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Cultura

Pele e Osso, romance de Luís Gusmán, ganha tradução no Brasil

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Laura Lorena Utrera, Jornal do Brasil

RIO - Seria insuficiente dizer que Pele e Osso, de Luis Gusmán, é um romance a mais entre os que integram o catálogo do autor. Sobretudo quando uma pergunta tão argentina, tão atual, atravessa as primeiras páginas do livro: que faz um homem para sustentar sua profissão quando a realidade adversa lhe golpeia a cara? Mais ainda, que faz um vendedor de peles para viver e defender sua profissão peleteiro quando a sociedade toma consciência da matança indiscriminada de animais e ecologistas destacam em suas agendas a proteção das espécies?

Principalmente por dois motivos, Pele e Osso é um romance da herança. Primeiro, porque compreende um assunto trabalhista, que insere o personagem Landa no mundo econômico, definindo-o e, por sua vez, dando um título ao livro (no original, El peletero): Landa herda de seus pais o ofício de peleteiro. E, segundo, porque mostra o caso, a doença que Landa herda de seus avós maternos: a diabete que o afeta, o rotula e o identifica desde as primeiras páginas do relato. Profissão e afecção que o tornam diferente dos demais, mas que garantem a Landa um lugar côncavo, que encontrará seu convexo em Osso, personagem que é seu complemento necessário.

Além disso, um novo assunto parece agregar-se a esta ideia de herança: a voz do narrador que conta como Landa premedita o incêndio de seu negócio, quase ao modo de Roberto Arlt, mas com diferenças perceptíveis. Não se trata de um ato terrorista, de uma confabulação, de uma loucura ou de uma alucinação, mas de um ato de identidade. Landa empenha-se em ser esse personagem que, a todo o tempo, quer fazer algo. Pois bem, o romance se torna complexo quando notamos que o problema de Landa não é só a defesa de sua fonte de renda (de conservar um lugar na cadeia econômica), mas de sua profissão, daquilo que sabe fazer porque lhe ensinaram. Lugar que, certamente, está repleto de fraudes, porque a mentira de Landa, de se dizer advogado perante os outros, requer empregar certos artifícios em defesa de seu ofício.

Neste romance, Gusmán consegue armar uma história na qual funcionam inversões de papéis algo simbióticas, pois o peleteiro parece sofrer a pena do animal quando lhe arrancam a pele. Cada vez que penetra na câmara frigorífica, Landa encontra-se condenado a viver para sempre desolado numa paisagem ameaçadora. E faz parte do depósito de peles, porque seu apelido de infância funciona como tal: Me chamavam de Pele , confessa ao filho. A contradição submete Landa ao longo do relato. Landa é um ser ambivalente.

O romance soa simbiótico também porque se encontra respaldado por um cheiro. Cada vez que Landa entra na câmara frigorífica, seu corpo descarrega adrenalina, consequência do medo, do temor de perder seu negócio. Seu cheiro mescla-se com a emanação das peles: Ele suava e as peles pareciam recuperar o odor de seus corpos vivos , conta o narrador. Neste sentido, e paradoxalmente, um dos slogans do Greenpeace funciona quase à perfeição como um condutor do relato: Tanto o homem quanto os animais buscam proteção . E o fedor, o odor, representa uma proteção ante o perigo. É a transpiração inconfundível que vem do terror de se saber perseguido. Acontece a mesma coisa tanto com um homem quanto com um animal .

A publicação de Pele e Osso, assim vertendo para o português El peletero, representa um acontecimento tanto para as letras brasileiras como para as argentinas, pois a tradução realizada por Wilson Alves-Bezerra tem elegância e soltura, sabendo encontrar o tom adequado e necessário do qual as boas traduções nunca prescindem. Para exemplificar este aspecto, nada melhor do que recorrer ao título elegido pelo tradutor: em vez de nomear el peletero, Alves-Bezerra elegeu nomear o duo dinâmico, o par sem igual que se encarrega da fluidez do romance: Pele e Osso.

Temos em mãos a maestria de um autor que se empenhou em escrever um romance que se distingue do universo machista e tangueiro de seu primeiro livro, O vidrinho, também lançado no Brasil pela editora Iluminuras. Pele e Osso consiste num romance em que a relação entre escrita e vida emerge e permanece entre restos de pele morta.