Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Cultura

Livro reúne poesias de Carlos Nejar

Jornal do Brasil

Pedro Lyra, Jornal do Brasil

RIO - Na escala geracional proposta no ensaio/antologia Sincretismo, estruturada na base de 20 anos (e não nos insuficientes e ultrapassados 15 de Ortega y Gasset), contestada por uns poucos poetas da antologia e reconhecida por nomes de fora do país, essa geração tem sua faixa de nascimento entre 1935-55, de estreia entre 1955-75, de vigência entre 1975-95, de confirmação a partir de 1995 e de retirada a partir de 2015, na entrada da casa dos 80.

Precocemente morreram Mário Faustino em 1962, com apenas 32 anos, e Lupe Cotrim Garaude em 1970, com apenas 37. Depois, em 1998, morreriam Orides Fontela com 58 e Lindolf Bell com 60; Adão Ventura em 2004, com 58; Fernando Mendes Viana em 2006, com 73; e, em 2007, Bruno Tolentino com 67 e Marly de Oliveira com 72 todos ainda em plena faixa de vigência (entre os 40 e os 60: Orides e Adão) e de confirmação (entre os 60 e os 80: Lindolf, Fernando, Bruno e Marly).

Mesmo antes de 1995, marco inicial dessa faixa, Nejar já era um nome reconhecido por todos os historiadores e antologistas, professores e críticos (e leitores!) da nossa poesia, inclusive no exterior. Depois dele, alguns outros já também podem se considerar confirmados.

Essa faixa é a hora própria de publicação da obra completa, com os autores sempre inexoravelmente confinados à condição humana no estágio de sua época a caminho da retirada. Como já está feito o melhor que poderiam fazer, só resta preparar um legado à posteridade, para que o poeta possa retirar-se convicto de sua afirmação, liberto da angústia da hipótese de fracasso. Pois agora, em dois alentados volumes, Nejar reúne pela terceira vez a sua poesia.

Numa poesia reunida, mais vale comentar a edição do que a obra: a obra já está lida e consagrada e a própria reunião o confirma. Se não tivesse valor, editor nenhum iria reuni-la. Então, vamos ater-nos a alguns aspectos editoriais. Afinal, é sobre estes volumes que a história vai trabalhar, pois (como informa o autor) alguns poemas reaparecem retocados, portanto em sua versão definitiva, que é a que tem de ser considerada pela crítica.

No fim do volume, duas notas apresentam informações sobre o poeta: uma caótica Bibliografia , que mistura os livros, chama de antologia uma reunião de cinco títulos, e termina com dados biográficos e fragmentos de crítica; e uma Ordem genealógica dos livros , que omite alguns títulos e onde não há genealogia nenhuma, nem de produção, nem de publicação. Os livros estão dispostos numa sequência aleatória: abre com Danações, que é o 5º, de 1969, e fecha com Árvore do mundo, que é o 11º, de 1977. O mais recente é Tratado de bom governo, de 2004.

Em resenhas anteriores sobre livros isolados, publicadas aqui mesmo no Jornal do Brasil ao longo dos anos 70 e 80, este resenhista alternou destaques que restringiam e valorizavam a poesia de Carlos Nejar. Evoque-se um, que implica as duas atitudes críticas: no comentário à coletânea Os viventes, de 1979, que é um conjunto de retratos de figuras humanas representativas de sua área de atuação, afirma-se que era um projeto fecundo, mas se apresentava muito lacunoso, pela ausência de vários grandes nomes. Exatamente 20 anos depois, ele publica uma 2ª edição, com o triplo de figuras.

Estranhamente, esse livro ( um dos melhores do poeta) não aparece nesta reunião e o autor não o justifica. Nem os textos de acesso: no prefácio, Alfredo Bosi não o menciona; na contracapa, Antonio Carlos Secchin apenas registra a lacuna. Também não comparece o título Cinco poemas dramáticos, de 1983. Mas observe-se que o autor nomeou o conjunto como Poesia reunida, não Poesia completa, como já o fizera Cecília Meireles.

Poeta torrencial, com mais de 20 livros, Nejar exercita-se em todos os gêneros. Na épica, legou-nos uma das melhores sínteses poéticas da nossa geração, que entrou na cena histórica sob o sufoco da ditadura militar: Nos roeram tudo/ salvo o coração . E alguns outros textos, como a rapsódia em prosa A idade da aurora, de 1990; e algumas incursões pelo satírico, como no Tratado de bom governo: Toda a razão da república/ É ir de um nada a outro nada . No drama, os Cinco poemas dramáticos, em que (na edição princeps) explora as lendas de Fausto, das Parcas, de Joana d´Arc, de Miguel Pampa e de Ulisses; e outros, reunidos em Teatro em versos, de 1998. Na lírica, encontra-se a maior parte e o mais típico de sua vasta obra, bem condensada em dois de seus expressivos títulos: Um país, o coração, de 1980, e Amar, a mais alta constelação, de 1991.

Poeta espiritualista de fundo místico/metafísico, fortemente impregnado da melhor tradição poética ocidental, a expressão de Nejar tem duas marcas ostensivas: o verso curto, que já nos seus inícios apontava para a pós-modernidade; e a dicção alegorizante, formalizada numa profusão de metáforas, como na sugestiva espuma do fogo que intitula seu livro de 2002.

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