'O que resta do tempo' é revisão bem-humorada de conflito israelense
Bolívar Torres, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - O ano é 1948. Na Jerusalém invadida, representantes israelenses e palestinos se reúnem para acertar a partilha do país. O chefe palestino assina um documento, e em seguida se posiciona constrangido entre os israelenses para uma foto. O fotógrafo prepara o foco. No instante do clique, porém, o diretor do filme inverte o ponto de vista, revelando ao espectador um grupo meio sonolento sentado em um banco na direção contrária a dos fotografados. A imagem é congelada, simulando um clique, no exato momento em que o grupo parece olhar, numa mistura de espanto e curiosidade mórbida, para o traseiro do fotógrafo.
A cena, que transcorre nos primeiros minutos de O que resta do tempo, mais recente longa do ator e cineasta Elia Suleiman, que estreia nesta sexta-feira nos cinemas do Rio, é um resumo do que o cineasta oferece ao longo do filme: uma revisão histórica pela via do burlesco. Contra o ponto de vista dos vencedores a dissimulada foto oficial busca o ângulo escondido e inusitado a foto não registrada pela história. Seria uma questão de representação? A verdade é que Suleiman, um dos poucos cineastas palestinos em atividade, preenche quase sozinho o déficit de presença de seu país no cinema e na mídia.
A questão não é se existe muita ou pouca representação, e sim se ela é justa ou não diz o diretor, de Paris, em entrevista por telefone ao Jornal do Brasil. Aliás, minha intenção como artista não é a de representar o meu país, mas de produzir um prazer cinematográfico. Não quero que os espectadores venham ao cinema para ver um resumo histórico no estilo BBC, uma lição do que é certo ou errado. Meu filme não é um julgamento. Não está politicamente a favor de ninguém.
Volta à terra natal
O que resta do tempo cruza a história íntima e familiar do cineasta com seis décadas da história do país. Dividido em quatro blocos, inicia-se com a partilha da Palestina, acompanhando os esforços heróicos do pai de Elia Suleiman para reagir à invasão israelense. Anos mais tarde, na Jerusalém ocupada, o cenário muda radicalmente: as belas construções históricas da cidade dão lugar a conjuntos habitacionais assépticos, onde a família Suleiman tenta sobreviver. O pequeno Elia cresce em meio a um estado policial que quer se mostrar pacífico e democrático, mas que reprime seus habitantes. Em seguida, o longa pula para a adolescência rebelde de Elia e corta para os dias atuais, com a volta do cineasta (que interpreta a si mesmo) à sua terra natal, depois de décadas de exílio. Descortina-se então uma sociedade absurda, onde a sensação de não possuir identidade e território se soma ao estranho convívio diário com o inimigo.
Como em todos os seus filmes, Suleiman recorre a uma estética burlesca. Compõe relações espaciais inusitadas, raccords defeituosos, quadros dentro do quadro, numa mise-en-scène em esquetes que reflete o desmoronamento lógico de seu país e transforma o espaço cotidiano em uma espécie de não-lugar. Conhecido como o Jacques Tati da palestina , em referência ao diretor e ator de Meu tio e Playtime, Suleiman também pode ser visto como um cruzamento entre Chaplin e Buster Keaton, de quem parece ter herdado a expressão impassível e insondável. Mas, ao contrário da agitação frenética dos artistas que o influenciaram, o palestino se prende a um permanente imobilismo, surgindo sempre fora da ação. Presença sorrateira e fantasmagórica, observa à distância o que está à sua volta.
Nesse filme, decidi aparecer como uma figura fantasma, porque queria ser uma presença translúcida e silenciosa, não um narrador autoritário que leva a cena à determinada direção. Queria deixar esta opção ao espectador explica Suleiman, que admite não haver tido nenhum contato com o cinema burlesco antes do seu primeiro longa: Nunca havia ouvido falar em Jacques Tati. Por isso, fiquei chocado quando vi o quanto o nosso cinema se parecia e me senti encorajado a seguir esse caminho. Sempre achei estranho que pessoas compartilhem uma mesma sensibilidade cinematográfica. Acho que, da minha parte, esse tipo de humor é influência da minha família.
Através da estranheza de seu cinema, Suleiman consegue traduzir (ou, pelo menos, tornar palpável) a absurda convivência forçada entre palestinos e israelenses. No cansaço do tempo, o conflito se diluiu em códigos e acordos tácitos dos dois lados. O inefável assume uma dimensão banal, mergulhando o país num impasse permanente, que só a arte consegue romper.
Em uma das cenas mais representativas, policiais israelenses param em frente de uma boate e anunciam em um megafone o toque de recolher. Os palestinos, contudo, não param de dançar sob o som bate-estaca. Os homens da lei insistem em cumprir o dever, mas logo começam a balançar a cabeça, contaminados pelo ritmo hipnótico:
Em todos os lugares do mundo, existem pessoas sendo reprimidas. Mas arte e humor sempre foram ferramentas de rebeldia. Com eles você cria espaços que não podem ser capturados pelos seus opressores. É uma dimensão poética intocável de liberdade. Por isso os artistas são sempre perseguidos e por isso faço filmes.
