invisibilidade e indiferença sob a qual permanecem intocados.

Exposições. Explorações , a parte inicial do livro, assemelha-se a uma galeria textual em que o leitor pode explorar uma exposição de curiosidades em 10 seções de natureza diversa. Nela encontrará a coleção de areia que serve de título, imagens do Novo Mundo, mapas, museu de cera, estudos etnográficos franceses, objetos com inscrições cuneiformes e hieróglifos, crônicas de fatos escabrosos, quadros de Delacroix (no caso, A liberdade guiando o povo), uma insólita mostra de nós usados em arte e desenhos de autores franceses do século 19.

Uma bela homenagem a Roland Barthes abre a segunda parte, O raio do olhar . A ela são justapostos relatos sobre o Forte de Belvedere, em Florença, a pocilga de Settefinestre, uma descrição minuciosa da narrativa inscrita na Coluna de Trajano, um estudo sobre epígrafes e grafites, reflexões em torno dos livros O imaginário urbano na Itália medieval, de Jacques Le Goff, e da Antologia pessoal, de Mario Praz, e um texto referente ao funcionamento dos olhos.

Na terceira parte, dominada por narrativas alusivas ao fantástico, o autor cria uma espécie de galeria aérea de fenômenos sensíveis. Em texto de 1980, evoca Baudelaire e Kleist para auxiliá-lo no desvendamento do significado de autômatos construídos por relojoeiros suíços, obras situadas nas fronteiras entre brinquedo, jogo e simulacro. A leveza dispersiva do autor nos leva a uma geografia das fadas, desenhada por Robert Kirk, em O reino secreto, para em seguida nos conduzir ao Dicionário de lugares imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, numa íntima conexão com o mapeamento poético de mundos imaginários em contínua mobilidade, proposição de Calvino em As cidades invisíveis. Se os comentários a respeito da arte filatélica de Donald Evans pouco acrescentam à obra, o autor recupera o fôlego e o refinamento na rica indagação metalinguística contida nas notas ao texto de Luigi Serafini, Codex Seraphinianus, sobre o qual Calvino nos diz: Se a escrita serafiniana tem o poder de evocar um mundo em que a sintaxe das coisas se embaralha, por outro lado deve conter, oculto sob o mistério de sua superfície indecifrável, um mistério ainda mais profundo, que diz respeito à lógica da linguagem e do pensamento . Borgeanamente, escrever é colocar a palavra como fonte de visões do invisível.

Há alguns apontamentos sobre uma jornada a três países. Dos nove textos sobre o Japão, o primeiro traça uma síntese do movimento de captura da essência dos lugares estranhos ao autor. Foge ao exotismo e ao puro descritivismo ao promover um olhar em fuga do turismo cultural, antes dedicando-se à captura do traço essencial cujo vislumbre pode iluminar a dimensão desconhecida do Outro. O Japão flagrado por Calvino está nos monumentos históricos de castelos e ruínas, em jardins cujo ordenamento revela toda uma concepção do mundo, mas está também nas dissimetrias entre o passado ritualístico e a modernidade (duvidosa, é certo, no caso dos fliperamas). A tradição e a contemporaneidade nipônica são flagradas no texto inicial: A velha senhora de quimono violeta . A senhora do título corresponde à permanência dos valores clássicos, a jovem que a acompanha

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