Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Julho de 2017

Cultura

Alaíde Costa prepara disco em homenagem a Johnny Alf

Jornal do Brasil

Bernardo Costa, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Daqui a duas semanas Alaíde Costa entra em estúdio para gravar um disco em homenagem ao amigo Johnny Alf. Programado antes da morte do cantor e compositor, no último dia 4 de março, depois de uma longa batalha contra o câncer, o álbum ainda não tem título, embora Alaíde tenha preferência por Escuta Johnny Alf por Alaíde Costa. O conceito, em compensação, já está estabelecido.

Vinha pensando este disco há algum tempo. Ainda falei com o produtor Thiago Marques para ver se começávamos logo as gravações para que Johnny tivesse a oportunidade de ouvir. Infelizmente não foi possível lamenta Alaíde. Estou pensando em gravar canções dele não tão conhecidas, mas sem deixar de lado alguns clássicos. Mais ou menos como no show que fiz com a Leny Andrade no Sesc Ginástico, em dezembro do ano passado.

No repertório estão canções como Se eu te disser, Escuta, Fim de semana em Eldorado, Quem sou eu? gravada por Alaíde no disco Coração (1976) e Meu sonho, primeira e única parceria dos dois.

Ao contrário do que todos imaginam, a harmonia e melodia são minhas nessa canção revela a cantora. Lembro que Johnny e eu estávamos nos apresentando no Sesc Pompeia, em 1994, quando ele me entregou um papelzinho dobrado com um poema. Li e falei: Nossa, que lindo Johnny . Ele disse que era pra eu musicá-lo. Respondi, espantada: Eu? Musicar para você? . Johnny disse: Vire-se . Ele já sabia meu jeito de compor, pois conhecia minhas parcerias com Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Geraldo Vandré.

Alaíde Costa estava começando a carreira nos anos 50, cavando participações em programas de calouros, quando Johnny Alf já fazia sucesso, principalmente entre os músicos da época, em apresentações na Cantina do César, boate do radialista César de Alencar. Mais adiante, no bar do Hotel Plaza, na Avenida Princesa Isabel, em Copacabana, era cultuado e estudado por todos os jovens que formariam alguns anos depois a bossa nova em torno da batida de João Gilberto. Para muitos, o início do movimento se deu no Plaza com as inovações rítmicas e harmônicas de Johnny Alf, assimiladas pela nova geração em reuniões no apartamento de Nara Leão.

Em 1952, eu estava ensaiando na Rádio Clube do Brasil para um programa de calouros. Foi quando ouvi alguém cantando algo completamente diferente para a época. Era Johnny Alf, que tinha um programa na rádio todas as quartas-feiras. Passei a frequentar o auditório semanalmente e me tornei fã de carteirinha. Mas nunca me aproximei dele, por timidez recorda Alaíde. Sua música era exatamente o que eu estava procurando cantar na época, quando tudo era muito gritado naquelas canções dramáticas. A música de Johnny me atraiu, pois destoava disso tudo, tanto nas letras quanto nas harmonias cheias de dissonâncias. Era música moderna.

Alaíde, na época com 16 anos, só veio a se profissionalizar quatro anos depois, quando foi contratada como crooner da boate Dancing Avenida, cargo ocupado anteriormente por ngela Maria e Elizeth Cardoso. Em 1957, um técnico de som da Odeon chamou-lhe para um teste com Aloysio de Oliveira, então diretor artístico da gravadora. De imediato gravou dois LPs de 78 rotações, com as canções Tarde demais (Hélio Costa e Lenita Andrade), Conselhos (Hamilton Costa e Richard Franco) e Domingo de amor (Fernando César).

Durante uma das gravações, João Gilberto estava no estúdio e pediu para o Aloysio falar comigo que havia uns meninos tocando algo diferente e que minha maneira de cantar se encaixaria na proposta. João disse que me ligaria quando houvesse uma próxima reunião. E assim aconteceu. Fui à casa do Bené Nunes e encontrei Oscar Castro Neves, Roberto Menescal, Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Era o início da bossa nova. Mas ainda não havia conhecido o Johnny, pois houve um racha na turma com uma briga entre o Carlinhos e o Bôscoli. Fiquei com o Carlinhos por causa do Oscar, com quem tenho muita afinidade até hoje, e o Johnny ficou com o pessoal do Bôscoli.

O encontro entre os dois se deu em 1959, quando Alaíde foi a São Paulo participar de um programa da TV Record. Nessa época, Johnny Alf já estava radicado na capital paulista. Do bar do Plaza, foi para a boate Baiúca; e de lá para várias outras, iniciando sua ronda pela noite paulista.

Soube que Johnny estava se apresentando na boate Lancaster, no Centro de São Paulo. Fui até lá e dei uma canja cantando Dindi, com ele ao piano. A partir de então, sempre que vinha pra cá, passava na Lancaster para dar uma canja com ele. Quando me mudei São Paulo, passamos a fazer vários shows juntos.

Um dos mais marcantes para a Alaíde aconteceu na boate Ela Cravo e Canela, em 1963, quando o pianista americano Oscar Peterson, após prestigiar a dupla por três noites, acompanhou Alaíde ao piano.

O Oscar Peterson estava se apresentando em São Paulo e foi ao nosso show por três noites seguidas. Ele ficou apaixonado pelo Johnny e acho que por mim também. Na última noite, eu estava cantando, quando virei pra trás e vi que quem estava ao piano era o Peterson.

Alaíde e Johnny não chegaram a gravar juntos, mas as participações na série MPB 100 anos ao vivo, produzida por Ricardo Cravo Albin e transmitida pela Rádio MEC em 1975, foram registradas em oito LPs lançados entre 1976 e 1978. Na ocasião, a dupla se juntou a Lúcio Alves para interpretar clássicos da bossa nova.

Sempre me falam dessas gravações, mas nunca tive oportunidade de ouvi-las.

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