Livro de Enrique Vila-Matas chega às livrarias brasileiras
Antônio Xerxenesky, Jornal do Brasil
RIO - Sou um leitor que escreve. É assim que se define o catalão Enrique Vila-Matas em entrevista a Juan Villoro no documentário Café com shandy. De fato, com exceção de A viagem vertical, todos os outros romances de Vila-Matas disponíveis no Brasil comprovam que ele é um leitor tão compulsivo que suas leituras vazam para dentro do tecido narrativo. Em Bartleby & companhia, constrói um catálogo de escritores (a maioria real, alguns fictícios) que, por um motivo ou outro, abandonaram a literatura. Em O mal de Montano, a escrita surge para curar a pulsão negativa retratada em Bartleby. O autor parte para o exato oposto: personagens doentes de excesso de literatura.
Doutor Pasavento, originalmente de 2004, lançado agora no país pela CosacNaify, surge como continuidade natural das preocupações do autor. Inclusive, em texto coletado no livro Vila-Matas portátil (que reúne artigos críticos acerca do catalão), o escritor afirma enxergar Pasavento como fim de uma trilogia da metaficção , composta por Bartleby & companhia e O mal de Montano. A metaficção seria uma espécie de prosa voltada a si mesma, que versa sobre o próprio ato de escrever e que coloca preocupações literárias no centro do palco.
Logo nas primeiras linhas de Pasavento já se pode vislumbrar a alta carga referencial da prosa de Vila-Matas, que, transformado em personagem, serve de narrador e protagonista. De onde vem a sua paixão por desaparecer? é a pergunta feita por ninguém menos que o fantasma de Montaigne ( inventor do gênero ensaístico) ao alter ego do autor. A partir dessa premissa, da obsessão latente pelo desejo de desaparecer, tem início o romance. Convidado para dar uma palestra em Sevilha sobre as fronteiras entre realidade e ficção, assunto sobre o qual não tem interesse em discutir, o narrador aproveita-se de um sósia que encontra num trem para escapar do evento e, partindo dessa coincidência, assume a personalidade de um fictício psiquiatra, o doutor Pasavento do título. É curioso observar que o assunto adiado (as fronteiras da realidade e da ficção) acabou por ser o tema central do livro seguinte de Vila-Matas, Exploradores del abismo.
As estratégias adotadas pelo narrador para buscar o sumiço iniciam por essa adoção de uma personalidade fictícia e pela obsessão por Robert Walser, escritor que conseguiu a desaparição tanto na vida real como, de certo modo, na própria ficção. Na ficção? A escrita como um modo de sumir? Os pensamentos do narrador parecem conduzir à célebre frase de Georges Bataille: Escrevo para apagar meu nome . Na segunda e na terceira partes, as mais longas do livro, Vila-Matas abusa da mescla entre ensaio e romance, locomovendo-se por referências e citações para compor uma bela reflexão acerca da natureza da literatura. O autor catalão demonstra um incrível talento para desenhar relações inusitadas: através de Walser, passeia por Kafka e Sebald; a partir de uma rua em Paris, liga pessoas tão díspares como André Gide e Karl Marx.
O romance, estruturado praticamente como uma guia do apagamento (impossível não lembrar a famosa música do Radiohead, How to disappear completely), chega ao ápice na quarta parte, na qual o narrador furta a identidade de um escritor que existe, o recluso Thomas Pynchon, cujo rosto é desconhecido por todos. O tema da impostura não é novidade para Vila-Matas, que, com frequência, falsifica a própria biografia, mas em Pasavento alcança novas e instigantes reflexões. Imitador fracassado, o Pynchon de Vila-Matas acaba se tornando um Pinchon com i , preso entre o original e a cópia, entre o real e o falso, entre a verdade e a ficção e, portanto, questiona todo esse sistema binário de posições. Um leitor interessado em teoria e filosofia pode associar essa reflexão com a noção de différance, do filósofo desconstrutivista Jacques Derrida.
Dito tudo isso, cabe a pergunta: quem é o leitor de Vila-Matas? Existe um público interessado em uma ficção tão autorreflexiva, erudita, lotada de referências como a dele? Quantos leitores captarão as referências a O arco-íris da gravidade na última parte de Pasavento? Esse tipo de prosa, cuja preocupação central é a própria escrita, não seria de certo modo o fim da literatura? Maurice Blanchot, citado pelo próprio Vila-Matas, profetiza: Para onde vai a literatura? Rumo a si mesma, que é seu desaparecimento . Muitos detratores do catalão criticam justamente isso: faltam personagens humanos, dramas terrenos. Falar apenas de literatura não passaria de um exercício de umbiguismo?
Em defesa do autor surge a voz do argentino Alan Pauls, autor do brilhante O passado. Pauls defende que a principal razão para invejar Vila-Matas é que ele resolveu o conflito entre a literatura de mundo e a literatura que fala de si , pois através das reflexões acerca da própria literatura Vila-Matas alcança o humano, o metafísico e, por que não, o mundo.
Doutor Pasavento, neste contexto, surge como expressão máxima do estilo elaborado pelo autor. Quem já era entusiasta da sua prosa, provavelmente considerará este romance um dos melhores da sua carreira. Aqueles que repudiam esse tipo de ficção, encontrarão mais argumentos para criticá-lo. Sai ganhando o leitor disposto a se perder nas redes de infinitas relações literárias que Vila-Matas constrói, o leitor enfermo de excesso de literatura (a doença dos personagens de O mal de Montano), o leitor que não tem medo de, como o narrador de Doutor Pasavento, desaparecer no meio da ficção.
