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Crítica - "Era no tempo do rei": musical é uma cartilha de clichês

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Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO - A febre de musicais, que aumenta a temperatura das bilheterias, mantém aquecidas as produções do gênero e confirma a ampla aceitação do público, até há alguns anos, arredio às comédias musicais. Se as plateias foram conquistadas, muito se deve a qualificação técnica e profissional dos elencos nacionais, capazes de enfrentar, com domínio de voz e corpo, as partituras complexas e coreografias ambiciosas dos importados. O repertório nacional, que vem se consolidando, a princípio com os musicais biográficos, depois com libretos e canções de autores brasileiros, explorando temática local, ganha com Era no tempo do rei, mais um exemplar com nosso sotaque.

Baseado em romance de Ruy Castro, roteirizado por Heloisa Seixas e Julia Romeu, com trilha sonora original composta por Carlos Lyra e Aldir Blanc, o espetáculo transporta ao Rio de Janeiro de 1810, que abriga a fugitiva família imperial, embalada por valsas, lundus, pregões e modinhas, a escapadela do adolescente Pedro, herdeiro do trono, em plena efusão do entrudo. Na companhia de um precursor dos atuais meninos de rua, Pedro se envolve com espertalhões, prostitutas e policiais. A aventura que o faz conhecer a vida da cidade para além da proteção palaciana.

É uma trama simples, quase farsesca, sem compromisso com verdades históricas ou avaliações críticas. Ainda que a liberdade da ficção tenha levado o autor a criar situação inexistente, o mesmo não aconteceu com o tratamento dado ao recorte histórico. As personagens, os tipos, a ambientação, a época, tudo é conduzido por uma cartilha de clichês do tanto que já se disse e se caricaturou sobre as figuras do período. Do que propõe o entrecho, ressalta pouco mais do que o previsível, mas talvez, comédias musicais não sejam mais adequadas a originalidades. O roteiro não colabora para irrigar a ação. O acúmulo de cenas, que evoluem com cortes que quebram sequências e são retomadas quando já perderam sua integridade, dilui a unidade narrativa e tornam secundários, longos, e até esquecidos, os volteios dos meninos pela cidade.

O diretor João Fonseca acentua o aspecto folclórico e a exterioridade da trama, sem estabelecer um tom (farsa, comédia popular, memória das revistas?) dominante. O cenário de Nello Marrese reforça, igualmente, a indefinição, com painéis pesados e pouco inventivos, enquanto os figurinos de Ney Madeira incorrem em efeito contrário: excessiva definição estilística. A música, elemento central e razão de ser do gênero, é o grande destaque de Era no tempo do rei. A dupla de compositores criou 19 canções, de vários ritmos, que são, verdadeiramente, a partitura dramática da cena. A lírica Amor e ódio, a provocativa Marcha-rancho e a melodiosa O rei das ruas, compõem parte da ótima trilha, que devolve ao teatro a poética sonora de Carlos Lyra, temperada pelas letras faiscantes de Aldir Blanc. Tais qualidades são valorizadas pela direção musical de Delia Fischer e a execução dos músicos.

O elenco de apoio emoldura com empenho a montagem. Christian Coelho e Renan Ribeiro, como a dupla de garotos, marcam presença. Rogério Freitas e Luís Nicolau estão um tanto apagados. Tadeu Aguiar desenha um inglês de farsa. Leo Jaime, apesar de não ridicularizar Dom João VI, fica distante de qualquer humor. Izabella Bicalho sublinha a pouca beleza de Carlota Joaquina com traços caricatos. André Dias encontrou a melhor linha entre todos do elenco para criar João Calvoso. Figura híbrida de desenho animado, personagem de quadrinhos e de comicidade elástica, o ator inventa com habilidade um tipo que sobressai. Alice Borges adota linha de comediante popular para Dona Maria, a Louca, que poderia estar numa revista dos velhos tempos. Para lembrá-los, a atriz faz, com desenvoltura, até mesmo um número de platéia. Soraya Ravenle, com voz límpida e projetada, é responsável pela melhor interpretação das canções. Sua voz faz esquecer os figurinos de inspiração duvidosa de suas caracterizações.

>> Em cartaz

Era no tempo do rei

Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, s/nº, Centro (2332-9257). Cap.: 1.243 pessoas. 5ª, às 19h; 6ª, às 20h e sáb., às 18h. R$ 40 (plateia) e R$ 30 (balcão nobre e galeria). 12 anos. Até 30 de maio.