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Cultura

Livro de Alexandre Rodrigues enfrenta situações extravagantes

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Paulo Scott, Jornal do Brasil

RIO - Sob os cânones literários estabelecidos no século passado, consolidou-se a necessidade de existir, por entre as obliquidades da história aparente, uma história oculta ou várias histórias ocultas, na medida em que a leitura, certa ou errada, é que estabelecerá o sentido imediato na narrativa apresentada. Esse é um parâmetro ainda bastante vigoroso para se identificar a qualidade de uma determinada prosa literária que não seja o romance. No entanto, há outros elementos, outras pretensões que se conjugam para confirmar a satisfação do leitor. Penso que um desses elementos pode ser o modo como o escritor no caso o contista circunscreve o perfil do seu narrador.

Antes de continuar, deixo claro que o bom contista precisa ser pretensioso. Essa pretensão, todavia, não precisa estar concentrada na história, na sua complexidade, na originalidade e variações do tipo. Admite-se um esvaziamento artificial da história em si e consequentemente a aposta numa persona que narre de modo talvez estranho ou requintado ou que enfatize um determinado comportamento, uma pecha não de todo fácil de sustentar, que esmiúce eventuais banalidades do cotidiano sob a tradição da crônica, da parábola, da paródia quando a construção desse narrador servir de fato para justificar a ambição literária da coleção de histórias curtas arranjadas pelo autor. Se houver unidade, ainda melhor.

As histórias que compõem a coleção de contos bem curtos do livro Veja se você responde essa pergunta , do escritor carioca Alexandre Rodrigues, firmam um espectro único de soluções narrativas nas quais o narrador enfrenta com a maior naturalidade (a palavra que me parece mais adequada seria normalidade) a revelação de situações extravagantes, absurdas. Há uma, muito bem elaborada, leitura de viés corriqueiro, e nada impressionada, de temas fantásticos. O mesmo tratamento, com igual sucesso, é dispensado a outros que permanecem na fronteira da realidade. Talvez o conto que melhor ilustre essa opção seja o O esquerdo ou o direito? vale prestar atenção na escolha do ritmo, e o humor, empregados para contar uma situação verdadeiramente desesperadora.

Nos textos de Alexandre, a utilização do humor é sempre bastante pertinente, nada vulgar esse aspecto é dos que melhor chancela o domínio do autor ao abordar situações limites, sem excesso, sem sobrecarga de linguagem e imagens. Dos leitores, a coletânea não exige grande iniciação, conseguindo, de outro lado, ser bastante atraente diante da leitura, digamos, de um mais habituado. Os contos Nicola Tesla , Love #2 , Fetiche idílico , Autoflagelação não decepcionarão nem por uma linha os mais exigentes; a exemplo das demais histórias, são contos que sugerem um tipo de feitura masculina, e aqui está a maior armadilha preparada por Alexandre Rodrigues.

Imagino que essa arquitetura, esse requinte foi o que o levou a colocar em primeiro lugar no livro o conto Foi então com Bárbara que surgiu algo diferente (Love # 1) . De todas as 13 composições, esta, a peça mais neurótica, inapropriada, fundamental isso a ponto de lançar premeditadamente uma sombra acima dos demais contos, tal efeito ocorrerá, evidentemente, na hipótese das narrativas serem lidas em sequência; uma sombra que necessariamente terá de ser desfeita pelo leitor.

Após a leitura das histórias, fiquei com a impressão de gangorras alinhadas em desfile, perigosamente disfuncionais, e ainda assim reveladoras da continuidade vertiginosa que é a grande ilusão ocidental (e seu excesso de entretenimentos e debilidades emocionais) a projetar cada um de nós, deformando-nos para que haja futuro, sob um propósito secreto cujas pistas nada têm a ver com a busca pela felicidade, ou pelo conforto idealizado, e nada tem a ver com a busca por facilidades tampouco. A atmosfera posta em destaque pelo autor realça a obsessão pela vida, sempre, da forma que ela for: a prova de nossa capacidade de adaptação mesmo quando cercados pelo que não dá esperança ou pelo autoritarismo ou pela loucura. Um livro fácil? Sim, mas que encobre enigmas perfeitamente factíveis desde início de milênio, ocidental, repito: um enorme pesadelo, a redenção nos passos que precisam ser dados e possam aninhar o processo de torcer a natureza e os seus defeitos.

Desde já, Alexandre ingressa no rol dos observadores capazes não apenas de simular estados de ubiqüidades na singular tarefa de retratar nossa cultura (do ocidente vitorioso, enfatizo a nuance geográfica), mas também de desafiá-la aos desfiar de propósito (e não pelo instinto) suas idiossincrasias, o avesso das trivialidades, onde permanece a semente do absurdo, as regras cuja lógica dependa antes de tudo da aceitação, de uma aceitação que se conjugue de maneira indeclinável aos abalos próprios do mundo contemporâneo, onde o raro se torna ordinário, e o ordinário é movimento em direção ao impossível.