Obras de Rosane Carneiro dialogam com Frida Khalo e Hilda Hilst
Elaine Pauvolid, Jornal do Brasil
RIO - Corpo estranho, terceiro livro da poeta Rosane Carneiro, sacramenta uma vocação. Em Excesso, o primeiro, de 1999, mostrava-se dona de seus limites e transgressões em passeios pelo corpo e pela alma. A voz sacra clamando santos e ditando preces numa latinidade mística intercalava com o profano da matéria, evocando o universo pictórico da mexicana Frida Khalo (1907-1954). Ainda que o título seja Excesso, segue a sugestão de Ezra Pound (1885-1972) da busca pela palavra exata. Rosane só escreve o que é insubstituível.
A prova surgiu em 2004. O título, que se justifica numa aprovação de conteúdo, ou no rito de passagem, como verbo ou substantivo, abre um leque de possibilidades e indica uma obra coerente. A voz é reconhecível. Os mesmos elementos: o sacro, o profano, o corpo. A mesma característica de estilo e concisão. Se no primeiro livro o excesso era necessário excesso de imagens poéticas no segundo o excesso é lembrado como o que já foi, trazendo a presença do tempo no movimento mesmo da busca por uma maior precisão, no enxugamento das palavras e refinamento do uso.
Em Corpo estranho, os elementos de Excesso e A prova se reafirmam. Na nova produção, a ratificação do corpo com cicatrizes, raízes plantadas no chão como pernas humanas, ou pilares de concreto através da paixão e da razão. De novo se pressentem os tons de Frida Khalo, talvez em telas menos rubras.
Corpo estranho vem maduro. E para ficar no domínio dos quadros, o leitor fazendo uso de sua imaginação, poderá reconhecer, entre uma página e outra, a senhora de cabelos brancos, isolada numa casa no mato, com um cigarro nos dedos, olhando para você da janela. Trata-se da percepção de um diálogo com Hilda Hilst (1930-2004). A influência da poeta paulista na obra da jovem carioca Rosane Carneiro não se faz pela semelhança apenas de alguns dos elementos presentes em Hilda. Isso se poderia dizer dos livros anteriores. O que se revela, mais do que influência de estilo, é o diálogo, a continuidade, a resposta à voz antecessora. Citemos um poema: Eis minhas patas/ toma-as com cuidado/ estão acerca de mim/ como leões de chácara/ e prantos de gárgulas// toma-as com amor/ veste-as novamente/ de força/ fá-las fulgurar/ para o baile do futuro// verte-as em crinas/ de vigorosas tranças/ cura-as com punho de lavrador/ toma-as de novo/ pernas raízes colunas eixos// pilares .
Ambas as autoras conseguem evocar o silêncio e celebrar o reconhecimento de seus corpos, como descoberta incessante que não para de surpreendê-las, movendo-as para uma escrita de testemunho e à libertação da mudez. Silêncio quebrado pelo poema, pela construção de imagens.
Com este terceiro livro, Rosane Carneiro firma-se com dicção e propostas bem definidas, o que faz dela um nome a ser lido e divulgado para suscitar novos diálogos.
