Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Cultura

Escritoras questionam os limites entre ficção e autobiografia

Jornal do Brasil

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Porta-bandeira de uma literatura do real , David Shields não conhecia, antes de ser procurado pela reportagem, o termo autoficção, criado pelo francês Serge Doubrovsky para definir um gênero que tenta combinar expressões aparentemente opostas: ficção e autobiografia.

É uma palavra nova para mim admite. Gostei dela, porque mistura ficção e não ficção. Muitos dos escritores que amo existem exatamente neste meio-termo continua Shields, citando autores que, na sua opinião, revigoram a literatura contemporânea usando radicalmente suas experiências de vida, como Grégoire Bouillier, J. M. Coetzee, David Markson, Amy Fusselman, Maggie Nelson e Simon Gray.

Autoficção no Brasil

Por aqui, o gênero começa a ganhar popularidade com escritoras como Paloma Vidal e Tatiana Salem Levy. A primeira acaba de lançar Algum lugar, romance em que borra as fronteiras entre personagem e autora ao narrar a crise de um casal após sua mudança do Rio para Los Angeles. A segunda conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura de 2008 com a A chave de casa, livro de estreia no qual investiga as raízes de sua família. O Caderno B reuniu as duas para uma conversa sobre as relações entre realidade e ficção.

A autoficção representaria o desejo do público de hoje por um compromisso com a verdade (podemos citar o sucesso dos reality shows)?

Tatiana: A autoficção é bem diferente dos programas ou dos textos que têm um compromisso com a realidade . Seu propósito é justamente o de embaralhar realidade e ficção, diluir seus contornos, mas nunca em proveito do referente, do que está fora do texto. Autoficção continua sendo literatura, embora procure dissolver as fronteiras entre autor, narrador e personagem. O compromisso com a verdade é o mesmo que o de qualquer texto literário: não tem nada a ver com ser ou não ser fiel à realidade. A literatura é essa eterna contradição: buscamos a verdade através da mentira. Muitas vezes, quando nos atemos demais aos fatos, mais nos distanciamos da verdade. É uma ingenuidade achar que ela se encontra nisso a que chamamos de realidade .

Paloma: Com certeza, é possível estabelecer uma relação entre diversos fenômenos que buscam um contato com a vida real . Acabei de traduzir um livro da argentina Leonor Arfuch chamado O espaço biográfico, em que essa trama complexa que envolve múltiplas esferas, como a literatura, a arte, as ciências sociais e os meios de comunicação, é muito bem exposta. Trata-se efetivamente de uma discussão muito ampla sobre um percurso que tem mais de dois séculos, de crescente demanda de exposição da subjetividade, da verdade do sujeito, de sua intimidade, que na contemporaneidade se acirrou de maneira exemplar. O romance é uma instância desse percurso, como também o são a autobiografia, as cartas, os livros de viagem, o diário e várias outras formas que têm o indivíduo como figura central. Agora, dentro desse processo histórico, acho que há formas problematizadoras e outras cristalizadoras. Algumas formas que legitimam uma determinada ordem de coisas muito opressora, e outras que a colocam sob suspeita. Nesse sentido, há uma distância entre o que vem sendo explorado nas autoficções contemporâneas e o que vemos em certas manifestações midiáticas. Poderíamos pensar, por exemplo, como o reality show legitima uma individualidade fechada sobre si mesma, competitiva, autoritária, como enquadra os sujeitos em determinados moldes pré-estabelecidos que a biografia ajuda a construir. Pelo contrário, a biografia aparece nos textos dos autores que mencionei para problematizar a autoridade do sujeito, seu lugar na história, sua relação com os outros.

A ficção está em crise? Romances com tramas inventadas e personagens inventados estariam com os dias contados?

Tatiana: De jeito nenhum. É verdade que há uma proliferação de biografias e de textos não ficcionais de forma geral. Mas a ficção continua existindo, e não vejo nela nenhuma crise. O mundo está cheio de ótimos escritores e de leitores de ficção. Sempre me incomoda esta definição romance com tramas inventadas . A literatura não se define por isso, mas por um tratamento com a linguagem que vai além do fato de a trama ser ou não inventada. Quem se importa se Proust comeu uma madeleine mergulhada no chá ou não?

Paloma: O romance é desde seu surgimento um gênero em crise, entre ficção e realidade, um gênero que se questiona a si mesmo, que faz pensar sobre o que é a literatura, os modos de representação do real. Ele sempre foi além das fórmulas definidas. Na verdade, pensando de uma maneira mais geral, todo artista leva o gênero da obra a seu limite. Os gêneros estão aí, desde os antigos, como delimitações, como uma maneira de circunscrever, de categorizar certos fenômenos, que necessariamente vão excedê-los. O romance ainda faz sentido, ainda é desafiador trabalhar com uma narrativa que estabelece uma tensão com as definições que lhe são dadas, uma forma que permite desdobrar vários modos enunciativos, que permite incorporar múltiplos gêneros, uma forma fundamentalmente aberta. Acho que ainda há muito a fazer com o romance, em termos da investigação de como se conta uma história, das maneiras possíveis de abordar a realidade, de levar adiante um trabalho com a memória.

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