Jornal do Brasil

Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Cultura

Livro de Paloma Vidal dialoga com o cinema de Walter Benjamin

Jornal do Brasil

Ieda Magri, Jornal do Brasil

RIO - Assim começa Rua de mão única, de Walter Benjamim: A construção da vida, no momento, está muito mais no poder dos fatos que de convicções. E aliás de fatos tais, como quase nunca e em parte nenhuma se tornaram fundamento de convicções. Nessas circunstâncias, a verdadeira atividade literária não pode ter a pretensão de desenrolar-se dentro de molduras literárias isso, pelo contrário, é a expressão usual de sua infertilidade. A atuação literária significativa só pode instituir-se em rigorosa alternância entre agir e escrever; tem de cultivar as formas modestas... .

Em Algum lugar, primeiro romance de Paloma Vidal, que se sustenta numa espécie de autoestrada Rio Los Angeles Rio, a protagonista compra Rua de mão única numa pequena livraria de Los Angeles e dá notícias de sua leitura, que vai privilegiar justamente o aspecto de Benjamim que mais se aproxima de uma escrita que condensa vivência e criação literária. Diz ela que o que a deixa feliz com a leitura iniciada é a promessa de ... um texto em que subjetividade e crítica são uma coisa só porque se entende que a vida e o trabalho são uma coisa só .

É possível ler Algum lugar pelo viés anunciado pela leitura de Benjamim. Embora no romance de Paloma Vidal haja a presença de um enredo que conduz o leitor pelos pequenos dramas da protagonista na descoberta de uma cidade (Los Angeles) e na tentativa de reaver a outra (Rio), ele se sustenta na forma fragmentária de um diário onde cabem desde as mínimas experiências, as descobertas, anotações de aulas, até as dúvidas, os medos e as frustrações mais profundas.

Escrito predominantemente em primeira pessoa todos os sonhos estão relatados em segunda e às vezes em terceira, e a narrativa é pontilhada de perguntas que dão um ar de diálogo ou de dúvidas em espelho o livro dá conta da reconstrução da trajetória da autora no período em que viveu no exterior com o objetivo de escrever uma tese de doutoramento, abandonada e depois retomada. A dificuldade de escrever uma tese, as dúvidas que a protagonista enfrenta e que assaltam todos os pesquisadores, a rotina de estudos, as diferentes estratégias de escrita e de concentração, as dificuldades de viver numa cidade que precisa ser domada, entendida e conquistada diariamente fazem um fundo que empresta uma característica de aventura ao romance.

A protagonista anda e observa, descreve a cidade, a universidade, as aulas, as pessoas com quem trava frágeis relações sempre marcadas pela cultura da cidade que ora habitam ou do país de onde vêm e, principalmente, se interessa pelos que estão em Los Angeles na condição de imigrantes. O que de tão diferente há entre uma brasileira, uma venezuelana, uma chinesa, uma guatemalteca? Que sentimento de solidariedade as une?

Se o livro pode ser lido como um diário da estada em Los Angeles, da dificuldade de escrever uma tese, da vivência em solo estrangeiro, no entanto ultrapassa a forma do diário e se distancia da banalidade das anotações feitas com a finalidade de não serem esquecidas. A forma fragmentária, sem entradas de datas, que revela o investimento no recorte e na montagem de lembranças e sensações que assim dispostas criam um todo coeso mais uma influência de Benjamim dá ao livro uma densidade incomum às narrativas de experiências pessoais e aponta para um investimento na ficcionalidade, como se num diário inventado, mas que tem, jogando em favor do leitor, a promessa de uma autenticidade só possível pela vivência, pela garantia do testemunho.

A promessa de verdade puxada pela memória de um passado recentemente vivido é, contudo, relativizada pela precariedade dessa mesma memória, irrecuperável em seu todo: Há um abismo entre presente e passado, como se o tempo não quisesse se deixar preencher por nada, resistindo a se transformar em conteúdo de lembrança. Busco na memória imagens da chegada em Los Angeles, do apartamento alugado, dos roteiros pela cidade. As datas se confundem. Não me lembro exatamente em que momento conheci Luci. Quantas vezes fomos a Santa Bárbara? Em que mês M partiu? Consolo-me pensando que essa precariedade é própria da memória; mas será que aos poucos as imagens voltarão ou, ao invés disso, irão sendo paulatinamente empurradas para mais fundo, num lugar irrecuperável? .

O recorte da memória possível faz o relato, cuja qualidade mais marcante é o domínio de uma forma de escrita que nem se derrama sobre as sensações de impotência, tristeza e dor, nem minimiza seus significados. Um corte seco faz a escrita fluir entre um assunto e outro, uma gravidade, uma tensão e outra. Há uma angústia permanente, mas também uma sensação de que algum otimismo pede passagem.

Outra qualidade do romance é que não há nenhum gesto previsível na trajetória da protagonista que vive os papéis de estudante, professora de espanhol, mãe e mulher às voltas com um casamento que não deu certo, como na simbólica descrição de uma anotação reencontrada nos cadernos que foram escritos e empilhados no período que esteve em Los Angeles e que agora rememora para dar-lhe sentido: De repente, uma tarde, entre o fichamento de um texto e uma lista de bibliografia, leio: 'Se um daqueles pombos sobre a mancha ensolarada do pátio vizinho levantasse voo naquele instante, ela se deixaria arrastar pela memória, senão iria até a cozinha e lavaria imediatamente os pratos do jantar solitário da véspera um deles voa e ela vai lavar os pratos assim mesmo. O que vale é o jogo, não o resultado' .

Por mais que ela tente, não se lembra de ter escrito isso, não há no seu passado nenhuma memória do dia em que escreveu a cena em um de seus cadernos. Sabe, ainda assim, que a imagem é sua. Viveu a experiência de observar os pombos, seguir com o olhar o voo de um deles? É real a mancha ensolarada, a pia com os pratos do jantar esperando para serem lavados? Os pombos existiram mesmo? Muito do que é o livro se equilibra nesta incerteza: onde termina o sonho e começa a vida? Qual a versão dos fatos é mais verdadeira, a vivida ou a imaginada?

A medida entre invenção e intuição é incalculável. Os atos encerram seu sentido, sem que eu possa julgá-los. Talvez aí, nessas duas frases, esteja condensada a beleza do livro.

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