Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Cultura

Vaidade não é tudo

Jornal do Brasil

Elaine Pauvolid, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Dedo de moça: uma antologia das escritoras suicidas organizada por Silvana Guimarães e Florbela de Itamambuca, com prefácio do músico Guttemberg Guarabyra, ilustrações de Eliége Jachini e orelha do escritor Nelson de Oliveira é uma antologia de prosa e poesia. É também a transformação em livro do site Escritoras Suicidas, no ar desde 2005.

O grande diferencial tanto do livro quanto do site é o fato de as autoras, em sua maioria, não terem sua identidade revelada. Há homens por trás dos pseudônimos femininos. Dois são divulgados: o carioca Rodrigo de Souza Leão e o romeno-carioca Iosif Landau. Ambos já falecidos; nenhum dos dois por suicídio.

O livro é mais compreendido pelo que não é. Não se trata de um apanhado de textos sobre suicídio nem uma homenagem a escritoras que se mataram. Tampouco é bandeira sobre escritura feminina.

Não é uma revelação de novos nomes da literatura, pois não se sabe quem está por trás da maioria dos textos. E os que se dão a conhecer não são estreantes.

A organizadora Florbela de Itamambuca, segundo a nota biográfica, é paulista de 1986, artesã, neta de tupinambás e, com um pé no catimbó, corre atrás de cuidado de sua cultura caiçara e criar seus curimins com muito amor e dignidade . Tudo indica ser um personagem de ficção.

As notas biográficas, na maioria dos casos, são ficção. Fazem parte da obra, são conteúdo. Isso dá ao objeto-livro uma proposta. Ele traz um enigma, ele camufla. Deixa o leitor sem saber direito de onde vêm as vozes que escuta.

Pesquisa detalhada na internet revela uma ou outra identidade, mas estão bem disfarçadas. Sobre a outra organizadora, Silvana Guimarães, dá-se a saber que é mineira de Belo Horizonte e coedita o site Germina, revista de literatura e arte, uma referência no meio literário, principalmente para jovens escritores.

A contemporaneidade assumiu a arte do espetáculo, como Andy Warhol já apontava, e como fica evidente no sucesso dos reality shows. O que se sabe desde o Eclesiastes, e o que o mundo contemporâneo não mais esconde, é que tudo é vaidade. O livro das biografias fictícias, pseudônimos e identidades não reveladas faz referência a esse mundo do espetáculo justamente por não aderir a ele. O que menos importa aos autores, ao que parece, é ver-se revelado ou aplaudido pela identidade do dia a dia. Ainda que este possa não ter sido o objetivo das autoras, é o efeito estético que se estabelece.

A mistura dos gêneros literários diferencia a obra das demais antologias. Esta liberdade de escolha chama a atenção para a rigidez do estabelecimento de um gênero a ser seguido. Por que optar-se por um gênero ou mesmo defini-lo?

Se o trabalho se destaca como conceito e as identidades individuais não fazem muita diferença, por outro lado, há textos que vão além e se destacam pela qualidade literária. Citemos: Dias de guerra, de Romina Conti, pseudônimo de Rodrigo de Souza Leão; Toninho do desalento, de Roberta Silva; Verrückten hunden de Patty Flag, tríptico mortal, de Ro Druhens; Aflitos, de Silvana Guimarães, e Rosário de lágrimas, de Simone Santana.

Dedo de moça

Terracota

160 páginas, R$ 26

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