Festival de Berlim investe em cinematografias periféricas
Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil
BERLIM - Tal como uma senhora saudável, rica e vaidosa, a Berlinale, como é conhecido o Festival de Berlim, chega aos 60 anos ainda flertando com as novas gerações do cinema independente. A seleção oficial da 60ª edição da maratona alemã, que vai de quinta-feira até o dia 22, está repleta de cineastas estreantes e cinematografias com poucas chances de chegar ao circuito comercial, vindos de países como Bósnia e Herzegovina, Romênia e Afeganistão. Mas isso não significa que os grandes estúdios ficarão fora da festa: títulos como A ilha do medo, de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio à frente do elenco, a ser exibido fora da competição, garantirão brilho hollywoodiano à programação.
Embora nascida sob às bençãos das majors americanas, a Berlinale nunca escondeu sua preferência pelos filmes de autor, pelo prazer da descoberta de talentos. É certo que, no passado, houve momentos em que o festival se deixou seduzir de maneira desproporcional pelos filmes dirigidos e estrelados por grandes nomes do cinema mundial. Mas, ao assumir a direção do evento há nove anos, Dieter Kosslick não mediu esforços para reconduzi-lo aos trilhos. Quando todos pensavam que só as produções de forte apelo popular fossem sobreviver à crise econômica que se arrasta desde meados de 2008 o que fatalmente influenciaria a seleção de 2010 Kosslick se deparou com curiosas reações do mercado.
Observei, durante a longa fase de seleção, que havia uma oferta menor de grandes filmes americanos e europeus. E, num movimento oposto, muitas pequenas produções independentes conseguiram sobreviver à crise destacou Kosslick, ao anunciar a seleção oficial de 2010. Mas, ao mesmo tempo, tivemos a sorte de os estúdios terem nos oferecido muitos bons filmes para esse ano. Muitos esquecem que as majors americanas tiveram papel importante na fundação do festival, em 1951, que teve a Disney à frente.
Este ano, produções independentes americanas e filmes de jovens diretores da Europa e da Ásia dão o tom da festa de aniversário do festival, que ampliará o seu circuito de cinemas por diversos bairros de Berlim. Do primeiro grupo fazem parte Greenberg, de Noah Baumbach, com Ben Stiller; Please give, de Nicole Holofcener, com Catherine Keener; The kids are alright, de Lisa Cholodenko, com Julianne Moore; The killer inside me, de Michael Winterbottom, com Casey Affleck; e Howl, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, com David Strathairn. The ghost writer, coprodução franco-alemã dirigida por Roman Polanski, Submarino, o novo filme do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, e Mammuth, de Benoit Delephine, com Gérard Depardieu e Isabelle Adjani, também estão entre os títulos que disputam o Urso de Ouro.
Nos últimos anos, nossa programação foi marcada por filmes que abordavam grandes questões de nosso tempo, como a globalização e a exploração do capitalismo. Agora percebo que estamos voltando a problemas mais locais e como eles nos afetam no nível pessoal observa o diretor.
O mesmo pode ser observado nos títulos vindos do Oriente. Tuan yuan (Apart together), do chinês Wang Quan'na (o mesmo de O casamento de Tuya, ganhador do Urso de Ouro de 2007), que abre a competição, é um drama de época sobre um soldado reencontra o amor de sua vida décadas depois de fugir para Taiwan, em 1949. Otouto (About her brother), de Yoji Yamada, veteraníssimo diretor japonês de 81 anos, fecha a competição, em caráter hors-concours. Duas outras produções vindas do outro lado do mundo recheiam a contenda principal: Caterpillar (Japão), de Koji Wakamatsu, e San qiang pai an jing qi ( A woman, a gun and a noodle shop), do chinês Zhang Yimou (de Laternas vermelhas e O clã das Adagas Voadoras).
A participação brasileira se resume à exibição dos longas Besouro, de João Daniel Tikhomiroff, Lixo extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley (já exibido no Sundance), e Bróder, de Jeferson De, na paralela Panorama, e de Os famosos e os duendes da morte, de Esmir Filho, e do curta Avós, de Michael Wahrnann, na mostra Generation 14 Plus, voltada para as plateias adolescentes e jovens. Também está prevista uma projeção especial de O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), de Glauber Rocha, na seção Fórum, como parte das comemorações de seu 40º aniversário.
O cinema latino-americano, que saiu vitorioso nos dois últimos anos (o brasileiro Tropa de elite, de José Padilha, em 2008, e o peruano La teta asustada, de Claudia Llosa, em 2009), emplacou apenas uma vaga na competição: Rompecabezas (Argentina), da estreante Natalia Smirnoff.
Este ano, recebemos menos inscrições de filmes da região comenta Kosslick. Mas as comissões de seleção de outras mostras paralelas fizeram ótimas descobertas por lá. Há filmes do México (To the sea, de Pedro González Rubio), da Colômbia (Retratos en um mar de mentiras, de Carlos Gaviria), e do Brasil na mostra Generation Plus.
