Jornal do Brasil

Terça-feira, 25 de Abril de 2017

Cultura

Ópera Seca decreta a sua independência com 'Travesties'

Jornal do Brasil

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

CURITIBA - Gerald Thomas disse que não tem planos de voltar ao teatro. Caso não retorne, a perda será inestimável. Afinal, suas contribuições ao desenvolvimento do teatro contemporâneo são inegáveis, a julgar pela revalorização da noção de texto em suas encenações, não mais circunscrito ao limitado plano verbal, e pela habilidade em se apropriar de dramaturgias de autores diversos (especialmente, Samuel Beckett). Em todo caso, o afastamento de Thomas não inviabilizou a continuidade da Cia. de Ópera Seca, que apresentou no Festival de Curitiba a encenação de Travesties, de Tom Stoppard, assinada por Caetano Vilela.

Gerald avisou que iria acabar com a companhia. Protestei. Ele disse: Então, você terá que conduzi-la recorda Caetano Vilela. Na época, já tinha comprado os direitos de Travesties. Conversamos durante o processo. Mas ele não me deu ideias. Eu o mantive informado em sinal de respeito

Sem medo do ridículo

Caetano integrou a Cia. de Ópera Seca entre 1998 e 2000, período em que acompanhou espetáculos como Nowhere man (nas funções de produtor e iluminador), Ventriloquist e Nietzsche contra Wagner (em ambos, como assistente de direção). Voltou a trabalhar mais recentemente com Thomas na blog novela baseada nos textos publicados pelo encenador na internet e como iluminador em Bate man, uma das autopeças comemorativas dos 20 anos da Cia. dos Atores.

Eu e Gerald nos aproximamos na conexão com a ópera e com o registro da farsa e no afastamento do naturalismo resume Vilela, referindo-se também ao trabalho dos atores. Rubens Corrêa era um ator que se jogava sem medo do ridículo. Acho que o teatro perdeu essa anarquia, esse prazer pela caricatura, pela farsa.

O processo de Travesties foi longo. De início, Vilela planejava dirigir outro texto de Tom Stoppard, Rock'n'roll. Mas os direitos eram de Felipe Vidal. Passou, então, a estudar toda a obra de Stoppard. E escolheu Travesties.

Adoro A costa da utopia, mas precisaria de 30 atores. Seria impossível. Optei por Travesties. Como Stoppard estava no Brasil, marcamos um encontro. Ele queria saber a razão de eu ter escolhido o texto que considera como sendo o mais difícil de sua dramaturgia relata o diretor.

Responsável pela tradução da peça, o ator Marco Antonio Pâmio procurou Stoppard em Londres.

Stoppard exigiu que o tradutor fosse uma pessoa de teatro que tivesse a coragem de não respeitar tanto a sua escrita destaca Vilela.

O espetáculo foi levantado com a cara e a coragem. Sem patrocínio, Caetano Vilela e os atores (entre eles, Fabiana Gugli, Rodrigo López e Germano Mello) não só trabalharam sem remuneração à vista como sem qualquer garantia de continuidade das apresentações após o Festival de Curitiba.

Usamos o cachê oferecido pelo festival para viabilizar nossa vinda confirma Fabiana Gugli, única remanescente (ao lado de Caetano) da Cia. de Ópera Seca.

Com possibilidade (ainda não confirmada) de temporada no Rio de Janeiro, em agosto, Travesties critica o lugar especial normalmente conferido ao artista, com referências às vanguardas do início do século 20.

O artista não é especial. Especial é o que tem a dizer. Ficamos presos ao culto à figura, que é desinteressante opina Vilela.

Escritores e dramaturgos renomados, como James Joyce e Oscar Wilde, adquirem importância central na peça.

Stoppard escreve num estilo vitoriano debochando de Oscar Wilde com um humor britânico sofisticado. É desrespeitoso com Joyce e se aproxima mais de Tristan Tzara, justamente o mais anárquico aponta Vilela.

O diretor louva a anarquia no teatro. Lembra até hoje do impacto que sentiu ao assistir à Trilogia Kafka, de Gerald Thomas.

Foi um choque para mim. Vi que era possível ser o dramaturgo de um texto já existente, ser autoral com autores como Shakespeare ou Beckett evoca Vilela.

Contudo, o diretor assume que temeu subverter a dramaturgia de Stoppard.

Eu precisei cortar o texto, mas, ainda assim, procurei me manter fiel. Não me senti no mesmo nível para dialogar com Stoppard confessa Caetano Viela, que está envolvido com o próximo projeto da companhia, previsto para 2011, uma versão teatral da tetralogia de Richard Wagner, composta por O ouro do Reno, A Valquiria, Siegfried e Crepúsculo dos deuses.

Integrante da Cia. de Ópera Seca desde 1999, quando participou do bem-sucedido Ventriloquist, Fabiana Gugli trabalhou com Gerald Thomas numa fase em que o encenador montou seus próprios textos.

A principal diferença é que aqui estamos lidando com o texto de outro autor, Tom Stoppard observa Fabiana, que marcou presença no monólogo Terra em trânsito.

Nesse momento de crise na trajetória de Thomas, Fabiana decidiu se voltar para a preservação da história da Cia. de Ópera Seca.

Edi Botelho quer fazer um livro sobre a companhia. Eu fiquei encarregada de juntar toda a arte gráfica dos trabalhos de Gerald (desenhos, ilustrações, pinturas). O acervo está, em boa parte, na casa dele, em Nova York. É uma memória que vai se perdendo. Antes de ser um encenador, ele é um artista plástico. Dá para perceber o desenvolvimento do pensamento através desses trabalhos assinala a atriz.

E, inspirada por Gerald, Fabiana desenvolve projetos pessoais:

Descobri o prazer de dirigir dando workshops na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e para muitos alunos da Gamboa que nunca tiveram qualquer contato com teatro. Também quero fazer um solo, que ainda vou escrever. O título provisório é F.O.S.S.A, um diálogo entre Ofélia e Shakespeare, uma resposta artística ao que aprendi com Gerald.

(O repórter viajou a convite da organização do festival )

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