Jaques Morelenbaum prepara o seu primeiro álbum
Bernardo Costa, Jornal do Brasil
RIO - Fiel escudeiro de grandes nomes da música brasileira, como Tom Jobim, Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento e Gilberto Gil e um dos mais requisitados compositores de trilhas do cinema nacional, Jaques Morelenbaum completa 35 anos de carreira à frente do palco: o violoncelista vai lançar, até o segundo semestre, seu primeiro disco solo.
Até hoje não havia gravado um disco meu, já que desde os anos 80 venho recebendo convites irrecusáveis de outros artistas que sempre admirei e acabava ficando sem tempo explica o músico, que em março acompanha Gilberto Gil em excursão pela Europa, EUA, Canadá e Angola, no show do disco Banda dois. Nunca achei que fosse a hora, pois queria me aperfeiçoar como instrumentista. Ainda acho que preciso evoluir, mas resolvi deixar os escrúpulos de lado e mostrar o que está acontecendo comigo agora.
O disco será um resultado direto do trabalho que Morelenbaum desenvolve com o Cello Samba Trio desde 1995, quando se reuniu com o violonista Lula Galvão e o baterista Rafael Barata, inspirado na musicalidade do disco João Gilberto, de 1973, gravado apenas com voz, violão e percussão. O grupo sobe ao palco da Caixa Cultural para duas apresentações, sábado e domingo.
Acho esse disco do João o registro mais genial da música brasileira, por ser uma síntese do que é beleza, samba e sofisticação. No Cello Samba Trio busquei a mesma sonoridade, apenas substitui a voz dele pelo violoncelo, que tem textura semelhante detalha Morelenbaum. No álbum vamos incluir algumas músicas desse disco como Eu vim da Bahia, canções de compositores que ele cantava como Haroldo Barbosa, e baladas românticas que eu curto, como Coração vagabundo e Retrato em branco e preto. O repertório e o clima que planejo pra o disco serão o mesmo dos shows na Caixa Cultural.
Morelenbaum diz que a opção pela música foi algo natural, já que desde cedo frequentava as dependências do Teatro Municipal, onde seu pai, Henrique Morelenbaum, atuava como maestro. Além disso, sua mãe, Sarah Morelenbaum, era professora de piano clássico, de modo que a casa respirava música o tempo todo .
Era o dia inteiro com o rádio sintonizado na MEC AM. Eles tinham uma influência muito forte dos clássicos europeus recorda. Fui criado nesse universo até minha adolescência, quando comecei a me envolver com a música popular. Percebi que no quarto da empregada o rádio tocava samba e não saía de lá. Era o contato que tinha com a brasilidade, com a nossa música.
Essa relação entre o erudito e o popular se tornou uma tônica na carreira de Jaques Morelenbaum, que iniciou a carreira no grupo A Barca do Sol, formado em um curso de férias no Paraná, para onde havia se mudado para estudar, a princípio, música clássica. Quando soube que haveria uma turma de música popular brasileira com Egberto Gismonti e Dori Caymmi, não teve dúvidas em qual curso iria se matricular.
Nessa turma, nós nos reunimos e formamos o grupo. De volta ao Rio, tranquei a faculdade de economia, para desespero dos meus pais, e gravamos nosso primeiro disco, com produção do Egberto. Sempre me identifiquei com ele pelo fato de na sua música não haver barreiras entre erudito e popular.
Depois de gravar Trem caipira (1985), álbum em homenagem a Villa-Lobos, com Gismonti, Morelenbaum passou a integrar a Banda Nova, de Tom Jobim, ao lado de Paulo Braga (bateria), Danilo Caymmi (flauta), Paulo Jobim (violão), Sebastião Neto (baixo) e Miúcha Adnet, Simone Caymmi, Ana Jobim, Elizabeth Jobim e Paula Morelenbaum (vocais).
Minha primeira apresentação com Tom foi em 29 de março de 1985, no Carnegie Hall, o que foi uma consagração pessoal enorme rememora.
Trabalhando com Tom Jobim até a morte do maestro em 1994, Jaques Morelenbaum participou da produção dos discos O tempo e o vento (1985) Passarim (1987), Tom Jobim: inédito (1987) e Antonio Brasileiro (1994). Sua última apresentação com Tom foi em Jerusalém, no dia em que o violoncelista completava 40 anos de idade.
Era o melhor presente que poderia receber. Com Tom, pude aprender com um dos músicos mais geniais do mundo. A Banda Nova era uma família. Todos as noites nos reuníamos na casa dele e ficávamos tocando, bebendo e rindo muito.
Já nos últimos anos de vida, Tom fazia poucos shows, o que possibilitou a Jaques Morelenbaum poder trabalhar com outros artistas, dentre os quais Caetano Veloso. Com o baiano, formou sólida parceria desde o convite para participar como arranjador e produtor do disco Circuladô (1991).
Tocar com Caetano é muito estimulante. Ele abrange ao máximo o universo estético de suas canções. Com a Gal eu já tinha trabalhado no disco Mina d'água do meu canto e agora surgiu a parceria com Gil, nessa turnê internacional. Só falta a Bethânia, para eu tocar com todos os quatro cavaleiros do após-calipso.
> Em cartaz
Jaques Morelenbaum
Caixa Cultural, Av. Almirante Barroso, 25, Centro (2544-4080). Sáb. e dom., às 19h30. R$ 10. Estudantes e idosos pagam meia.
