Jornal do Brasil

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Cultura

Andrea del Fuego lança 'Os malaquias'

Jornal do Brasil

Ieda Magri*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - No livro Ficção brasileira contemporânea, Karl Erik Schøllhammer escreve que é lugar-comum na história da literatura brasileira reconhecer o predomínio da tradição realista em diferença às literaturas nacionais latino- americanas, com sua riqueza e diversidade de formas de literatura fantástica e as várias expressões do realismo maravilhoso .

Sempre que pensamos na história de nossa literatura, destacamos Murilo Rubião e José J. Veiga como os expoentes do fantástico ou do maravilhoso. Difícil é encontrar autores contemporâneos que coloquem no centro de sua escrita as rupturas com o real.

Morrer de raio

É o caso de Os Malaquias, de Andréa del Fuego. Nele, acompanhamos a saga de uma família, cujos pais morrem de raio , deixando seus três filhos abandonados à própria sorte. Um, Nico, é adotado pelo dono da Fazenda Rio Claro, Geraldo Passos; os outros dois, Júlia e Antônio, ficam no orfanato das irmãs francesas, onde são preparados para adoção. O enredo, o leitor reconhece, não tem nada de irreal. É bastante verossímil a morte por uma descarga elétrica e mais ainda uma história de órfãos explorados e à espera de um destino melhor.

O cenário, uma fazenda de café, provavelmente no Brasil pré-moderno, também não remete a um lugar maravilhoso. Ao contrário, um cenário rural perfeitamente descrito em proximidade com a cidade pequena. O que faz do livro, porém, um romance de ruptura com a referencialidade à realidade imediata é a proximidade com um tempo onírico, um certo sonambulismo, que conduz o movimento dos personagens e está ligado ao fluxo da água.

O vale de Serra Morena, íngreme, úmida e fértil poderíamos dizer Macondo tem sua pacata rotina invadida pela água. Da noite para o dia seus habitantes recebem a notícia da construção de uma hidrelétrica e, com a vinda da água, o enredo vai se matizando, novos personagens surgem, intensificando o que há nele de fantástico: Nico desaparece num coador de café, Geraldina, mãe de Geraldo, o dono da Fazenda Rio Claro, viaja na barra das calças de Antônio: Geraldina Passos morreu no começo de um verão, mas enterrar o corpo não apagou a figura. Restou uma espécie de memória, que mesmo minúscula e transparente tinha uma estrutura, permanecia organizada e material. Circulava com o pó de uma penteadeira não encerada, a respiração de alguém a faria levitar . De um dia para outro também a água secou, a luz elétrica sumiu das lâmpadas, só a família de Geraldo não criou o hábito de morrer.

Nessa atmosfera onírica, é interessante pensar a morte que, no livro, tem dois pesos e duas medidas: os mortos da cidade não causam fantasmas, enquanto as mortes rurais mantêm o dono do nome de morto em circulação, essa espécie de memória com estrutura . Mas nem todos. É o caso da mãe e do filho Passos, mas não de Tizica, empregada da família, alma boa, ao contrário das outras duas, tingidas de maldades.

A família Passos encarna o lugar dos exploradores, divisa entre maus e bons. Geraldo fica com a casa e os pertences da família de Nico, Júlia e Antônio, os três órfãos, também com Nico, o mais velho, fácil de empregar na lida com o café, e quando este atinge a maioridade deve comprar a casa que já era dele. Geraldo também negocia as casas dos outros habitantes do lugar quando chega a água.

Contudo, uma das qualidades de Os Malaquias, além do trabalho de linguagem, passa justamente pelo modo de narrar esses acontecimentos: o fluxo da água leva consigo qualquer densidade de dor. A opressão não tem eco, fica esvaziada por um devir ansiado pelas personagens, que se movem em busca de seu destino.

A opressão, a injustiça, a dor, estão presentes de forma brutal, mas como que só mais um rolar de águas, não há excesso de tintas, são sentidas de maneira sutil e vão se ampliando. Os Malaquias se distancia, assim, da exposição da brutalidade da tragédia humana, apesar de seu enredo trágico.

Destino em fragmentos

O destino das três personagens principais,

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